Como a indústria da IA impulsiona a produção de PFAS

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23 Setembro 2026

Por trás dos bilhões gerados pela corrida da inteligência artificial, outra corrida do ouro, muito menos midiatizada, está em andamento: a das empresas químicas que fornecem alguns dos produtos necessários para a fabricação da infraestrutura que sustenta os sistemas de IA. Entre essas substâncias estão os altamente controversos “poluentes eternos”.

A reportagem é de Emilie Echaroux, publicada por Usbek & Rica, 19-09-2026. A tradução é do Cepat.

Entre essas empresas estão a Arkema, na França; a Daikin, no Japão; a Chemours, nos Estados Unidos; a Dongyue, na China; a Gujarat Fluorochemicals, na Índia; e a Orbia Fluor & Energy Materials, no México. Para esses gigantes da indústria química, os negócios estão em plena expansão desde a explosão da IA generativa. E por um bom motivo: esses grandes grupos fornecem alguns dos materiais e produtos químicos necessários para a fabricação de semicondutores e a infraestrutura que sustenta os sistemas de IA (sendo os data centers os mais proeminentes).

Entre as substâncias que entram nessa cadeia de produção, uma família química concentra as preocupações dos ativistas ambientais tanto quanto impulsiona os negócios dos fabricantes: os PFAS. Esses compostos per e polifluoroalquilados, chamados de “poluentes eternos” devido à sua excepcional resistência que os torna praticamente indestrutíveis no meio ambiente, ocupam um lugar discreto, mas decididamente próspero na corrida global pela IA.

Segundo revelações da ONG sueca International Chemical Secretariat (ChemSec), a maioria dos grandes produtores de PFAS aumentou sua capacidade produtiva para atender à demanda exponencial do mercado. “[Eles] direcionam seus investimentos explicitamente para a ‘revolução da IA’ e a fabricação de microprocessadores”, afirma a organização em uma análise publicada em 13 de setembro sobre os dez maiores grupos do setor, temendo uma “onda gigante” de PFAS destinada a abastecer a indústria da IA.

Essa perspectiva é ainda mais preocupante considerando que essas substâncias se acumulam nos ecossistemas e nos organismos vivos, agravando os riscos de câncer, malformações, colesterol alto e doenças renais e hepáticas (para dar apenas alguns exemplos). 

De chips a sistemas de refrigeração

Cerca de 10 mil substâncias compõem a família dos PFAS. Sua característica comum é a excepcional resistência ao calor, à água e à corrosão, o que lhes garantiu um lugar de destaque na indústria de cosméticos e automóveis a têxteis e eletrodomésticos (olá, panelas de Teflon!). No campo da inteligência artificial, essa robustez oferece novas oportunidades, especialmente na fabricação de semicondutores. De acordo com um relatório do Danske Bank consultado pelo jornal britânico The Guardian, esses poluentes eternos estão presentes em nada menos que mil etapas da fabricação de microchips.

Outra área de aplicação é o resfriamento de data centers. À medida que seu poder computacional aumenta em resposta à explosão de solicitações enviadas a chatbots e outros algoritmos, o calor gerado pelos processadores também aumenta. O problema é que o superaquecimento causa desgaste e envelhecimento prematuro dos componentes, degradando o desempenho dos data centers. Daí a necessidade de mantê-los resfriados – um desafio para o qual os líquidos fluorados (a maioria dos quais pertence à família PFAS) oferecem uma solução cada vez mais popular.

O princípio é simples: os servidores são imersos em um banho de líquidos fluorados que, ao entrarem em contato com os componentes aquecidos, começam a ferver. O calor é, portanto, dissipado com o vapor, que sobe até uma superfície resfriada, condensa-se ali e, em seguida, retorna ao reservatório para recomeçar o ciclo.

Um processo cuja eficiência os fabricantes alardeiam: graças ao seu ponto de ebulição relativamente baixo, esses líquidos fluorados supostamente permitem que os componentes sejam resfriados com menos água e energia. Mas, nessa equação, o custo ambiental dos PFAS permanece amplamente subestimado. “Nenhum teste sobre a poluição do ar ou da água causada por PFAS foi realizado até o momento, e as empresas não são obrigadas a declarar os volumes de produtos químicos que utilizam ou liberam”, observa o jornal britânico The Guardian. Por essa razão, atualmente sabemos muito pouco sobre os volumes de PFAS produzidos e liberados nessa corrida pela IA, nem sobre as repercussões concretas para os trabalhadores do setor, que estão em contato direto com essas substâncias.

Fábricas em profusão

Independentemente das consequências ambientais, quase todos os dez maiores fabricantes de PFAS examinados pela ChemSec planejam aumentar a produção. O grupo francês Arkema – que foi recentemente processado por mais de 200 cidadãos que sofrem de intoxicação por PFAS – inaugurou uma nova unidade de produção de refrigerante fluorado no Kentucky em meados de 2025 para “atender às necessidades de refrigeração em rápida expansão dos data centers”.

A empresa japonesa Daikin planeja triplicar sua capacidade de produção de polímero fluorado até 2027 e está expandindo suas usinas de refrigeração para o México, onde pretende estabelecer presença no próximo ano. A empresa estadunidense Solstice está seguindo uma trajetória semelhante, ao ver a ascensão da inteligência artificial como uma “oportunidade de crescimento histórica”.

Além do grupo suíço Archroma, que se concentra em alternativas livres de PFAS, e da empresa alemã BASF, que anunciou sua intenção de interromper a produção até 2028, a tendência é claramente de expansão. “A menos que governos e órgãos reguladores imponham uma eliminação gradual e rápida, em breve seremos inundados por uma nova onda de poluentes eternos”, alerta Anne-Sofie Bäckar, diretora executiva da ChemSec, ao The Guardian.

É realmente difícil imaginar um declínio quando os Estados Unidos e a China estão envolvidos numa corrida frenética para dominar o mercado da IA. [1]

Uma corrida para ver “quem destruirá o meio ambiente mais rapidamente”, alerta Lenny Siegel, membro da Chips Communities United, um grupo que trabalha com a indústria e governos para proteger o meio ambiente, em artigo publicado no The Guardian.

De acordo com cálculos da Comissão Europeia, as emissões de PFAS para o meio ambiente podem praticamente triplicar entre 2020 e 2050, atingindo 4,4 milhões de toneladas. Esse aumento representa o risco de expor quase um em cada seis europeus (76,5 milhões de pessoas) a altos níveis de contaminação que podem levar a doenças graves. A fatura também seria salgada: os PFAS podem custar à Europa até € 1,7 trilhão até meados do século, se sua produção não for controlada.

Nota

1. Em resposta ao CEO da Anthropic, Dario Amodei, que defendeu a desaceleração do desenvolvimento da IA por motivos de segurança, Donald Trump insistiu na manutenção do atual ritmo, argumentando que os Estados Unidos devem preservar sua liderança sobre a China. “Quem vencer na IA, vence”, declarou o presidente estadunidense durante uma viagem à Irlanda no início desta semana. Em outras palavras: quem vencer a corrida da IA, leva tudo.

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