07 Abril 2026
Especialistas apontam para alto consumo de água por data centers em meio a incentivos do governo para atração de projetos.
A reportagem é publicada por EcoDebate, 06-04-2026.
Cientistas apontam que, para além do uso de energia renovável, políticas públicas que tenham em seu escopo grandes centros de dados devem considerar de forma ampla o impacto hídrico dessas estruturas
Com a ampla popularização dos recursos de inteligência artificial (IA), cresce também a demanda pelo armazenamento e processamento de quantidades massivas de dados necessários para essas atividades. Nesse cenário, grandes projetos de data centers têm se expandido pelo mundo, frequentemente vinculados a importantes empresas de tecnologia, as chamadas “big techs”.
Por serem estruturas com consumo intensivo de energia, o Brasil desponta como um potencial destino para esses projetos, principalmente em virtude da sua matriz elétrica predominantemente renovável. De olho na expansão da economia digital no país, o governo federal se mobiliza para elaborar incentivos e atrair esses investimentos.
Especialistas alertam que, se por um lado o alto consumo energético dos data centers seja conhecido e amplamente discutido pela opinião pública, o impacto hídrico dessas estruturas não têm recebido a mesma atenção, mas é igualmente preocupante.
Na visão de alguns desses especialistas ouvidos pelo Jornal da Unesp, debater as condições e as consequências da instalação dessas estruturas é essencial para orientar a atração de investimentos, especialmente em um contexto de incertezas climáticas e de recorrentes períodos de estiagem e crises hídricas observadas no Brasil nos últimos anos.
Em um artigo publicado na revista Applied Energy, no ano passado, cientistas da Beijing Normal University calcularam que os data centers da China consumiram, em 2022, o equivalente a 15,7 bilhões de litros de água, o que representou 2,7% do total da água consumida no país naquele ano. Para fins de comparação, esse volume equivale a aproximadamente metade do reservatório da Usina Hidrelétrica de Itaipu.
Na mesma linha, a Agência Internacional de Energia aponta que o consumo global de água por data centers está atualmente em 560 bilhões de litros por ano. O relatório do órgão internacional publicado no ano passado vai além, prevendo que, em virtude da crescente demanda por recursos de IA, essa cifra deva alcançar 1,2 trilhão de litros até 2030.
O Brasil ainda aparece como um mercado discreto para esses projetos. De acordo com o Data Center Map, que mapeia essas instalações em todo o mundo, o país possui cerca de 200 data centers, a maior parte de pequeno e médio porte, que costumam atender às necessidades internas de uma empresa ou fornecer serviços de processamento e armazenagem para clientes externos. As estruturas de grande porte, os hyperscale, estão presentes em menor número, e costumam estar vinculados a projetos de processamento de dados e serviços de armazenamento oferecidos pelas big techs.
Este cenário, entretanto, pode mudar em breve. Os data centers hyperscale estão no foco dos esforços do governo federal para criar um ambiente mais favorável para o desenvolvimento da economia digital no país, o que inclui incentivos para a atração de empresas multinacionais do setor. No final de 2025, foi assinada uma medida provisória que concedia isenção de impostos (PIS/Pasep, Cofins e IPI) para a aquisição de equipamentos destinados à implantação, ampliação e manutenção de data centers, chamada Redata, que caducou e agora tramita na forma do Projeto de Lei 278/2026.
“A atividade de processamento desses data centers geram muito calor, ao mesmo tempo, esses dispositivos são extremamente sensíveis à alta temperatura. O recurso hídrico aparece como a principal estratégia de resfriamento para a maioria dessas estruturas”, explica Leopoldo Lusquino, professor do Departamento de Engenharia de Controle e Automação da Unesp, no câmpus de Sorocaba.
Entre suas áreas de atuação, o docente elabora modelos para tornar a IA mais eficiente e, portanto, mais “verde”. Segundo ele, as empresas estão atentas ao impacto das suas atividades sobre os recursos naturais e têm investido no desenvolvimento de tecnologias de resfriamento mais eficientes. Atualmente, as principais opções envolvem o resfriamento a seco, com o uso de ar condicionado, por exemplo. “Isso pode ser útil em países frios, mas em países mais quentes, como o Brasil, isso aumentaria ainda mais o consumo energético.”
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