A era da falência hídrica

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11 Março 2026

Diante da série de tempestades que ganharam a cena neste inverno, parece paradoxal que a situação hídrica global seja precária. No entanto, no estudo Global Water Bankruptcy, a ONU anunciou que entramos na era da falência hídrica. Conforme apontam em suas conclusões, a falência hídrica “se define como um estado de fracasso pós-crise persistente”. “O uso da água a longo prazo e a poluição excederam a renovação e os limites de uso seguros”, alertam. O sistema hídrico “não pode voltar de modo realista aos níveis anteriores”.

A reportagem é de Raquel C. Pico, publicada por Ethic, 09-03-2026. A tradução é do Cepat.

Fontes especializadas destacam como a ONU utilizou o termo “falência” para definir a situação. Como explica Antonio Collados Lara, cientista do Instituto Geológico e Mineiro da Espanha - IGME-CSIC, “introduzir uma analogia econômica para falar sobre a água incide na necessidade de valorizá-la, já que é um recurso fundamental para a vida em nosso planeta”.

Mas do que se está falando exatamente, quando se fala em falência hídrica? O primeiro ponto central destacado no relatório é que os termos anteriores se tornaram obsoletos. O estresse hídrico ou a crise da água não conseguem captar o alcance completo da situação, pois muitas áreas não conseguirão se recuperar, outras estão em níveis críticos e a qualidade da água se degradou tanto que sua reutilização se torna complicada.

De fato, o número de pessoas que vivem em regiões com graves problemas hídricos já é enorme. Segundo a ONU, 75% da população mundial vive em países onde a água é escassa ou insegura. Cerca de 2 bilhões de pessoas vivem em terras que estão afundando devido à superexploração de seus aquíferos, outros 3,5 bilhões em regiões onde a água não atende aos padrões sanitários e outros 4 bilhões em regiões que enfrentam escassez de água severa ao menos um mês a cada ano.

Essas pessoas vivenciam algo intimamente ligado ao que está acontecendo com as massas hídricas. O relatório alerta que metade dos grandes lagos estão secando e que as zonas úmidas estão em crise profunda. Nos últimos 50 anos, 410 milhões de hectares de zonas úmidas foram perdidos: uma área equivalente a toda a União Europeia. Também desapareceram 177 milhões de hectares de pântanos e áreas semelhantes, o que equivale a sete vezes o tamanho do Reino Unido. O relatório estima que, desse modo, houve a evaporação de um valor econômico equivalente a 5,1 trilhões de dólares.

Enquanto isso acontece, as secas também aumentaram. E, como nos lembra o relatório, seu impacto econômico é impressionante: custam ao planeta, a cada ano, cerca de 307 bilhões de dólares.

A perda de água e a situação complicada dos recursos hídricos têm muito a ver com a atividade dos seres humanos. Atualmente, 70% do consumo de água doce é destinado à agricultura. Em todo o planeta, dedica-se o equivalente ao território da França, Espanha, Alemanha e Itália combinados a cultivos irrigados.

A ONU insiste que já se chegou ao limite do que é seguro e que se as coisas seguirem como estão, continuaremos avançando além da nossa capacidade hídrica. “Muitas regiões têm vivido muito acima de suas possibilidades hídricas”, afirma Kaveh Madani, autor principal do relatório. “É como ter uma conta bancária da qual se retira dinheiro todos os dias, sem que se faça um único depósito. O saldo já está negativo”, sintetiza.

Desse modo, o planeta está chegando a um ponto de não retorno? “Localmente, existem muitos pontos de não retorno porque existem estruturas hidrológicas que, se destruídas, dificilmente poderão ser restauradas”, aponta Jordi Catalán, professor do Conselho Superior de Investigações Científicas - CSIC no Centro de Investigação Ecológica e Aplicações Florestais - CREAF. Outras poderiam ser restauradas “dentro de um prazo razoável”. O problema, aponta, é que o planeta está intimamente interligado. A questão vai muito além do local. “O relatório é claro ao destacar que nem todos os sistemas estão ‘falidos’, mas, sim, o suficiente para que o risco seja global e sistêmico”, acrescenta Ana Allende, professora do CSIC.

“Embora tradicionalmente a Europa seja percebida como uma região menos vulnerável, os problemas são evidentes”, observa Allende, citando a degradação de rios e zonas úmidas, a perda de qualidade da água, a superexploração e as secas cada vez mais frequentes e prolongadas. “Não é um ponto crítico clássico, mas sofre uma falência silenciosa”, explica Leticia Baena Ruiz, pesquisadora do Departamento de Água e Mudança Global do IGME-CSIC. “A diferença é que aqui a infraestrutura e a governança atenuam os impactos visíveis, mas o balanço permanece negativo em muitos dos seus sistemas”, acrescenta.

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