15 Setembro 2026
Os data centers, essenciais para a inteligência artificial, exigem a extração de quantidades cada vez maiores de metais e terras raras. Essa indústria destrói, esgota, mata e explora em todos os continentes.
A reportagem é de Celia Izoard, publicada por Reporterre, 14-09-2026. A tradução é do Cepat.
O novo clichê em conferências de negócios é apresentar os data centers como “as fábricas de inteligência artificial”, como faz, por exemplo, o vice-presidente de cloud [nuvem] da Microsoft, Scott Guthrie. Há algo reconfortante e comum nessa descrição, que parece se referir a uma lógica básica. Para ter sapatos, você precisa de fábricas de sapatos. Para ter IA generativa, você precisaria investir em data centers.
Afirmar que o data center é a fábrica de IA é negar as extraordinárias realidades da cadeia de suprimentos digital, da qual os data centers, com seu consumo impressionante de água e eletricidade, são apenas o elo final. A inteligência artificial também se baseia em uma série de crimes: os múltiplos ecocídios e violações dos direitos humanos que se acumulam a um ritmo cada vez maior na produção desses dispositivos extraordinariamente vorazes.
Os centros de dados são vastos armazéns repletos de servidores informáticos compostos por placas eletrônicas. Essas placas contêm uma imensa diversidade de componentes que combinam dezenas de metais e minerais diferentes, purificados a mais de 99,9999%, e que podem ter exigido 1.000 produtos químicos diferentes durante a sua produção.
Entre os componentes das placas eletrônicas estão os semicondutores, chips que, antes de chegarem à fase do produto final, podem ter cruzado 80 fronteiras (cf. Anatomie d’une puce, ed. Le Monde à l’envers, 2026).
No mundo das inteligências artificiais, um chip com apenas alguns centímetros quadrados, como os da Nvidia, líder incontestável do mercado global, pode conter aproximadamente 200 bilhões de transistores – minúsculos componentes gravados em nanoescala. Essa densidade de material sem precedentes faz dos servidores de data centers os objetos mais intensivos em recursos já produzidos na história da humanidade. Esses data centers, além dos servidores, abrigam megawatts de baterias elétricas, sistemas de refrigeração complexos, etc.
692 mil toneladas de metais em 2025
Considerar o data center como a fábrica de IA é ver todo esse conjunto de máquinas como uma espécie de matéria-prima, sendo o produto final, por exemplo, as respostas do ChatGPT. No entanto, semicondutores não crescem em campos abertos, e o subsolo não contém baterias elétricas facilmente disponíveis.
No início do verão, a revista Resources Policy publicou estimativas do consumo de metais para data centers construídos para a IA generativa. Segundo esses especialistas estadunidenses em mineração, seriam necessárias 692 mil toneladas de metal em 2025 e o consumo poderia chegar a 2,6 milhões de toneladas até 2035.
Em seu próprio relatório publicado em 2025, o Fórum Econômico Mundial estima o consumo de minerais de um data center em aproximadamente 70 toneladas de metais por megawatt de energia. Esse número pode ser multiplicado por 3 ou 4 ao se considerar a conexão elétrica, e ainda mais se o centro tiver sua própria geração de energia (turbina a gás, parque fotovoltaico ou eólico, célula de combustível), de acordo com uma publicação recente da empresa britânica de pesquisa e consultoria Wood Mackenzie.
Pode-se, portanto, estimar que os projetos de data center lançados na região de Paris e no norte da França, que exigem uma capacidade elétrica total de 13 GW, necessitariam de quase 100.000 toneladas de metais.
O que significam esses números? Que realidades eles representam nas áreas de mineração?
Os data centers não poderiam existir sem elementos de terras raras, essas dezessete substâncias minerais usadas em escala de miligramas ou integradas em ligas complexas em dispositivos de alta tecnologia. Para citar apenas dois: o térbio, encontrado nos ímãs de placas de circuito eletrônico e semicondutores; e o disprósio, que contribui para a estabilidade térmica dos discos rígidos.
Milícias armadas, pessoas deslocadas, terras poluídas
A China, que comercializa a maioria dos elementos de terras raras vendidos em todo o mundo, importa a maior parte do minério de Myanmar. Na última década, as regiões de Shan e Kachin foram assoladas por um estado de guerra entre os povos dessas colinas e os empreiteiros chineses e suas milícias.
Estes últimos se apropriaram de terras ancestrais de caça e coleta, derrubaram as árvores e estabeleceram acampamentos de mineração. Para extrair o minério, no interior da floresta tropical, ácido e produtos químicos são injetados na própria rocha para dissolver as substâncias desejadas. Estas são então canalizadas para bacias a céu aberto, onde as soluções metálicas são extraídas com o uso de outros produtos químicos.
🔍 Adicione o Instituto Humanitas Unisinos – IHU às suas fontes favoritas do Google
De acordo com uma investigação da ONG britânica Global Witness, as minas de térbio e disprósio contaminaram cursos d'água por centenas de quilômetros, chegando até o norte da Tailândia. Em 2025, havia mais de 500 locais de mineração em Myanmar, abertos em terras de comunidades indígenas por milícias armadas apoiadas pela China.
O artigo da Resources Policy estima que a demanda por elementos de terras raras para os data centers poderá triplicar até 2028 (de 13 para 39 toneladas). Qual seria a alternativa ocidental a essa extração chinesa? Em junho de 2026, a gigante francesa de energia elétrica Schneider Electric firmou uma parceria com a Torngat Metals para explorar depósitos de disprósio e térbio em terras indígenas, a 1.000 quilômetros ao norte de Montreal, ameaçando os lagos de pesca intocados dos povos Innu, Inuit e Naskapi.
Esses depósitos de terras raras são tão radioativos que a Orano (até 2018 se chamava Areva) os cobiçou na década de 2010 para a mineração de urânio, antes que um movimento em toda a província de Quebec pusesse fim ao projeto. O projeto da Torngat é contestado por diversas comunidades indígenas, mas os agentes econômicos ocidentais parecem dispostos a tudo para contornar os monopólios chineses.
Cobre, o metal da sede
O cobre, um excelente condutor, é um dos principais metais utilizados nos data centers, permitindo conexões internas e externas às redes. As empresas de mineração pertencentes à Associação para o Desenvolvimento do Cobre estimam o consumo de um data centers entre 5.000 e 15.000 toneladas.
Não é preciso ir muito longe para entender que o consumo excessivo de cobre acarreta problemas básicos de sobrevivência. No sul da Espanha, na Andaluzia, cinco minas de cobre foram abertas nos últimos anos com o apoio da Comissão Europeia em nome da transição energética. Apenas uma delas (Cobre la Cruzes) consome tanta água quanto 66.000 habitantes, embora esta região seja uma das mais secas da Europa.
Documentando os inúmeros casos de poluição hídrica irreversível causada por empresas de mineração na região nos últimos anos, um grupo de pesquisa da Universidade de Sevilha pediu uma moratória em todos os projetos de mineração de cobre na Andaluzia para evitar o “colapso hídrico”.
Se esta é a situação na Espanha, qual pode ser no sul do Marrocos, onde uma nova mina começou a funcionar em abrir de 2025, apesar do risco da “extrema escassez de água” no país? E quanto ao Chile, onde as empresas de mineração são acusadas de destruir geleiras, reservas hídricas de escala continental?
Já em 2019, mais da metade do cobre extraído no mundo vinha de regiões com escassez hídrica.
No final da década de 2010, determinou-se que, para atender às necessidades projetadas de metais para os próximos vinte anos, seria necessário extrair tanto cobre quanto se extraiu em toda a história da humanidade. A causa foi a necessidade cumulativa de todos os projetos industriais, aos quais foram adicionados os projetos de transição energética: veículos elétricos, conexão de energias renováveis.
A perspectiva já parecia vertiginosa, criminosa. E, no entanto, isso foi antes da explosão da IA generativa. Hoje, ela está multiplicando projetos de mineração, enquanto simultaneamente monopoliza os metais extraídos em nome da descarbonização. A Amazon é, assim, a maior compradora mundial de eletricidade renovável, que utiliza para alimentar sua cloud.
O sofrimento, a violência e as injustiças causadas pela implantação da IA, suas dimensões ecocidas e imperialistas, são proporcionais à sua intensidade material. Quando se considera a sucessão de crimes sobre os quais sua infraestrutura se apoia, os data centers se impõem como uma espécie de bomba-relógio sanitária e geoestratégica, um mausoléu dos ecocídios e guerras do início do século XXI.
Leia mais
- Organizações criticam incentivo fiscal para data centers no Brasil
- Aceleradores emergentes do colapso: big techs, data centers e Inteligência Artificial
- A mão invisível das Big Techs
- A dominação é o compromisso final das Big Techs?
- “Aliança perigosa entre Washington e Big Tech”. Entrevista com Geoffrey Hinton
- A engenharia social das Big Techs. Artigo de Fábio C. Zuccolotto
- Protestos entre empregadas das big tech diante da cumplicidade do Google com o genocídio israelense na Palestina
- EUA: O braço armado das Big Techs. Artigo de Roberto J. González
- Como o Big Money moldou as Big Techs. Artigo de Nils Peters
- Os conglomerados das Big Techs
- As big techs e o fascismo. Artigo de Eugênio Bucci
- O lado sombrio do boom dos data centers. Artigo de Melissa Garriga
- IA: surgimento, aplicações, impactos, dilemas. Nova edição da Revista IHU On-Line
- IA Generativa e conhecimento: a outra volta do parafuso na cultura da aprendizagem. Entrevista especial com Ana Maria Di Grado Hessel
- Emergência climática exigirá que Brasil repense sua estratégia econômica, incluindo o agronegócio, alerta Paulo Artaxo
- Principais causas da perda de biodiversidade
- A atual trajetória de colapso socioambiental é incontestável. Análise de Luiz Marques
- Transição energética. Disputas territoriais, tensões entre a guerra e a paz. Artigo de Alfonso Insuasty Rodríguez
- O “admirável mundo novo” da extrema-direita: a falsa rebeldia e transgressão discursiva nas redes sociais. Entrevista especial com Thomás Zicman de Barros
- “O algoritmo se tornou uma arma de guerra”. Entrevista com Júlia Nueno