23 Setembro 2026
"Em seis décadas, este texto, breve mas audacioso, transformou radicalmente o rosto das relações inter-religiosas."
O artigo é de Lorenzo Prezzi, teólogo italiano e padre dehoniano, publicado por SettimanaNews, 19-09-2026.
Eis o artigo.
Três dicastérios vaticanos se unem para fazer memória de um texto (Um caminho de esperança. Sessenta anos de diálogo e de fraternidade religiosa à luz da declaração conciliar Nostra aetate) entre os mais criativos do Concílio Vaticano II: a declaração Nostra aetate, aprovada em 28 de outubro de 1965.
Os dicastérios para a Doutrina da Fé, para a Promoção da Unidade dos Cristãos e para o Diálogo Inter-religioso reconstroem a continuidade e o desenvolvimento da abertura eclesial ao judaísmo, ao islã e a todas as fés. "Em seis décadas, este texto, breve mas audacioso, transformou radicalmente o rosto das relações inter-religiosas": da distância ao diálogo, ao encontro e à cooperação (n. 57).
Germinado do encontro entre João XXIII e o judeu Jules Isaac, propiciado por Maria Vingiani, e inicialmente estruturado em torno da nova consciência da relação com o judaísmo graças à competência do card. Augustin Bea, o texto foi depois aberto ao islã e às demais religiões graças ao trabalho em assembleia.
Mas o ponto originário e central permaneceu sendo a relação com o judaísmo: "Trata-se da primeira expressão magisterial que reconhece claramente as raízes judaicas de Jesus" (n. 5). Jesus é judeu e o é para sempre, enraizado no judaísmo do primeiro século, núcleo originário do qual nasceram a Ecclesia ex circumcisione (judeus) e a Ecclesia ex gentibus (gregos e romanos).
Nossos irmãos mais velhos
"Com o judeu Jesus, os primeiros cristãos efetivamente adotaram os princípios do judaísmo de então e os adaptaram à nova situação pós-pascal" (n. 9).
A escolha do diálogo com todos não é estratégia de circunstância, nem renúncia à identidade, mas autêntico caminho evangélico. No confronto com a herança judaica, não há apenas diálogo, mas redescoberta das próprias raízes e reafirmação de alguns conteúdos fundamentais: da bênção da criação ao ser humano como imagem de Deus, dos dez mandamentos à indicação do amor a Deus e ao próximo.
"O diálogo judaico-cristão não pode ser considerado uma prática acessória para os cristãos, tendo como finalidade apenas conhecer melhor o judaísmo, ou cultivar relações diplomáticas ou mesmo apenas a amizade com o povo judeu: trata-se, antes, de tomar plena consciência da própria identidade originária" (n. 13). Não para afirmar uma dupla via de salvação ou relativizar a centralidade de Cristo, mas para compreender até o fundo a própria tradição e identidade.
Daí ganha força a oposição ao antissemitismo e a tarefa de manter viva a memória da Shoah.
Os eventos recentes e a guerra expansiva do governo israelense põem à dura prova o diálogo, mas não removem seus pilares firmes. A inflexão teocrática e agressiva do atual governo – comenta um dos signatários, o card. Kurt Koch, prefeito do dicastério para a Promoção da Unidade dos Cristãos, em entrevista – abre "um doloroso dilema entre a solidariedade com o povo judeu e a obrigação ética para com aqueles que sofrem em Gaza". Mas isso não anula a impossibilidade de "ser discípulo de Jesus Cristo e, ao mesmo tempo, antissemita".
Progressiva abertura inter-religiosa
O texto percorre rapidamente os pontificados pós-conciliares para evidenciar a continuidade e a implementação do diálogo com o judaísmo e do diálogo inter-religioso.
Limito-me a mencionar um único elemento para cada papa.
De Paulo VI, recordo a instituição do Secretariado para os Não Cristãos e o início das comissões para as relações com o judaísmo e com o islã.
De João Paulo II, o histórico encontro das religiões em Assis (1986) e a visita à sinagoga de Roma (1986).
De Bento XVI, o magistério contra a violência justificada pelas fés.
De Francisco, a abertura universal de Fratelli tutti e o documento de Abu Dhabi (2019).
Esses dois últimos textos constituem a máxima abertura às fés do magistério católico, que o papa Leão está confirmando. O texto registra a abertura dos diálogos oficiais com o hinduísmo, o budismo, o jainismo, o sikhismo, o xintoísmo, o taoísmo, o confucionismo e o zoroastrismo.
O fruto mais evidente da virada conciliar é a transformação do olhar crente para uma cultura do encontro e o aprimoramento do diálogo como elemento estruturante da comunicação e do anúncio cristão, em suas áreas (as Igrejas irmãs, as fés abraâmicas, as demais fés e os não crentes) e em suas modalidades (diálogo da vida, da ação, da teologia, da experiência religiosa).
Os desafios
Permanecem no corpo eclesial incompreensões e resistências a partir da própria natureza do diálogo, fonte, para alguns, de relativismo doutrinal. Mais concretamente, em algumas regiões do mundo, os conflitos religiosos e as feridas antigas não estão resolvidos, e a manipulação política das fés mina a possibilidade do diálogo. Em alguns lugares, grupos extremistas submetem os cristãos a uma verdadeira perseguição.
Por isso, a escolha do diálogo exige paciência, prática generosa e profundidade espiritual. Sobretudo diante das pulsões identitárias, dos fechamentos étnicos, dos fundamentalismos e das manipulações políticas da religião.
Mas só o diálogo assegura a atração do cristianismo e alimenta uma sociedade fraterna. "A defesa intransigente da própria posição e o proselitismo como única modalidade de encontro com o outro já não têm mais sentido num mundo que se assemelha cada vez mais a uma aldeia global interconectada e em contínua efervescência" (n. 54).
O caminho propiciado pela Nostra aetate revelou-se exigente, fecundo e coerente. Para o futuro, requer fidelidade ao Espírito, esperança e coragem.
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