Vozes de Emaús: Grito dos excluídos e das excluídas 2026 terra-paz-moradia, mulheres vivas e soberania. Artigo de Francisco de Aquino Júnior

Arte: Lauren Palma | IHU

05 Setembro 2026

"O desejo de paz deve se traduzir no empenho cotidiano pela vivência da fraternidade e na luta por direitos que tornem possível uma vida digna para todas as pessoas. Nosso grito pela paz no Brasil e no mundo é, assim, um grito por direitos".

O artigo é de Francisco de Aquino Júnior, presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE e professor de teologia da Faculdade Católica de Fortaleza (FCF) e da Universidade Católica de Pernambuco (UNICAP).

Francisco de Aquino Júnior (Arquivo Pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui.

Eis o artigo.

O Dia da Pátria (7 de setembro) é uma ocasião privilegiada para fazermos ecoar o Grito dos Excluídos e das Excluídas: denunciando toda forma de injustiça, violência e opressão; celebrando e fortalecendo as lutas por direitos no campo e na cidade. Em todas as regiões do Brasil, igrejas, comunidades religiosas, movimentos e organizações populares saem às ruas em defesa da vida. O foco é sempre o mesmo: Vida em primeiro lugar! Mas a defesa da vida implica luta pelas condições que tornem possível uma vida digna para todas as pessoas. Por isso, o grito pela vida (que é o tema geral) não pode ser um grito vazio, genérico e abstrato. Deve ser um grito por direitos reais e concretos (como o lema): Na defesa da terra, da paz e da moradia, erguemos a voz: mulheres vivas e soberania!

Falando de terra, teto e trabalho num encontro mundial com movimentos populares, o Papa Francisco trata de necessidades e direitos fundamentais. Está em jogo aqui as condições materiais básicas da vida humana. Claro que isso não é tudo! É preciso incluir aqui segurança alimentar, saúde, saneamento, educação, segurança, lazer e tantos outros direitos que são fundamentais para viver com dignidade. Ou seja: 1) Falar de terra, é falar de território. E falar de território é falar da ocupação e organização social do espaço. Isso envolve tanto os bens naturais (terra, água, clima, biodiversidade etc.), como os bens, os equipamentos e as relações sociais (infraestruturas, serviços sociais, economia, política, cultura, religião, relações de poder etc.); 2) Falar de teto, é falar da casa, mas é falar também das condições da moradia, dos equipamentos e serviços sociais, do direito à cidade e ao campo e da qualidade das relações. A Campanha da Fraternidade de 2026, cujo tema é Fraternidade e Moradia, chamou atenção para esse problema no Brasil: o déficit habitacional passa de 6 milhões de moradia; 26 milhões de famílias vivem em situação inadequada, em áreas de risco, sem ou com infraestrutura insuficiente; 3) Falar de trabalho, é falar de meio e fonte de subsistência porque é daí que a maioria do povo tira seu sustento. Mas é falar também de saberes e técnicas desenvolvidos e acumulados ao longo da história, de relações de produção (exploração ou cooperação), de concentração ou divisão dos bens produzidos, de construção e cooperação social, bem como de realização pessoal e social. “Terra, teto, trabalho” indicam, assim, as condições materiais básicas para uma vida digna.

Junto a esse grito permanente por segurança alimentar, terra, teto, trabalho, saúde, educação, segurança, lazer etc., erguemos nossa voz por mulheres vivas e soberania. Dois grandes clamores e desafios de nosso tempo.

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É preciso gritar pela vida das mulheres, vítimas de tantas formas cotidianas de violência: verbal, psicológica, sexual, patrimonial, religiosa e até física. Dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública apontam que mais de 1500 mulheres foram vítimas de feminicídio em 2025; a cada seis horas uma mulher é assassinada no Brasil. Em janeiro de 2026, o judiciário brasileiro registrou 947 casos de feminicídio. E quando uma mulher chega a ser assassinada, ela já foi violentada muitas vezes e de muitas maneiras. Não podemos silenciar esse grito: “Chega de feminicídio”! “Nenhuma mulher a menos”! “Quando uma mulher diz não, é não”! “Lugar de mulher é onde ela quiser”! Essa não é uma luta apenas das mulheres, mas de toda sociedade...

E é preciso gritar por democracia e soberania, quando elas são atacadas e ameaçadas dentro e fora do país. Vejam: 1) Temos vivido nos últimos anos ataques constantes à democracia no Brasil e até tentativa de golpe de Estado. Não podemos esquecer o 8 de janeiro de 2023. Não são “águas passadas”, infelizmente. É verdade que nossa democracia é mais formal que real: embora afirme a igualdade de todas as pessoas perante a lei, não torna essa igualdade realidade. De fato, não somos todos iguais! Em todo caso, ela põe alguns limites na vontade de poder das elites e dos aventureiros de plantão, assegura alguns direitos na sociedade e possibilita a alternância de governo por meio das eleições. 2) Além da defesa de nossa frágil e limitada democracia, temos que defender nossa soberania nacional, quando ela é ameaçada por forças externas. Vivemos no meio de uma disputa de poder entre as grandes potências econômicas mundiais. E um fator decisivo nessa disputa são as chamadas “terras raras”, essenciais para a fabricação de tecnologias avançadas. Elas São o “ouro” ou “petróleo” do século 21: A China concentra cerca de 49% dessas “terras raras”; o Brasil tem a segunda maior reserva, com cerca de 23%; os EUA ocupam a sétima posição com cerca de 2,1%. Daí a importância estratégica do Brasil na atual geopolítica mundial. Os ataques do governo Trump ao Brasil (tarifaço, pix, judiciário etc.) são estratégias políticas de pressões e controle sob a segunda maior reserva de “terras raras” do mundo. Mais do que nunca temos que defender nossa soberania: O Brasil é nosso! O Brasil não está à venda! “Tire as mãos, o Brasil é nosso chão”!

Tudo isso é condição e meio para que haja paz no Brasil e no mundo. Como afirma o profeta Isaias: “a obra da justiça será a paz e o serviço da justiça resultará em sossego e segurança para sempre” (Is 32,17). Não há paz sem justiça. Se queremos a paz no mundo (paz verdadeira e não paz do cemitério!), devemos trabalhar pela justiça. O Papa Paulo VI falou disso com muita clareza em sua Carta Encíclica Populorum Progressio: sobre o desenvolvimento dos povos: “Combater a miséria e lutar contra a injustiça é promover não só o bem-estar, mas também o progresso humano e espiritual de todos e, portanto, o bem comum da humanidade. A paz não se reduz a uma ausência de guerra, fruto do equilíbrio sempre precário das forças. Constrói-se, dia a dia, na busca de uma ordem querida por Deus, que traz consigo uma justiça mais perfeita entre os homens” (PP 76). O desejo de paz deve se traduzir no empenho cotidiano pela vivência da fraternidade e na luta por direitos que tornem possível uma vida digna para todas as pessoas. Nosso grito pela paz no Brasil e no mundo é, assim, um grito por direitos.

Nesse dia Sete de Setembro unamos e ergamos nossa voz:

Terra, paz e moradia!

Mulheres vivas!

Soberania!

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