Vozes de Emaús: Por um Cristianismo que procure ser fiel ao Evangelho de Jesus. Artigo de Edward Guimarães

Arte: Lauren Palma | IHU

31 Julho 2026

"Ser cristão pode parecer óbvio, mas é a acolhida de um horizonte novo para o jeito de viver e conviver que se descortina. É um desafio cotidiano nada fácil de ser vivido e que precisa ser discernido em cada situação, relação ou contexto onde a nossa vida e a convivência acontecem. Trata-se da busca diária de ser um discípulo fiel de Jesus: o aprender a ouvir o que o Mestre nos ensina com o Evangelho e praticar, com fidelidade e ardor, os ensinamentos recebidos que nos desafiam a cultivar uma 'vida nova' ".

O artigo é de Edward Guimarães, doutor em Ciências da Religião pela PUC Minas e mestre em Teologia pela FAJE, é licenciado em Filosofia pela PUC Minas (2020) e bacharel em Teologia (1996) e Filosofia (1992) pela FAJE. Atua como professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde é como secretário executivo do Observatório da evangelização. É membro da atual diretoria da Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (SOTER).

Edward Guimarães (Foto: Arquivo pessoal)

O presente texto integra a coluna Vozes de Emaús, que conta com contribuições semanais dos membros do Grupo Emaús. Para saber mais sobre o projeto, acesse aqui

Eis o artigo. 

Nenhuma tradição religiosa, para manter-se lúcida e criativamente significativa, ou seja, libertada e libertadora, pode deixar de cultivar a memória viva de sua experiência primeira: aquela que a fez brotar, que lhe nutre de vigor e inquietude, que mantém a sua vitalidade e capacidade de (re)encantar e entusiasmar a seus fiéis, ou a quem recebe o seu anúncio, ou contempla a beleza de seu testemunho. Experiência portadora da luz e da força necessárias para se reinventar e despertar novos horizontes diante de desafios e crises diversas. Esta memória da experiência primeira é uma das fontes que mantém viva e vivificante uma religião na dinâmica histórica.

No caso do Cristianismo, não pode haver dúvidas: importa que os cristãos voltem sempre ao encontro com Jesus de Nazaré, o profeta da Galileia. O anúncio e testemunho fiel de Jesus ao Evangelho do Reino de Deus presente na história, ao Evangelho da Graça do Amor do Pai Criador, nos revelou quem somos – somos filhos e filhas amados de Deus e, portanto, somos todos irmãos e irmãs – e nos desafiou a cultivar, no âmbito individual e coletivo, formando pequenas comunidades de fé e partilhar da vida, firmadas na práxis da centralidade do amar, cuidar e servir.

Jesus anunciou e testemunhou este Evangelho, num contexto histórico repleto de dominadores e de oprimidos, continuamente ameaçados, fragilizados e enfraquecidos na esperança de qualquer mudança no presente ou no futuro. Ele despertou a sede em muitos - a sede de vida nova e a utopia do projeto de Deus-, com isso atraiu alguns discípulos e discípulas, e criou uma pequena comunidade de experiências de fé e partilha de um outro jeito de viver e conviver.

Este Evangelho de Jesus também provocou inúmeros incômodos sociais, políticos, econômicos, religiosos, e se tornou uma fonte de crise, de conversão e mudança de vida. Mas também foi fonte de perseguição daqueles que não se abriram e nem desejaram mudanças sociais, econômicas, políticas e religiosas. Jesus despertou poderosos inimigos e foi brutalmente silenciado, assassinado na cruz.

Muitos conhecem o que aconteceu após a morte de Jesus, a experiência da fé cristã na Ressurreição e de Pentecostes, e o lento crescimento do fato cristão que impulsionou o surgimento histórico do Cristianismo. Tendo presente o percurso desta longa e complexa caminhada histórica, que forjou uma das maiores e mais numerosas tradições religiosas do contexto atual. No atual cenário, essa tradição está cada vez mais multifacetada, como um Cristianismo multidenominacional (hoje há inúmeras igrejas, movimentos e tradições religiosas que se autodenominam cristãs), no qual muitos cristãos parecem ter perdido a clareza da experiência primeira da fé cristã. Quais seriam os traços basilares para um cristianismo fiel ao Evangelho de Jesus? Quais seriam os traços de um Cristianismo libertado de toda forma de egoísmo e da conivência ou cumplicidade contraditória com poderes opressores, excludentes e violentos?

A reflexão a seguir tem a pretensão de ser apenas um começo de conversa, para qualquer grupo que se deixou tocar pelo encontro desconcertante com a pessoa de Jesus de Nazaré e seu Evangelho do Reino de Deus, e experimenta o chamado de trilhar hoje o caminho aberto por Jesus.

Um olhar para os cristãos que buscam ser fiéis ao Evangelho de Jesus

No nível pessoal e coletivo, ser cristão pode parecer óbvio, mas é a acolhida de um horizonte novo para o jeito de viver e conviver que se descortina. É um desafio cotidiano nada fácil de ser vivido e que precisa ser discernido em cada situação, relação ou contexto onde a nossa vida e a convivência acontecem. Trata-se da busca diária de ser um discípulo fiel de Jesus: o aprender a ouvir o que o Mestre nos ensina com o Evangelho e praticar, com fidelidade e ardor, os ensinamentos recebidos que nos desafiam a cultivar uma “vida nova”. Ser cristão, portanto, é um novo jeito de viver e conviver, trilhando o íngreme caminho salvífico que nos foi aberto por Jesus. Caminho que nos conduz a Deus, que nos revela, amorosamente, quem somos e que nos interpela a vivermos conscientes de nosso dom maior: a graça de sermos filhos e filhas de Deus. Ser cristão não é, meramente, passar por um rito decisivo, o batismo, e passar a frequentar de forma sistemática o que é oferecido no templo de uma igreja cristã. É o cultivo da memória perigosa de Jesus, vivo e vencedor, alimento espiritual que nos leva a busca de uma vida fecundada pelo que foi mais precioso para o homem Jesus de Nazaré: a fé na proximidade amorosa do Pai e no reinado de Deus presente entre nós. Reinado cujo dinamismo histórico libertador nos leva a amar a vida como um dom precioso e, de quem nos aproximar, a amar como um irmão ou uma irmã. Trata-se de colocar no coração e de assumir como o tesouro mais precioso a prática pessoal e o testemunho, enquanto comunidade cristã, dos princípios e valores do Evangelho.

Neste sentido, é necessário, de forma recorrente, explicitar para nós cristãos, e aprofundar nos itinerários formativos de nossas comunidades e igrejas, quais são os princípios e valores inegociáveis do Evangelho para a fé cristã. É fundamental ser capaz de (re)dizê-los e interpretá-los, com entusiasmo e alegria, na linguagem e no contexto sociocultural em que vivemos. Aqui, o que está em jogo é a clareza dos critérios para a avaliação crítica e autocrítica de nossa conversão e de nossa fidelidade ao Evangelho de Jesus. Um Cristianismo, ou o ser cristão, sem o contínuo cadinho purificador do Evangelho se deturpa e facilmente deixa de ser libertado e perde o seu vigor libertador.

Sem qualquer pretensão de completude, reconhecemos entre os princípios e valores do Evangelho de Jesus, fonte de toda vida cristã, e aqui queremos sublinhar como basilar: (1) a consciência que emerge da experiência do encontro com o Abba de Jesus: cada um de nós é filho amado de Deus, é filha amada de Deus (fé confiante, acolhida do Amor e da misericórdia divina, consciência da própria dignidade e reconhecimento da igual dignidade do outro); (2) o chamado a viver e a conviver conscientes da necessidade de cuidarmos da grande mesa da irmandade como projeto divino, pois nela todos somos irmãos e irmãs (fratersororidade, partilha, justiça, luta contra toda forma de egoísmo, dominação, opressão e exclusão); (3) cuidado solícito dos sofredores, doentes e socialmente vulneráveis pela exclusão econômica, política e religiosa (opção preferencial pelos marginalizados: pobres, oprimidos, excluídos). O que você acrescentaria aqui como princípios e valores basilares do Evangelho?

Termino esta reflexão com um alerta, que foi a crítica mais dura de Jesus, e que foi desferida contra as lideranças religiosas de seu tempo: o perigo da hipocrisia religiosa. A hipocrisia transforma a religião em algo diabólico e até mesmo o Evangelho do Reino em má notícia para os seus destinatários, algo abominável e que profana o nome de Deus.

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