A reabertura das escolas católicas em Gaza serve de lembrete de que 'a esperança é mais forte que o medo', afirma bispo

Bispo auxiliar William Shomali, do Patriarcado Latino de Jerusalém, ao centro, e o padre Gabriel Romanelli, pároco da Paróquia da Sagrada Família na Cidade de Gaza. A escola da Paróquia da Sagrada Família reabrirá no outono de 2026, pela primeira vez desde o início da campanha militar de Israel. (Foto: OSV News/Patriarcado Latino de Jerusalém)

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02 Setembro 2026

Enquanto crianças do mundo todo voltam às salas de aula neste outono, os alunos de Gaza retornam a uma realidade completamente diferente, com a reabertura da escola da Paróquia da Sagrada Família pela primeira vez desde o início da campanha militar de Israel.

A reportagem é de Junno Arocho Esteves, publicada por OSV News, e reproduzida por America, 01-09-2026.

Para o bispo auxiliar Dom William Shomali, vigário patriarcal para Jerusalém e Palestina, a retomada das aulas no complexo paroquial representa um pequeno, mas significativo passo rumo à normalidade para dezenas de crianças que vivem em meio ao conflito e à destruição contínuos.

“Reabrir a escola é, em si, uma forma de cuidado”, disse Shomali em entrevista à OSV News em 28 de agosto. “A situação em Gaza continua longe da normalidade — o conflito persiste, e não pretendemos dizer o contrário. Mas, justamente dentro dessa realidade, oferecer às crianças um lugar seguro, com rotinas familiares e professores de confiança, proporciona a elas algo em que se apoiar por algumas horas todos os dias.”

Em setembro, a escola da única paróquia católica em Gaza receberá aproximadamente mil alunos no início do ano letivo, sendo 180 matriculados no jardim de infância do patriarcado e os 820 restantes no ensino fundamental, observou Shomali.

A ênfase dada pelo bispo à importância da reabertura ecoou uma carta pastoral publicada em 26 de agosto pelo cardeal Pierbattista Pizzaballa, Patriarca Latino de Jerusalém, para marcar o início do ano letivo.

Na carta, o cardeal Pizzaballa observou que “em algumas partes da Terra Santa, o retorno às aulas não pode mais ser dado como certo”.

“Há crianças cujas salas de aula já não existem e comunidades em que a alegria de um novo ano letivo é ofuscada pela morte, pelo deslocamento e pela destruição”, escreveu o cardeal. “As nossas escolas cristãs são muito mais do que instituições de ensino. São um pilar da presença cristã na Terra Santa. Acolhem também muitos alunos e famílias de diferentes tradições religiosas e educam gerações na convivência, no respeito mútuo e na aceitação do outro.”

Dom William Shomali, do Patriarcado Latino de Jerusalém, ao centro, e o padre Gabriel Romanelli, pároco da Paróquia da Sagrada Família na Cidade de Gaza. A escola da Paróquia da Sagrada Família reabrirá no outono de 2026, pela primeira vez desde o início da campanha militar de Israel. (Foto: OSV News/Patriarcado Latino de Jerusalém)  

Segundo um relatório de 24 de agosto do Escritório das Nações Unidas para a Coordenação de Assuntos Humanitários, mais de 73 mil pessoas, incluindo 21.283 crianças, morreram em Gaza. O relatório acrescenta que cerca de 1,98 milhão de pessoas — aproximadamente 94% da população — estão deslocadas, enquanto estima-se que 637.475 crianças em idade escolar não têm acesso contínuo à educação formal.

Desde o início da guerra, em outubro de 2023, o complexo da Sagrada Família tem servido como um refúgio vital para famílias deslocadas. Em 2025, o complexo da igreja foi atingido por disparos de tanques israelenses, deixando três mortos e nove feridos, incluindo o pároco, padre Gabriel Romanelli.

Shomali afirmou que, embora a paróquia continue a abrigar civis deslocados, algumas famílias "conseguiram retornar às suas casas, mesmo que muitas dessas casas permaneçam danificadas e em más condições".

Apesar dos grandes desafios, acrescentou ele, o padre Romanelli e a equipe da paróquia têm reparado gradualmente os edifícios da escola.

“Este processo foi cuidadosamente organizado para garantir que as necessidades tanto dos alunos quanto das famílias deslocadas sejam atendidas”, disse o bispo católico. “Os espaços necessários para o ensino foram disponibilizados, ao mesmo tempo que continuamos a acolher as famílias que ainda não têm um lugar seguro para onde voltar.”

Proporcionar educação e abrigar famílias vulneráveis ​​são duas responsabilidades que o Patriarcado Latino considera “inseparáveis”, acrescentou.

Além disso, a segurança continua sendo uma preocupação primordial. Ao ser questionado sobre os protocolos de segurança, Shomali observou que as precauções incluem o transporte dos alunos sempre que possível e procedimentos de emergência claros, embora tenha reconhecido a dura realidade no local.

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“Nas circunstâncias atuais, nenhuma instituição em Gaza pode oferecer garantias absolutas de segurança”, disse ele. “Como todos os palestinos, continuamos a depositar nossa confiança na providência de Deus, enquanto fazemos tudo o que é humanamente possível para proteger aqueles que estão sob nossos cuidados.”

Shomali acrescentou que ficar em casa também acarreta riscos, pois “muitas áreas residenciais foram afetadas pelo conflito, e os riscos não se limitam apenas às escolas”.

Além da instrução acadêmica, o patriarcado oferece apoio psicológico a alunos e professores que enfrentam traumas severos, bem como apoio material e moral aos educadores.

“Agradecemos profundamente o compromisso deles com seus alunos e a disposição em continuar servindo, apesar das dificuldades que eles próprios enfrentam”, disse Shomali. “A perseverança deles é um poderoso testemunho da importância da educação.”

O bispo também reconheceu que as dificuldades se estendem por toda a região, observando que as famílias cristãs na Cisjordânia enfrentam ataques de colonos israelenses, incursões militares noturnas e postos de controle que interrompem a vida cotidiana. Esses ataques motivaram um apelo do Papa Leão XIV, em 16 de agosto, pedindo o fim “dos repetidos atos de violência contra a população palestina da Cisjordânia”.

Apesar das dificuldades e desafios, para Shomali, a reabertura da escola em Gaza serve como uma “poderosa mensagem de esperança, resiliência e solidariedade”.

“Por meio desta escola, a Igreja está dizendo às famílias cristãs locais que elas não foram esquecidas e não serão abandonadas durante o que é, sem dúvida, um dos períodos mais difíceis de sua história recente”, disse o bispo à OSV News.

“A educação é muito mais do que um serviço social; é um ato de fé no futuro e um compromisso concreto para fortalecer a presença cristã na terra onde o cristianismo nasceu”, acrescentou. “Cada criança que entra nesta escola é uma lembrança de que a esperança é mais forte do que o medo e de que a Igreja permanece dedicada a construir um futuro de dignidade, oportunidade e paz.”

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