A crítica do fundamento sagrado do capitalismo e da sua força espiritual. Artigo de Jung Mo Sung

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29 Agosto 2026

"O grande desafio teórico e prático é (re)inverter a lógica e a espiritualidade imposta à sociedade pelo capitalismo. De uma certa, essa é a grande questão teológico-religiosa frente ao capitalismo que age como uma religião. Além disso, não se pode compreender e avaliar corretamente os diálogos e conflitos em torno das religiões, incluindo da relação religião e política, sem contextualiza-los dentro do contexto mais amplo, que é do capitalismo como religião", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião. 

Eis o artigo. 

Todos sistemas sociais precisam ter um fundamento e um sentido último. Por isso, como disse Max Weber, no seu famoso texto Ciência como vocação, assim como antigos, o sistema capitalista também oferece sacrifícios aos Deuses, só que agora não mais encantados, mas impessoais e desencantados. Frente aos sistemas sociais diferentes com noções distintos de Deus, ou o valor absoluto, Weber disse também que não caberia à ciência ou à razão julgar esses deuses. O que a razão científica poderia oferecer é “compreender o que a divindade representa para uma ordem ou para outra, ou melhor, o que ela é numa ordem ou na outra”.

Penso que é importante retomarmos essa tese de Weber de que podemos e devemos compreender a divindade que justifica e dá força “espiritual” de um determinado sistema social ou de uma classe social. Porém, essa tese de neutralidade ética da ciência frente a esses deuses, que foi hegemônica, precisa ser repensada na medida em que mais e mais guerras e genocídios são feitas em nome de um Deus ou de valores sagrados.

Dando continuidade às reflexões que apresentei no último artigo, “O capitalismo como religião: a luta fundamental na relação religião e política”, eu quero aprofundar esses dois pontos: o fundamento e o sentido últimos do sistema capitalista como religião.

Na medida em que a noção de fundamento pressupõe ser algo que está por detrás do que vemos e tende a ser invisível, uma pergunta que surge é: como podemos ver o fundamento último do sistema capitalista? A compreensão da relação entre o fundamento e o modo como um sistema social opera é diferente, por exemplo, da relação entre a fundação de um edifício e a sua estrutura visível. No caso de um edifício, sabemos que a fundação está lá porque aprendemos que nenhum edifício sem fundação não se sustenta. Mais do que isso, a nossa experiência de ver pessoas entrarem, permanecer e saírem sem problemas nos mostra que essa fundação está cumprindo bem a sua função e não pensamos sobre essa questão. A não ser quando ocorre, por exemplo, um colapso e discutimos a solidez dessa estrutura.

O nosso desafio é “vermos” ou desvelarmos os fundamentos do sistema social capitalista, em particular, o seu fundamento último, aquilo que não pode ser questionado e/ou eliminado sem que esse sistema deixe de ser o que é. Esse é um ponto central tanto para os defensores do capitalismo, quanto grupos que querem um sistema alternativo.

Eu não quero discutir aqui se existe ou não algo que podemos chamar de a “essência” do capitalismo, mas devemos reconhecer que, por exemplo, o capitalismo keynesiano e o projeto de estado de bem-estar social das décadas de 1940 a 1970 é diferente do capitalismo neoliberal que passou a ser o hegemônico a partir da década de 1980. Isto é, para diferenciarmos esses dois períodos precisamos usar um substantivo, o capitalismo, e adjetivos.

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O que mantém o conceito de capitalismo apesar de tantas diferenças entre o capitalismo liberal e o neoliberal, ou então um capitalismo marcado pelo racismo e escravidão e um capitalismo pós-escravidão e posteriormente com aceitação dos direitos civis dos negros nos Estados Unidos? Ou então, entre um capitalismo extremamente patriarcal e machista e um capitalismo após o direito de voto das mulheres e das lutas feministas?

As vidas concretas de pessoas e comunidades são construídas e mantidas por meio de relações intersubjetivas, que geralmente são marcas por relações de poder desigual. Por isso, a importância das lutas de pessoas e grupos oprimidas nas relações de gênero, ração/etnia, classe, sexualidade e etc.. Essas relações de poder desigual e de reconhecimento social hierarquizado e/ou de exclusão são anteriores ao sistema capitalista e são reconfigurados no capitalismo. Nesse sentido, há questões antropológico-sociais que permeia toda a história humana, mas para caminhar em direção à condição de maior emancipação e de liberdade humana, precisamos analisar e compreender melhor o contexto sócio histórico em que vivemos e lutamos.

O fundamento último do capitalismo é a sacralidade da propriedade privada e o direito de acumular ao máximo a riqueza na forma de capital. Por exemplo, quando o racismo ou as lutas sociais contra o racismo se tornaram obstáculos à eficiência econômica em função da acumulação, o sistema dominante por meio dos seus “dirigentes” aceitou a integração dos negros e outros grupos no sistema de mercado. Mas, quando esses movimentos vão além da questão do racismo e entram no debate sobre a exploração econômica dos trabalhadores e dos seus direitos trabalhistas, isto não é aceitável para o sistema. Se preciso for, assassinam os seus líderes em nome do valor fundamental e sagrado do capitalismo.

O capitalismo como religião estabelece os limites sagrados, inquestionáveis, que não podem ser atravessados. No interior dessas margens, ocorrem é claro muitas lutas e conflitos que são aceitáveis pelo sistema e os resultados concretos dependem das relações de força em um dado momento histórico. Por exemplo, com o fortalecimento da extrema-direita e dos setores religiosos conservadores, vemos a visível redução dos direitos civis das minorias nas relações de gênero e sexuais. Porém, essa situação pode mudar. Essas oscilações impactam nas vidas das pessoas concretas, mas não ao sistema capitalista como tal.

Nas décadas de 1960 a 80, tivemos na América Latina muitos movimentos sociais e políticos que tentaram romper esses limites “sagrados” com o projeto de socialismo. Movimentos esses formados por ou com muita presença de cristãos inspirados por textos bíblicos e por reflexões da teologia da libertação latino-americana que explicitamente colocam a vida dos pobres acima dos direitos de propriedade e o desejo de acumulação de riqueza. A reação, sob a forma de ditaduras militares em quase toda América Latina, com suas mortes e torturas, foi justificada em nome de Deus, o que revela qual é o fundamento sagrado do sistema.

O fundamento sagrado estabelece os limites, mas não é o suficiente para motivar e fazer crescer ou avançar o sistema capitalista. É preciso também o seu sentido último. A expressão “sentido último” tem a ver com o significado da palavra ou da ação e com a direção, direção que não chega a um determinado ponto ou a um objetivo específico que, ao chegar lá, a missão é vista como terminada. Michel Albert, um empresário e economista francês, no seu livro Capitalismo X capitalismo, nos dá uma síntese dessa questão.

Ele diz, “Lucro para quê? Nunca faça esta pergunta, porque você será imediatamente expulso do santuário, por ter colocado em dúvida o artigo primeiro do novo credo: a finalidade do lucro é lucro. Neste ponto, não se transige. É imperativo abandonar a questão 'filosófica' da finalidade, para fixar-se no estudo 'técnico' dos meios”.

A razão científica moderna abandonou exatamente essa questão da finalidade, mas precisamos retoma-la na discussão racional. Weber, no seu clássico livro O Espírito do Capitalismo e a ética protestante, captou esse novo espírito que move a sociedade moderna. Como ele disse, com o capitalismo o sentido da vida humana das pessoas mudou, ou melhor, o sentido foi invertido: antes as pessoas trabalhavam para viver, com o capitalismo, as pessoas vivem para trabalhar/enriquecer.

Não se pode entender a obsessão de enriquecer sem fim dos multibilionários à custa de sofrimentos de bilhões de pessoas e da crise ecológica sem entender esse caráter religioso e “espiritual” do capitalismo.

O grande desafio teórico e prático é (re)inverter a lógica e a espiritualidade imposta à sociedade pelo capitalismo. De uma certa, essa é a grande questão teológico-religiosa frente ao capitalismo que age como uma religião. Além disso, não se pode compreender e avaliar corretamente os diálogos e conflitos em torno das religiões, incluindo da relação religião e política, sem contextualiza-los dentro do contexto mais amplo, que é do capitalismo como religião.

A questão fundamental na relação entre religião e política não é qual religião é a melhor ou a verdadeira, nem a defesa ou não do pluralismo religioso, mas que tipo de religião ou espiritualidade é capaz de lutar para colocar a dignidade humana e, portanto, os direitos humanos de todos acima do sagrado do capitalismo. Isto é, dessacralizar o capitalismo e criticá-lo.

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