Redes sociais, bots e Inteligências Artificiais: como a extrema-direita transformou desinformação eleitoral em máquina permanente de engajamento? Enquanto candidatos disputam atenção nas redes, saúde, trabalho e educação seguem fora do debate: quando olharemos para as propostas políticas e não para os cortes midiáticos?
Com o Super El Niño à espreita e disputas por terras raras avançando sem licenciamento ambiental, uma pergunta incomoda: os candidatos deste ano entendem o tempo histórico em que vivemos? Da Odisseia de Nolan à Encíclica Magnifica Humanitas, o que ainda nos torna humanos quando parte da nossa própria mente já divide espaço com algoritmos?
Estes e outros assuntos nos Destaques da Semana no IHUCast.
Na era das redes digitais a política também mudou de linguagem. Hoje, uma campanha não acontece apenas em debates eleitorais. Ela acontece no celular, em vídeos curtos, cortes de discursos e conteúdos produzidos para serem compartilhados. E a extrema direita aprendeu a explorar esse ambiente para transformar a política em espetáculo, conflito e engajamento.
Uma das estratégias é simples: criar um inimigo. Em vez de discutir uma proposta ou um problema social, a comunicação política desloca a atenção para alguém que precisa ser responsabilizado por tudo que está errado. O objetivo não é necessariamente apresentar uma solução, mas manter o conflito em circulação e tirar visibilidade de outras pautas.
É a lógica do chamado candidato-espetáculo: a política passa a ser pensada também para render cortes nas redes sociais. Uma fala provocativa pode alcançar muito mais pessoas do que uma explicação sobre um projeto de governo. O político deixa de disputar apenas votos e passa a disputar a atenção.
A inteligência artificial amplia ainda mais esse terreno. Ela permite produzir conteúdos em uma velocidade que a comunicação política tradicional dificilmente consegue acompanhar. Já no início das eleições brasileiras, houve casos de conteúdos produzidos com IA, incluindo um vídeo com um avatar de Jair Bolsonaro exibido durante a convenção que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro. A tecnologia, portanto, passa a fazer parte da própria disputa eleitoral.
Mas a tecnologia não precisa criar uma mentira do zero para ser eficiente. Ela também pode ampliar uma narrativa que já existe. A ideia de que o outro é culpado pode ser repetida, adaptada e distribuída para públicos diferentes. Quanto mais a mensagem circula, mais ela ocupa espaço no debate público e menos espaço sobra para o que importa, as pautas de políticas públicas.
Em uma eleição marcada por disputas e muita atenção às redes sociais, existe uma pergunta importante que acaba ficando em segundo plano. O que os candidatos estão realmente propondo? Porque, enquanto a política se concentra em quem vai vencer, alguns dos problemas que mais afetam a vida cotidiana dos brasileiros continuam sem respostas concretas.
A saúde é um desses temas. Uma análise do ex-ministro José Gomes Temporão aponta que, apesar de ser uma das maiores preocupações dos eleitores, a saúde aparece pouco nas plataformas eleitorais ou é tratada a partir de diagnósticos genéricos. Entre as questões deixadas de lado estão principalmente o financiamento do SUS e a desinformação em saúde.
E falar de saúde significa falar também de dinheiro. O artigo de André Islabão lembra que renda, moradia, alimentação, condições de trabalho e acesso a serviços básicos são determinantes da saúde. Segundo estudo citado pelo autor, o Bolsa Família teria evitado mais de 700 mil mortes e mais de 8 milhões de internações nos últimos 20 anos. Ou seja: políticas sociais também podem ser políticas de saúde.
Mas quanto o país está disposto a investir no SUS? O financiamento do sistema público aparece como uma das questões centrais para o próximo governo. O Brasil possui um sistema universal, mas ainda convive com subfinanciamento e com um gasto privado em saúde superior ao público. E quando o debate eleitoral trata o orçamento apenas como uma questão contábil, desaparece a pergunta sobre qual modelo de saúde o país quer preservar.
O voto é uma decisão sobre capacidade de governo. É essencial incorporar uma nova pergunta ao exercício da cidadania: aqueles que pretendem ser eleitos compreendem o tempo histórico em que vivemos?
O questionamento feito pelo presidente do Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental, Carlos Bocuhy, em artigo publicado pelo site O Eco, traz um alerta para mais temas silenciados no debate eleitoral: a questão climática e a preparação para eventos extremos.
Os fenômenos meteorológicos de alto impacto são cada vez mais comuns em todo o planeta e não vemos uma perspectiva de diminuição a curto prazo. Ondas de calor, secas, incêndios, enchentes, deslizamentos e outros eventos extremos fazem parte da realidade do cotidiano brasileiro
A ausência de políticas de preservação ambiental e prevenção para estes desastres é motivo de preocupação As enchentes ocorridas em 2023 e 2024 no Rio Grande do Sul são um exemplo disto.
Com o alerta para a possível chegada de um Super El Niño no Brasil, a cada chuva mais forte, as lembranças daquele momento e o medo dele se repetir tomam conta do imaginário popular. Isso fica ainda mais marcado quando os governantes não apresentam planos de ação eficazes contra a possibilidade de novos casos.
A inteligência artificial é um objeto de disputa da nossa sociedade contemporânea. Utilizada como ferramenta nas eleições, estudos, locais de trabalho, redes sociais, entre outros, ela pode acelerar processos tanto quanto gerar desemprego, problemas ambientais e até mesmo ser utilizada na guerra, criando um distanciamento da responsabilidade humana pela morte de inocentes
O psicanalista Gustavo Fernando Bertran, em artigo publicado por Página 12, acredita que estamos vivenciando algo maior do que um avanço da tecnologia:
“Não estamos apenas testemunhando uma revolução tecnológica. Estamos passando por uma mutação do próprio inconsciente. Um ponto de virada histórico comparável à invenção da escrita, da imprensa ou da internet. Mas com uma diferença crucial: aquelas revoluções transformaram as ferramentas com as quais vivíamos. Esta começa a transformar o próprio sujeito”
Para Bertrand, a verdadeira revolução não se resume a uma "máquina" capaz de produzir respostas, imagens, textos ou decisões, trata-se da humanidade ter que repensar a si mesma:
“A inteligência artificial, por ora, não possui inconsciente, desejos ou história. Mas participa cada vez mais da nossa história. Não por ser um sujeito, mas por modificar o campo simbólico onde os sujeitos se constituem. Nossos filhos estão imersos em algoritmos. Esse é o verdadeiro acontecimento. A questão não será se as máquinas possuem um aparato psíquico. A questão será como a psique se transforma ao coexistir com suas próprias criações.
O IHUCast é uma produção do Instituto Humanitas Unisinos – IHU e está disponível no canal do IHU no YouTube e no Spotify.