22 Agosto 2026
"As religiões tradicionais, que vemos nesse ir e vir das ondas da água, não são mais os fundamentos da crença básica da sociedade."
O artigo é de Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
Se é verdade que não se pode entender a política e a geopolítica internacional sem compreender a relação entre a religião e a política no mundo de hoje, também é verdade que é preciso repensar a noção de "religião" nessa equação. Mais do que isso, descobrir a "religião" mais profunda, mais fundamental e invisível do mundo capitalista dentro do qual as discussões e lutas sobre a relação religião e política estão ocorrendo.
Normalmente, pessoas que discutem sobre esse tema entendem a religião como um sistema social que gera uma identidade, senso de pertença, com doutrinas e valores morais que dão sentido às suas opções de vida e ações em torno daquilo que chamamos de Deus ou de seres sobrenaturais ou espirituais. Em linguagem mais ampla, em torno de valores absolutos.
Entretanto, se olhamos com mais calma os temas e os argumentos em debates mais "quentes", com uma alta carga emocional, vemos que nessa relação entre a religião e a política há um deslocamento ou uma mudança de conceitos centrais na discussão. Por exemplo, em discussões sobre a figura e as opções teológico-pastorais do Papa Francisco, muitas pessoas que se opunham ao papa, incluindo figuras importantes da Igreja Católica, o acusaram de comunista. O próprio papa falou sobre essa acusação. Na mentalidade comum das sociedades capitalistas, acusar um papa de comunista é também acusá-lo de ateu, ou pelo menos de herege. O que não faz muito sentido, especialmente para católicos.
Acusar um papa, atual ou não, de ateu ou de herético porque ele seria um comunista (ou defensor do comunismo), é mais do que "misturar" a relação entre a religião/teologia e a economia política, é revelar uma mudança ou um deslocamento fundamental do critério dogmático, religioso, para acusar alguém de herege ou ateu. O Papa Francisco não foi acusado de heresia por ter negado ou ensinado erradamente algum dogma, por exemplo, a doutrina da Trindade, que depois o teria levado a defender o comunismo. Ao contrário, ele foi acusado de heresia por ter defendido a "opção preferencial pelos pobres", isto é, defender os direitos de viver com dignidade dos pobres e, com isso, relativizado o conceito de propriedade privada que está sendo absolutizado no atual capitalismo neoliberal.
A acusação de comunismo, nesse caso, é derivada da defesa dos pobres, o que inclui os imigrantes pobres ilegais. O Papa Francisco nunca defendeu o comunismo, mas sim os pobres. O problema é que, no atual sistema econômico-político, não se pode defender esses pobres sem relativizar a propriedade privada e as leis do mercado, mercado esse que exclui os pobres por não terem dinheiro e direciona todas as atividades econômicas em função da acumulação de riqueza nas mãos dos mais ricos. Por isso, o Papa Francisco foi acusado de comunista.
Quando uma questão econômica, a propriedade privada e o sistema de mercado capitalista neoliberal, se torna um critério de acusação de heresia ou de ateísmo, precisamos reconhecer que a "religião" mais importante não é mais aquela que aprendemos na nossa história e cultura, mas uma outra que é invisível.
Para entendermos esse deslocamento, vamos diferenciar dois níveis na relação religião e política. Usando a metáfora das águas do mar, temos o nível mais visível, em que as ondas vão em uma direção e que podem se chocar entre si; e o menos visível, o da corrente marítima profunda, que é mais "estável". No texto anterior, eu tratei do nível mais visível; agora, quero lidar com o mais profundo.
Contra a autoimagem mais disseminada do mundo moderno de que, com a secularização, a religião perdeu espaço e função na esfera pública, Max Weber fez uma afirmação que vale a pena retomarmos para a nossa questão. No famoso texto "A ciência como vocação", ele disse: "tudo se passa exatamente como se passava no mundo antigo, que se encontrava sob o encanto dos deuses e demônios, conquanto assuma diferente sentido. Ofereciam sacrifícios a Afrodite os gregos, [...] assim fazemos nós, ainda hoje, tendo apenas a atitude do homem sido desencantada e despida de sua plasticidade mística, mas interiormente autêntica". Ele não está se referindo à noção de religião, com os seus ritos e mitos, mas sim à noção de "sacrifício" que existe desde o início do surgimento de organização de grupos humanos e continua no nosso mundo. O desencantamento do mundo moderno despiu ou, na minha compreensão, modificou as linguagens rituais e dos mitos, mas não a necessidade de oferecer sacrifícios aos deuses.
Isso porque todos os sistemas sociais precisam fazer opções para atingir os seus objetivos, especialmente quando temos conflitos entre opções legítimas e defendidas por grupos diferentes da mesma coletividade. Tomemos como exemplo a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão da Revolução Francesa, de 1789. O uso da palavra "sagrada" nessa declaração pode parecer estranho, lembrando que essa revolução foi contra um sistema social-político baseado na noção de Deus e dos valores sagrados, mas me parece que foi necessário. Porque, diante de direitos conflitantes, é necessário definir o critério último, ou o direito "absoluto" que não pode ser questionado, isto é, que é sagrado. Sem esse critério último, nenhum sistema social consegue estabelecer um estado de "paz" ou um "contrato social". E nessa Declaração, a palavra sagrada foi anexada ao direito de propriedade privada. Por isso, é conhecida como revolução burguesa.
A noção de sagrado implica e exige a de sacrifício. Sacrifício é a ação de fazer o sagrado, isto é, oferecer sacrifícios aos deuses, míticos, pessoais ou desencantados. E a função social do sacrifício, seja do passado ou no mundo de hoje, é justificar os sofrimentos e/ou mortes de uma parte da comunidade em função de atingir o objetivo final que é visto como sagrado. O que significa que essas mortes são vistas como exigências de Deus/sagrado em troca da realização das promessas divinas. Por isso, só se pode matar crianças inocentes, seja em genocídios ou em processos de exclusão social, em nome de Deus, não importa se ele é pessoal ou desencantado.
Walter Benjamin, em um pequeno texto de 1921, Capitalismo como religião, não publicado até 1985, diz: "O capitalismo deve ser visto como uma religião, isto é, o capitalismo está essencialmente a serviço da resolução das mesmas preocupações, aflições e inquietações a que outrora as assim chamadas religiões quiseram oferecer respostas". Afinal, se essas questões fundamentais da sociedade e dos indivíduos são inescapáveis, qual sistema fundamental de "crença" está realmente respondendo a elas no mundo moderno capitalista?
As religiões tradicionais, que vemos nesse ir e vir das ondas da água, não são mais os fundamentos da crença básica da sociedade. Mas sim os valores, símbolos e "doutrinas" do capitalismo. Por isso, sem perceber, um católico (ou um cristão de uma forma geral) que crê no capitalismo acusa o papa de herege e mostra a "prova" com a acusação de comunismo. A sua prova não é uma prova, mas sim a expressão da convicção ou da fé de que só o "Mercado Livre" salva.
Por outro lado, para o Papa Francisco, e muitos outros, não é possível anunciar uma boa-nova à humanidade sem criticar o atual capitalismo como "uma economia que mata". Não porque ele está misturando a religião com a política, mas sim porque ele crê em um Deus que defende a vida de todas as pessoas, incluindo os mais pobres.
A guerra "espiritual" fundamental, dentro da qual se lutam diversas batalhas, não é religião sim ou não, ou qual religião, mas sim entre uma visão de Deus que justifica os sacrifícios de vidas humanas, especialmente dos pobres e dos indesejados, e um Deus, ou um outro princípio absoluto, que defende a igualdade de todos de viver com dignidade.
Leia mais
- A separação entre Estado e Igreja X a fé e política em tempo de Trump. Artigo de Jung Mo Sung
- Os três sagrados e o ataque à democracia: uma perspectiva teológica. Artigo de Jung Mo Sung
- A centralidade do padre/pastor na Igreja, a nova direita e o detergente Ypê. Artigo de Jung Mo Sung
- A luta política em torno da teologia do pecado, a rebelião de Eva e o pecado estrutural. Artigo de Jung Mo Sung
- A identidade religiosa e a racionalidade política na relação fé e política e a eleição. Artigo de Jung Mo Sung
- A importância dos rituais na crise de identidade e as lutas teológico-político-sociais. Artigo de Jung Mo Sung
- Walter Benjamin e o messianismo. Artigo de Enrique Dussel
- "Marxismo só tem sentido como um pensamento aberto". Entrevista especial com Michael Löwy
- A ética e o líder carismático. Cem anos da morte do sociólogo Max Weber
- Max Weber A ética protestante e o espírito do capitalismo Cem anos depois. Revista IHU On-Line, no. 101
- O marxismo weberiano: uma das múltiplas expressões no campo intelectual brasileiro. Entrevista especial com Michael Löwy
- Max Weber, o protestantismo e o capitalismo
- Weber, a infância liberal do líder carismático. Artigo de Gian Enrico Rusconi
- Especialista em Weber, reforçou a identidade cristã do brasileiro
- "Nenhuma guerra é justa": a ruptura do Papa Francisco
- Teólogo critica o Papa: declarações inconsistentes sobre a guerra justa
- "Algo chamado Doutrina da Guerra Justa". Mike Johnson discursa para o Papa Leão XIV sobre Agostinho
- Franz Jägerstätter, 80 anos de seu martírio por objeção de consciência na Segunda Guerra Mundial
- Franz Jägerstätter: um jovem de olhos grandes. Artigo de Tonio Dell'Olio
- Os papas Francisco, Leão XIV e o lugar da Doutrina Social da Igreja. Artigo de Jung Mo Sung