"Enfrentar o modo católico de ser Frei Gilson e de tantos outros padres e freis nessa disputa eleitoral é necessário, mas a questão é: como? Não basta criticarmos com argumentos teológicos ou filosóficos modernos, pois não são critérios últimos na questão da fé-religião. Podemos provar que a teologia dele não é correta, mas isso não gera mudança da perspectiva teológica e política de milhões de pessoas que o seguem, seja na rede social, seja nas suas orações de terço. O que significa, não muda votos. Isto é, precisamos diferenciar o nível ou o campo em que estamos lutando. E a luta se dá, nesse caso, no campo eleitoral", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
No final da década de 1990, Manuel Castells publicou um livro que se tornou clássico, A era da informação: economia, sociedade e cultura. A sociedade em rede, e no início disse: “Nesse mundo de mudanças confusas e incontroladas, as pessoas tendem a reagrupar-se em torno de identidades primárias: religiosa, étnica, territorial, nacional. [...] Cada vez mais, as pessoas organizam seu significado não em torno do que fazem, mas com base no que elas são ou acreditam que são” (o itálico é meu).
Assumindo a tese de que, nos tempos de hoje, as pessoas sabem ou pensam o que são (identidade), não mais por sua função social produtiva e seu lugar nas relações de produção e, portanto, nos conflitos de classes e políticos, mas sim em torno de “identidades primárias”, quero discutir aqui o tema da identidade religiosa católica e a eleição deste ano, ou melhor, a questão da “fé e política” e a polarização política no Brasil.
As pesquisas eleitorais têm mostrado que a eleição presidencial, no segundo turno, está totalmente empatada entre Lula e Flávio Bolsonaro, o que significa que uma mudança de perspectiva ou de escolha de 3% do país definirá o futuro econômico-político dos próximos 4 anos. Razão pela qual, o que podem parecer detalhes serão fundamentais. Por isso, correndo o risco de mal interpretações, quero trazer aqui umas reflexões a partir de uma afirmação que está em um artigo do IHU: “Daí surge o templo de Frei Gilson, na combinação notória das duas tendências mais marcantes do cristianismo de nossa época – a volta do paradigma religioso e o caráter cosmético desse paradigma (o que a contemporaneidade trouxe de ‘novo’). Essa fé militante e combativa precisa de seus monges e místicos, adorando, isolados dos campos de batalha, seus objetos sagrados. [...] Orações e lives com as bandeiras da monarquia e da república, as orações contra o comunismo. O megatemplo é a materialização e conclusão do carisma espiritual de Frei Gilson [...] ”.
Enfrentar o modo católico de ser Frei Gilson e de tantos outros padres e freis nessa disputa eleitoral é necessário, mas a questão é: como? Não basta criticarmos com argumentos teológicos ou filosóficos modernos, pois não são critérios últimos na questão da fé-religião. Podemos provar que a teologia dele não é correta, mas isso não gera mudança da perspectiva teológica e política de milhões de pessoas que o seguem, seja na rede social, seja nas suas orações de terço. O que significa, não muda votos. Isto é, precisamos diferenciar o nível ou o campo em que estamos lutando. E a luta se dá, nesse caso, no campo eleitoral.
Muitos dos discursos e argumentos dos diversos movimentos de fé e política, na linha de esquerda, são baseadas na noção de “função e lugar social” (por exemplo, a defesa dos pobres e luta de classes), e defendemos os direitos sociais e o papel sócio-político do Estado na construção de justiça social. Por outro lado, a maioria dos católicos pensam a relação fé e política a partir da perspectiva de “identidade”: eu sou católico. E, como católicos, devemos defender a crença em Deus e lutamos contra os ateus, os que negam a existência de Deus ou a importância da religião e da Igreja. As orações contra o comunismo são expressões dessa visão de fé, de teologia e da Igreja. E, na Igreja, as pessoas mais importantes são as pessoas sagradas, bispos, os padres, as irmãs. Toda cultura e o funcionamento de quase todas comunidades católicas são baseadas nessa visão de sagrado.
Os argumentos de Frei Gilson, e outros, são fundados no princípio de “identidade católica”. A força político-teológica desses padres vem da busca dos seus seguidores de uma identidade católica que lhes ajuda “sobreviver”, no caso dos pobres, ou de justificar os seus privilégios, no caso dos ricos. E como disse Castells, no nosso tempo, a identidade primária da religião tem prioridade em relação ao argumento racional da política. Enquanto a esquerda moderna cristã argumenta a partir da razão instrumental, ou da razão política, isto é a racionalidade para conquistar o poder do Estado e mudar as relações econômico-sociais, de injustas para mais justas.
Na prática, a pergunta central, então, é: queremos mostrar que estamos teologicamente certos ou queremos ganhar a eleição para construirmos uma sociedade mais justa? Se queremos ganhar, precisamos mudar a nossa linguagem e trabalharmos melhor o tema de identidade católica na relação fé e política. Como escrevi em outro texto, eu sou um católico, teólogo da libertação, que aprendeu a ser católico rezando terços e ainda o carrego.