26 Março 2026
"Hoje, o que existe não é o empreendimento cosmológico, mas cosmético – cosmeticológico, digamos. A aparência é o motor – o alçar a Deus é um alçar contra os modernos infiéis e a sociedade laica. É um alçar que se propulsiona nos corpos dos 'degenerados' abaixo deles. Não existe uma positividade, porque não existem fontes profundas e verificadas, interessadas pela verdade em si mesma; essas fontes, hoje, desmentem tudo em que acreditam, desnudam tudo como mitologia, ideologia, desespero e, em casos menores, mera falsidade. Por isso, o movimento precisa se definir negativamente. A fé está sendo atacada, e uma reação é necessária", escreve André Oliveira Sette dos Santos, estudante de teologia, tradutor e pesquisador em teologia contemporânea, em artigo enviado por e-mail ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU.
Eis o artigo.
No seu romance definitivo, Günter Grass satiriza a mente do guarda policial, o protótipo da autoridade e daquele que detém algum poder, por mais ínfimo que ele seja: “guardas só pensam em duas alternativas”. Consternados e indecisos se o infrator tinha ido para a esquerda ou para a direita, mal sabiam que o procurado se encontrava debaixo das saias da mulher a quem interrogavam.
Algo profundamente semelhante aparece no episódio do Grande Inquisidor, de Dostoiévski. O inquisidor também pensa em alternativas simples, mas agora em escala civilizacional: ou liberdade ou felicidade; ou Cristo ou o bem-estar da humanidade. Para ele, Cristo errou ao confiar na liberdade humana, pois o homem — em sua antropologia — não deseja verdadeiramente liberdade, mas pão, milagre e autoridade. Assim, o inquisidor corrige Cristo propondo as três soluções da tentação: pão para satisfazer a necessidade material, milagre para subjugar a consciência e poder político universal para garantir a ordem. O mundo humano, na visão do inquisidor, deve ser administrado por essas três alternativas, pois a liberdade do evangelho é julgada por ele como uma exigência insuportável. Nesse sentido, o guarda de Grass e o inquisidor de Dostoiévski pertencem à mesma família espiritual. Ambos são administradores do real. Ambos operam pela mesma redução: transformar a complexidade da realidade em um conjunto limitado de opções controláveis. Quando o inquisidor diz que os homens não podem suportar a liberdade e precisam de pão, milagre, ele está fazendo exatamente o que o guarda faz na esquina: reduzir a multiplicidade do real a um sistema manejável de decisões.
Algumas autoridades da Igreja Católica são argutas demais para confessar sua fé de Grande Inquisidor. Mas o pensamento de alternativas se mantém. O lema comum hoje é: ou o Mundo é glorioso, ou Deus é glorioso. É preciso tomar as dores desse Deus soberano, sagrado, viril, amoroso com seus filhos tão piedosos e justos. Esse Deus marcou a civilização e os monumentos desses virtuosos; se identifica e é defendido – glorificado – por eles. Um Deus, portanto, a quem chegamos e alcançamos e buscamos alcançar. A catedral é o símbolo bastardo dessas frentes, e estaríamos sendo desonestos se não encontrássemos certas ressonâncias, mesmo que bastardas. As catedrais realmente refletem uma cultura que também queria alçar a Deus. Se tratava, porém, de uma época em que o esforço que a constituiu era original e vanguardista – era realmente o motor da história. Os escolásticos buscavam entre Atenas e Jerusalém uma “técnica de salvação” (Vilém Flusser) capaz de tornar o Cristianismo coerente diante da “bagunça patrística” (Luis Bacigalupo) porque o Cosmos era cada vez mais depreendido por meio das fontes mais profundas e verificadas de seu tempo como um todo racional e harmônico.
Casaldáliga numa missa entre o povo de Deus. (Créditos: imagem enviada pelo autor do texto)
Hoje, o que existe não é o empreendimento cosmológico, mas cosmético – cosmeticológico, digamos. A aparência é o motor – o alçar a Deus é um alçar contra os modernos infiéis e a sociedade laica. É um alçar que se propulsiona nos corpos dos “degenerados” abaixo deles. Não existe uma positividade, porque não existem fontes profundas e verificadas, interessadas pela verdade em si mesma; essas fontes, hoje, desmentem tudo em que acreditam, desnudam tudo como mitologia, ideologia, desespero e, em casos menores, mera falsidade. Por isso, o movimento precisa se definir negativamente. A fé está sendo atacada, e uma reação é necessária.
Se a ocasião ensejar, superstições serão usadas. Se úteis, os questionamentos céticos entrarão em cena. Se for preciso, negaremos a validade das vacinas e do voto feminino. Mas também podemos esquecer desse impasse se o ministro da saúde for de nosso agrado e se a mulher certa for deputada. Aqui a caricatura tão irreal dos chamados “pós-modernos” na “era da pós-verdade” entra em vigor de fábrica no corpo e boca de seus antigos acusadores.
Daí surge o templo de Frei Gilson, na combinação notória das duas tendências mais marcantes do cristianismo de nossa época – a volta do paradigma religioso e o caráter cosmético desse paradigma (o que a contemporaneidade trouxe de “novo”).
Aqui o jornalismo e a língua popular nos ajudam, refletem em nosso lugar. O complexo gigantesco tem função de servir como centro espiritual e local para a adoração ininterrupta do Santíssimo Sacramento. Mas foi chamado pelo público de megatemplo. Não é um mero templo porque este seria religioso, e isto não basta, precisa ser também cosmético – a aparência de um cosmos ordenado, que já se sabe superstição –, precisa ser um megatemplo. Templo dos templos. Para guardar os muros contra os ataques do mundo que persegue os fiéis piedosos de Deus. Os números são fundamentais; mais fundamentais que as “coisas” mesmas a que os números rodeiam – da mesma maneira que a motociata de um político e uma exibição do exército no meio da capital do país é o fim pelo qual todas as decisões desse mandato foram sucedendo. Os números discretos abaixo dos anúncios dos terços de madrugada, um número impressionante de fiéis que seguem as preces e orientações do Frei, são parte integrante da arte. Fé de milhões, toneladas. A adoração tem de ser 24 horas por dia. Tudo, todo, total.
Essa fé militante e combativa precisa de seus monges e místicos, adorando, isolados dos campos de batalha, seus objetos sagrados. O sagrado, concordam todos os antropólogos da religião, de um extremo ao outro, é definido por sua atitude de separar-se do profano. O apoio é manso e suave, mas definitivo. Orações e lives com as bandeiras da monarquia e da república, as orações contra o comunismo. O megatemplo é a materialização e conclusão do carisma espiritual de Frei Gilson – representar o sagrado pelo qual os admiradores e defensores do Ocidente lutam.
Em nenhum momento questionam esses homens e mulheres da radicalidade de um Deus que se fez homem. É humilde, bastante humilde, perguntar se isto não deveria acarretar mudanças profundas de como concebemos a arquitetura de nossos espaços de adoração. A postura da Revelação, afinal, é diametralmente oposta à da religião; se trata de Deus alçando ao homem. Um movimento bastante inusitado e que dificulta a escolha de um lado por qual batalhar e um lado para fazer de Anticristo. Se esse fosse o caso, porém, a reza do meu terço as quatro da manhã não tem o significado que eu achava ter. Já não estou trabalhando para estar em sintonia com esse Deus acima de mim. Um megatemplo também perde sua pujança: talvez um templo já bastasse. Talvez a própria estrutura de nossos templos precise ser repensada, se esse Deus que desceu aos homens está certo quando diz que o templo vivo somos nós, de carne e osso – apenas porque vivemos nele.
O futuro, e esse Deus apocalíptico que vem do futuro, e não meramente do alto, ameaça minha consciência. É um Deus, com efeito, impossível de se domesticar. As regras naturais do espaço, incluindo as regras da elevação e progressão de altura como sinais de ascensão metafísica, já não valem mais. Se concebemos, porém, Deus como uma absoluta e total presença, presente igualmente em todos os pontos, inclusive à nível de dissolver essas distinções entre presente passado e futuro, ele já não mais me ameaça e é agradável – razoável – à consciência. Nesse momento, a relação do homem com Deus é compreendida nas lógicas da aproximação e da distância, da condescendência dessa presença e de sua totalidade e inefabilidade de Ser, respectivamente. Por isso, todas as Igrejas, sejam católicas, ortodoxas ou protestantes, sempre serão compostas de dois lugares radicalmente separados: o ponto onde o fiel se instala e o ponto onde o Sagrado se encontra pleno de significado.
O rito religioso é o momento em que há uma troca momentânea entre esses domínios espaciais – onde a presença simplesmente manifesta sua tendência supostamente natural: de abarcar. A Catedral Gótica é modelo curioso e já mencionado, com sua nave e seu altar. A altura exuberante das igrejas cumpre a função de dinamizar esses polos, na medida em que apresenta esse espaço vasto e inabitado ao fiel e chama a atenção deste para suas setas e vetores ascendentes, como um convite a ir até Deus, tanto do lado exterior quanto interior.
Mas Jesus ministra numa mesa.
O Deus que o Evangelho apresenta é totalmente distinto e não corresponde a esse esquema; sua distância é temporal, e não espacial: “Porque, onde estiverem dois ou três reunidos em meu nome, ali estou eu no meio deles” (Mt. 18,20). O que fazemos no espaço da Igreja é feito no espaço de Deus. A encarnação diz precisamente isto: ele está aqui. Espacialmente, se fez e continua ser humano. Está a direita de Deus Pai com o mesmo corpo que morreu. Não seria absurdo sugerir que a própria lógica do Evangelho abole esse conceito tradicional de um padre que celebra e uma cadeia de crentes que não cumprem senão a função de espectadores? E, no entanto, é precisamente isso que a reforma litúrgica do Vaticano II buscou fazer. Mostrar que a Eucaristia inaugura um Deus no meio de nós, um evento que busca a mudança do nosso olhar não para um plano superior, mas precisamente para o outro do nosso lado que constitui a comunidade eucarística (a Santa e Una Igreja). Uma prática exacerbada de uma adoração eucarística ininterrupta entra em confronto com esse conceito bíblico de presença de Deus, em oposição direta ao deslocamento da distância da espacialidade para a temporalidade. Nada disso é por acaso. São batalhas silenciosas travadas entre setores mais conservadores que almejam o esquecimento da reforma litúrgica.
Isso é veneno para concepções clássicas da arquitetura sacra. Para começar, os padrões de beleza são subvertidos e transformados; já não se busca uma beleza que copia a eternidade de uma presença espacial, mas se busca uma estrutura que imite e represente a dramaticidade e a urgência do Evangelho. Também a noção subjacente do que é ser santo ou buscar a santidade passa por alterações. Se trata mais de ouvir o que Deus tem a dizer do que de alcançar certos graus de perfeições em orações silenciosas ou penitências quaisquer. A Igreja como palco de um drama mais do que como um auditório de procedimentos sagrados. O megatemplo vem na contramão – é o grande auditório de encomendas sacras.
A imagem que abre o texto, de Casaldáliga numa missa entre o povo de Deus, serve o intuito de provocar uma nostalgia dolorosa (e que repele em seu exercício – nostalgia boa é autorrepelente). Esse tempo não mais existe. Essa teologia falava de um Deus que era antítese da mente religiosa, um Deus em busca do homem. Nos dói ter de afirmar que essa opção não é viável. Ela respira sobre aparelhos. Agoniza por múltiplas razões; seus inimigos foram fortes e tinham o capital e a mídia ao seu favor. Mas também morreu por acreditar, talvez demais, na “liberdade” intrínseca do homem pobre. Ellacuría, esse gigantesco teólogo, dedicou muitas palavras para esse episódio de Dostoiévski, e era profundamente crente na liberdade do homem como ícone da liberdade de Deus, capaz de responder ao Grande Inquisidor.
Não me refiro ao preconceito ignorante de que os teólogos da libertação consideravam o homem em sua materialidade somente. Isso é uma ficção. Me refiro a um erro real, de considerar a espiritualidade do pobre como reflexo transparente da Revelação. Afinal, o pobre também é homem; e o homem escolhe o mal – como a Cruz e as cartas de Paulo cansam de nos avisar. Quando o ultimato foi anunciado e a decisão urgiu, o povo escolheu e continua escolhendo o pastor que lhe promete dinheiro e uma comunidade de espiritualidade de perfeição evidenciadas pela prosperidade e pelo status dentro da igreja. Os seguidores de Frei Gilson são, por conseguinte, os católicos que chegam atrasados num furor religioso que já se iniciou há muitos anos. O catolicismo tem essa mania, esse chiste de sempre atrasar nas modas do dia.
No começo do texto falamos do Grande Inquisidor. No fim do grande (anti) sermão do cardeal a um Cristo silente, o profeta não professa uma só palavra. Jesus apenas o beija.
O silêncio de Cristo diante do inquisidor, culminando no beijo, revela uma terceira possibilidade que a lógica binária da autoridade não consegue sequer imaginar. O inquisidor pensa que o problema humano se resolve entre liberdade e felicidade administrada. Talvez o próprio Dostoiévski e Ellacuría tenham se equivocado ao acreditar que Jesus “apostou” a favor da liberdade do homem. Sua palavra, a palavra de Jesus, é a única coisa capaz de libertar o homem. O beijo não é previsto, e nem permitido. Assim como o fugitivo de Günter Grass, Jesus não pode ser assinalado a nenhuma posição previsível de acordo com alguma Lei. Não, Jesus é absolutamente livre. Jesus se encontra, por assim dizer, debaixo das saias da mulher interrogada pelos guardas – perdoem-me os fiéis mais sensíveis.
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