12 Março 2026
"O critério negativo nesse processo ou “confusão” pode ser: não se deve usar o poder do Estado para escolher ou impor uma religião, assim como não se deve usar a fé religiosa para justificar ou impor uma candidatura ou um partido. O critério positivo deve ser a opção (religiosa e política) que mais defende os direitos fundamentais de todos seres humanos", escreve Jung Mo Sung, teólogo católico e cientista da religião.
Eis o artigo.
Na semana passada, um vídeo de um grupo de pastores orando e dando bênçãos ao presidente Trump, sentado na sua cadeira à sua mesa na poderosa “Sala Oval” da Casa Branca, girou no mundo. Os religiosos conservadores do mundo aplaudiram a cena e confirmaram a sua fé de que essa guerra, que está acontecendo no Oriente Médio (ou, melhor no Ocidente da Ásia), é uma entre Deus e os infiéis. Por outro lado, para setores considerados progressistas e/ou de esquerda seria uma heresia contra a separação entre o Estado e a Igreja.
Entender a complexidade da relação entre (a) essa separação institucional e legal entre o Estado e a Igreja e (b) a relação inescapável entre a política e a religião na história da humanidade e, em particular, no nosso tempo, é um desafio teórico e político muito importante.
Na construção do Estado nacional moderno e da própria noção de modernidade Ocidental, o processo de secularização (a separação entre o Estado e a Igreja) foi um dos elementos fundamentais. Nas décadas de 1960 a 90, os cientistas sociais pensaram a sociedade a partir do pressuposto da secularização e acreditavam que a religião era um fenômeno em decadência, especialmente no campo público-político.
Contudo, alguns setores da sociedade, especialmente na América Latina, romperam com esse pressuposto da separação entre a política e a religião. Em termos de América Latina, foram a teologia da libertação e as comunidades e igrejas cristãs na linha da opção pelos pobres que atravessaram, nas décadas de 1960 e 70, essa fronteira que separa o que seria a esfera pública-política da esfera da religião e espiritualidade. E uma expressão pública desse novo paradigma teológico-social foi “fé e política”. Esse movimento impacto na vida social dos países latino-americanos nas décadas de 1980 a 2000. Não se pode entender as eleições presidenciais de Lula, Fernando Lugo (Paraguai) e Rafael Correa (Equandor) sem fazer referências a essa novidade das teologias da libertação e comunidades de base. Apesar do enfraquecimento desse movimento, ainda hoje, temos no Brasil um movimento organizado chamado “Fé e Política”, que está preparando o seu 13º Encontro Nacional (24 a 26/04, em São Bernardo do Campo).
A novidade é que esse tema de “fé e política” foi assumido pela “(extrema) direita”. Assim como não se pode entender as eleições dos presidentes acima citados, não se pode entender a força política de Trump, Bolsonaro, Viktor Orbán (Hungria), Erdogan (Turquia, islã sunita) ou Narendra Modi (Índia, nacionalismo hindu) sem entender essa nova relação entre Igreja/religião-fé e Estado-política.
Esses líderes têm em comum, entre vários tópicos, a luta contra a secularização moderna, a separação entre ‘Igreja” e Estado, que significa concretamente o assumir uma determinada religião ou de uma visão específica de uma religião como a oficial do Estado e, com isso, da sociedade. É a perspectiva religiosa de um “povo escolhido” por Deus, que lhe garantiria jurídica e religiosamente a superioridade sobre outros.
Nesse sentido, defender a secularização é fundamental. Porém, o problema ocorre quando grupos tendem a lutar contra todas as formas de relação ativa entre religião e política. Há muitos que se considerando “ilustrados” (ilustração da modernidade) e/ou de esquerda negam e até mesmo têm menosprezo de pessoas que, em nome da sua fé religiosa, atuam na política e usam linguagens religiosas. Esse menosprezo, mesmo inconsciente, é percebido por pessoas de esquerda ou direita que, em nome da sua fé, estão atuando em lutas sociais e políticas. Esse menosprezo ou até mesmo desprezo é canalizada especialmente contra pessoas que atuam politicamente com uma linguagem religiosa conservadora, mesmo que seja na linha de defesa dos pobres.
Para superar esse problema, é fundamental distinguirmos a secularização (separação Estado e Igreja) da relação entre religião e política. Pessoas que levam a sério a sua religiosidade, tendem a ter opiniões e ações sobre temas sociais e políticas. Isso foi e é o pressuposto do que chamamos de “fé e política”, seja de esquerda ou de direita.
Precisamos ter claro que a separação entre Igreja e Estado (que devemos manter) não nega à esfera política uma dimensão religiosa, mesmo no mundo moderno porque não nenhuma esfera da vida pessoal e social que não tenha uma dimensão religiosa. Assim como, há na esfera religiosa (seja na sua forma institucionalizada ou de forma não-institucional ou não-organizada) uma dimensão sócio-política que não podemos negar.
O critério negativo nesse processo ou “confusão” pode ser: não se deve usar o poder do Estado para escolher ou impor uma religião, assim como não se deve usar a fé religiosa para justificar ou impor uma candidatura ou um partido. O critério positivo deve ser a opção (religiosa e política) que mais defende os direitos fundamentais de todos seres humanos.
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