O eleitorado sem religião foi o fiel da balança da vitória de Lula. Artigo de José Eustáquio Diniz Alves

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01 Novembro 2022

"No tiroteio da guerra santa, o tiro da intolerância saiu pela culatra e o segmento do eleitorado que se declara sem religião foi decisivo para a derrota da extrema-direita", afirma José Eustáquio Diniz Alves, doutor em demografia e pesquisador de meio ambiente, em artigo publicado por EcoDebate, 31-10-2022.

Eis o artigo.

“Discutir com uma pessoa que renunciou ao uso da razão é como administrar remédio aos mortos” – Thomas Paine (1737-1809)

As eleições presidenciais de 2022 chegaram ao fim com a vitória do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no dia 30 de outubro de 2022. Para um eleitorado de 156 milhões de votantes, houve 32,2 milhões de abstenções (20,6%), 118,53 milhões de votos válidos, 1,77 milhão de votos brancos (1,43%) e 3,93 milhões de votos nulos (3,16%). Lula obteve 60,33 milhões de votos (50,9%) e Bolsonaro 58,2 milhões de votos (49,1%).

Foram as eleições mais disputadas e mais polarizadas da história brasileira, com Lula sendo o campeão de votos de todos os tempos da democracia nacional.

Houve divisões marcantes do voto. Na região Norte, Lula ganhou com pequena diferença, mas estabeleceu grande vantagem na região Nordeste, que foi decisiva para o resultado final. O presidente Bolsonaro ganhou nas demais regiões, embora tenha perdido de pouco em Minas Gerais, estado que se manteve como o termômetro eleitoral do país, já que a vitória em Minas Gerais parece ser um pré-requisito para a vitória nacional. Lula teve grande vantagem entre as mulheres, entre a população preta e parda e entre os estratos de mais baixa escolaridade e de baixa renda.

No quesito religião, as clivagens foram marcantes, pois, segundo todas as pesquisas de opinião, Bolsonaro se manteve com proporção majoritária do voto evangélico, enquanto Lula se manteve com a percentagem majoritária dos votos católicos, das outras religiões e do segmento do eleitorado que se declara sem religião.

Entre as diversas denominações religiosas, o presidente Bolsonaro obteve uma pequena vantagem, mas o ex-presidente Lula ganhou as eleições com o voto do segmento sem religião, que foi o fiel da balança e definiu o resultado final das eleições, como veremos a seguir.

A tabela abaixo apresenta, na linha do total (linha vermelha), o resultado das eleições segundo os dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Já os números dos segmentos religiosos foram construídos com base na pesquisa Datafolha de 29 de outubro. Nota-se que a última pesquisa antes do segundo turno apontou Lula com 52% dos votos e Bolsonaro com 48%, valores ligeiramente diferentes do resultado efetivo, mas dentro da margem de erro. A meu ver, o pequeno erro do Datafolha ocorreu, não pelos percentuais da intenção de votos, mas em decorrência do perfil da amostra.

O atraso do censo demográfico prejudicou a calibração da amostragem. Por exemplo, o Datafolha contabilizou algo em torno de 27% de evangélicos e 52% de católicos na amostra, quando na minha opinião, evangélicos e católicos representam, respectivamente 32% e 50% do eleitorado em 2022. Desta forma, a tabela abaixo utiliza os mesmos percentuais de intenção de voto da pesquisa Datafolha (29/10), mas recalibra o perfil da amostra. Por conseguinte, dos 118,2 milhões de votos válidos, estimamos 59,1 milhões de votos católicos (50%), 37,8 milhões de votos evangélicos (32%), 7,1 milhões de votos de outras religiões (6%) e 14,2 milhões de votos do segmento sem religião (12%).

Aplicando os percentuais de intenção de voto da pesquisa Datafolha, temos 34,6 milhões de votos católicos, 11,7 milhões de votos evangélicos, 3,8 milhões de votos das outras religiões e 10 milhões de votos do segmento sem religião. Enquanto Bolsonaro obteve 24,5 milhões, 26,1 milhões, 3,3 milhões e 4,2 milhões nos respectivos grupos religiosos.

Desta forma, Lula teve um superávit de 10 milhões de votos entre os católicos, Bolsonaro teve um superávit de 14,4 milhões de votos entre os evangélicos e Lula teve um superávit de 567 mil votos entre as outras religiões.

Considerando apenas estes 3 grupos, Bolsonaro ganharia as eleições com vantagem de 3,8 milhões de votos. Mas como Lula teve superávit de 5,9 milhões de votos entre o segmento sem religião, isto compensou a vantagem de Bolsonaro nos 3 grupos anteriores e propiciou uma vantagem final de 2,1 milhões de votos no resultado final.

 

Como já mostramos em outros artigos (Alves, 2017, 2018 e 2019), existe uma forte relação entre o voto nos candidatos e a percentagem dos grupos religiosos nos estados. O gráfico abaixo apresenta a associação entre a razão de votos válidos para Lula em relação a Bolsonaro (RLB) e a soma do percentual de católicos e sem religião no Brasil e em todas as Unidades da Federação, segundo os dados do censo demográfico de 2010 (que são os últimos dados disponibilizados pelo IBGE). Ou seja, o gráfico testa como o desempenho do candidato Lula está correlacionado com maior proporção de católicos e sem religião e o desempenho de Bolsonaro está correlacionado com a proporção da presença evangélica.

Como pode ser visto pela curva logarítmica vermelha do gráfico, existe uma relação positiva entre o voto em Lula e a maior proporção de católicos e sem religião nos estados (com R2 de 71,9%). Obviamente, a variável religião não é a única que explica o resultado eleitoral de 2022, mas ela tem uma associação inquestionável.

Por exemplo, no Piauí, o percentual de católicos e sem religião é de 88,5%, o maior percentual do país. Não sem surpresa, foi onde Lula teve o maior percentual de votos tanto no primeiro, quanto no segundo turno das eleições de 2022. O percentual de católicos mais os sem religião está acima de 75% em todos os estados do Nordeste, local onde Lula teve uma vitória inconteste. Já Acre, Rondônia e Roraima são os estados com menor percentual de católicos e sem religião (e maior percentagem de evangélicos), em consequência foram as Unidades da Federação que deram a maior vantagem eleitoral para Bolsonaro. Mas como a religião não explica tudo, o caso de Santa Catarina mostra que uma das UFs com grande proporção de católicos e sem religião (semelhante à de Pernambuco) sufragou majoritariamente o presidente Bolsonaro.

Em síntese, a proporção de católicos, evangélicos, outras religiões e sem religião influenciam o voto brasileiro. Mas entre o eleitorado cristão – que são os dois maiores grupos religiosos do Brasil, com cerca de 82% do total do eleitorado – houve uma vantagem de Bolsonaro. Já entre o segmento sem religião (que representa 12% do eleitorado) Lula teve uma vantagem de 5,9 milhões de votos, o que garantiu a vantagem final de 2,1 milhões de votos que deram a vitória ao candidato do Partido dos Trabalhadores. Portanto, católicos e sem religião foram fundamentais para superar o bolsonarismo da maioria do segmento evangélico, mas o fiel da balança foi indubitavelmente o segmento sem religião, que compensou as diferenças no voto cristão.

 

Retrocesso econômico, Estado Laico e “Guerra Santa”

As eleições gerais de 2022 ocorreram em um quadro de retrocesso econômico do Brasil, pois tem havido um processo de desindustrialização do país, reprimarização da estrutura produtiva e da pauta de exportações, além da economia brasileira ter crescido menos do que a média da economia global e a renda per capita do país tem permanecido estagnada na última década. Em consequência, tem aumentado os problemas sociais, como a pobreza, a fome, a inflação, a violência, o aumento da população de rua, o desemprego e a informalidade do trabalho.

Mas ao invés de discutir racionalmente um projeto de resolução dos problemas nacionais, dentro dos parâmetros do Estado Democrático de Direito, o atual Presidente da República – candidato à reeleição – privilegiou a campanha junto ao público religioso, dando ênfase à uma pauta marcada pelo conservadorismo moral (priorizando temas como aborto, casamento homoafetivo, legalização das drogas, ideologia de gênero, etc.) e pela alegação de que o seu o principal adversário pretenderia fechar igrejas e destruir a família tradicional.

Desta forma, o debate eleitoral se deslocou dos temas socioeconômicos para os assuntos da religiosidade. A religião transbordou da esfera privada para ser instrumentalizada em função de objetivos eleitoreiros. A primeira semana do segundo turno foi protagonizada pelo embate envolvendo cristianismo, maçonaria, forças ocultas, canibalismo e satanismo. Na segunda semana do segundo turno, a polêmica ficou por conta da presença do Presidente da República nas festividades do Sírio de Nazaré, em Belém (Pará) e nas celebrações do dia da Padroeira do Brasil, no feriado nacional de 12 de outubro, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida (em São Paulo), onde houve atrito entre os apoiadores do presidente e os clérigos católicos. No mês de outubro houve repetidos ataques em igrejas, interrupções de missas e assaltos às sacristias em diversas partes do país.

A ex-ministra Damares Alves (senadora eleita pelo Distrito Federal) utilizou o púlpito de um templo para espalhar mentiras sobre pedofilia na ilha de Marajó e para difundir o medo e angariar votos para o atual presidente. Mas em uma fala infeliz, o próprio Bolsonaro foi envolvido na denúncia de pedofilia ao dizer que “pintou um clima” ao encontrar garotas venezuelanas menores de idade. O autodenominado padre Kelmon utilizou a religião para participar dos debates eleitorais do primeiro turno e se envolveu nas conversações do triste episódio de ataque à polícia federal por parte do ex-deputado Roberto Jefferson no domingo 23 de outubro de 2022. Assim, o maniqueísmo entre o bem e o mal e entre a luz e a treva apequenou a democracia, obnubilando as possíveis formulações propositivas da campanha.

Por conseguinte, a tênue linha da laicidade, que separa estado e religião no Brasil, foi ultrapassada em vários momentos pela mobilização de dogmas religiosos, mentiras e desinformações. O debate eleitoral virou uma espécie de guerra santa, com acusações de heresia contra aquilo que é considerado sagrado pelas diversas religiões. Há relatos de pastores fazendo pressão por voto e ameaçando fiéis com punição divina e medidas disciplinares. Houve também perseguição política dentro das igrejas, deixando claro que, o vilipêndio da fé, vilipendia a própria democracia.

Todavia, no tiroteio da guerra santa, o tiro da intolerância saiu pela culatra e o segmento do eleitorado que se declara sem religião foi decisivo para a derrota da extrema-direita e para a vantagem de cerca de 2% do candidato da esquerda.

O obscurantismo foi derrotado e a tarefa daqui para frente é garantir a laicidade do Estado e o predomínio da racionalidade, da ciência e da democracia sobre as forças do atraso, da superstição e do preconceito. O século XXI está apenas começando e há muito a ser construído.


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