"Conhece-te a ti mesmo". Uma leitura da machosfera a partir da perspectiva do feminismo negro. Artigo de Djamila Ribeiro

Foto: Ron Lach | Pexels

15 Setembro 2026

A metáfora da pílula vermelha de Matrix, apropriada pela machosfera e pelo pensamento redpill, pode ser reinterpretada a partir do feminismo negro brasileiro e da sabedoria do candomblé. A personagem Oráculo dialoga com a figura da mãe de santo, enquanto o conceito de ciphermasculinismo e o espelho de Oxum iluminam o ressentimento masculinista e o verdadeiro autoconhecimento.

O artigo é de Djamila Ribeiro, publicado pela Nueva Sociedad, edição 323, agosto de 2026.

Djamila Ribeiro é jornalista e filósofa brasileira. Ela é membro do Programa de Professores Visitantes Dr. Martin Luther King Jr. no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). É autora, entre outros livros, de Quem tem medo do feminismo negro? (São Paulo, Companhia das Letras, 2018).

Eis o artigo. 

Ao longo do último ano, tomando como eixo os debates sobre a machosfera e a ideologia redpill, venho me dedicando a desenvolver e aprofundar uma análise filosófica do filme Matrix, de 1999. O filme, dirigido pelas irmãs transgênero Lilly e Lana Wachowski, é um dos grandes clássicos da história do cinema e continua sendo uma ponte que conecta diferentes contextos e diferentes gerações na hora de analisar estruturas de opressão[1].

Três foram os aspectos principais que inspiraram minha análise. Em primeiro lugar, o convite para refletir sobre o filme surgiu quando percebi que a metáfora da pílula vermelha (em uma cena, Morfeu, líder da resistência, dá a Neo a escolha entre uma pílula azul, capaz de devolvê-lo a um estado de ilusão confortável, e uma vermelha, que o despertará para a realidade) havia sido incorporada por movimentos da machosfera para reproduzir comportamentos e discursos misóginos.

Diante do debate público e da responsabilidade que temos com meninas e mulheres, aos poucos esse "convite" foi se transformando em um chamado. Era preciso enfrentar o debate, mesmo correndo o risco de sofrer ataques em meus perfis e publicações nas redes sociais. Parecia-me fundamental disputar a consciência crítica da juventude brasileira em relação à apropriação distorcida da metáfora usada em um filme que é todo um fenômeno da cultura popular, um dos filmes com mais espectadores no mundo todo, e em particular no Brasil.

De certo modo, esse caminho cruzou com outro muito importante na minha trajetória. O segundo aspecto que me levou a desenvolver este trabalho recente foi o interesse da minha filha Thulane, de 21 anos, pelo universo da machosfera on-line. Desde a adolescência, Thulane vem acompanhando de perto essas questões e costuma me trazer, praticamente todos os dias, suas preocupações sobre a violência virtual e real contra meninas e mulheres.

Se não fosse por ela, eu teria me perdido no debate. Cada família tem seu contexto, evidentemente, e no meu os almoços de segunda a sexta eram salpicados de termos como "incel", "redpill", "bluepill", "chad", "stacy" etc. [2]. No começo dessas conversas, o glossário que Thulane trazia na ponta da língua, um glossário que vem sendo mapeado há mais de uma década por pesquisadoras como Debbie Ging [3] constituía para mim um código estranho. Hoje já não é mais assim. Minha filha tem sido uma pesquisadora da primeira hora nos meus trabalhos.

De todo modo, não sou uma especialista em machosfera, área cuja pesquisa empírica vem se desenvolvendo com excelência no meio acadêmico internacional, entre outras pela já mencionada Ging, uma pioneira, e outras estudiosas que vou conhecendo pelas redes sociais, como a australiana Stephanie Wescott, por exemplo, que elaborou um estudo muito relevante sobre a machosfera e as escolas, ou como o sociólogo Michael Flood, uma referência nos estudos sobre a masculinidade digital [4].

Embora não esteja no centro do meu trabalho, o estudo da machosfera é o ponto de partida para a reflexão filosófica sobre a metáfora da pílula vermelha, na medida em que grupos on-line masculinistas, ao se definirem como redpill, abriram o campo para a interpretação da obra cinematográfica.

No Brasil, as manifestações organizadas do movimento masculinista, grupos que, sob o pretexto de defender os direitos dos homens, articulam um discurso sistemático de ódio e violência contra as mulheres, podem ser rastreadas ao menos desde o final da década de 2000. Seu terreno fértil se deu nas comunidades do extinto Orkut, rede social que chegou a ser extremamente popular no país; ali, esses coletivos encontraram um espaço propício para difundir a misoginia racista de forma anônima e em grande escala. Nesse contexto, a figura da feminista argentina naturalizada brasileira Lola Aronovich surgiu como uma das pioneiras no ativismo e no estudo do que mais tarde ficaria conhecido como a machosfera brasileira.

Aronovich, que é professora na Universidade Federal do Ceará, no Nordeste do Brasil, abriu caminho ao lançar, em 2008, seu blog Escreva Lola escreva, que se tornou, desde então, um espaço de referência do feminismo brasileiro. Pela relevância de seu trabalho, por volta de 2011 Aronovich passou a estar na mira dos grupos masculinistas. Em um relato comovente escrito em 2018 para o site The Intercept Brasil, ela narra esses anos de perseguições brutais por parte de um grupo liderado por dois homens, que lhe enviavam intimidações diárias e promoviam campanhas com ameaças de morte[5]. Durante esse período, a ativista fez mais de uma dezena de denúncias à polícia, mas esta demorou muito para intervir e deu mostras de uma inexperiência flagrante para atuar nesse terreno.

Ao usar a expressão "mascus" para nomear seus agressores, Aronovich cunhou um termo que acabaria adquirindo um matiz pejorativo no imaginário desses grupos, ao mesmo tempo em que revelou a faceta mais violenta e organizada desse movimento. Em 2018, um dos líderes da rede de ódio e perseguição contra a ativista e acadêmica foi condenado a 41 anos e seis meses de prisão por uma série de delitos cometidos na internet, entre eles associação criminosa, racismo, terrorismo e divulgação de material de abuso sexual infantojuvenil.

O caso inspirou uma resposta institucional e, nesse mesmo ano, foi sancionada a Lei 13.642/2018, conhecida como "Lei Lola", que atribui à Polícia Federal competência para investigar crimes de misoginia na internet, oferecendo um marco legal que reforça o combate à violência de gênero no âmbito digital. Foi a primeira vez que a palavra "misoginia" foi aplicada na legislação brasileira. Mas a urgência desse debate não é coisa do passado. As pesquisas registram um aumento de ataques em escolas desde 2017, muitos deles cometidos por jovens com participação ativa em fóruns da machosfera. A resposta institucional que começou com a Lei Lola segue em construção: da decisão do Supremo Tribunal Federal sobre a responsabilidade das plataformas digitais, em 2025, até o Estatuto Digital da Criança e do Adolescente (ECA Digital), voltado à proteção de crianças e adolescentes no ambiente virtual. Mas a lei não consegue disputar os imaginários: é no terreno da cultura que a metáfora da pílula vermelha segue operando.

Uma vez que nos aprofundamos no terreno da machosfera e das comunidades redpill, voltamos a assistir a Matrix e encontramos uma referência fundamental para o pensamento filosófico brasileiro. O terceiro aspecto que me inspirou neste trabalho foi a tradição de reflexões filosóficas sobre o filme a partir das ideias de Marilena Chaui, professora emérita do Departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo e pioneira nos estudos brasileiros desse campo [6].

Depois da estreia do filme, Chaui desenvolveu, a partir da primeira década dos anos 2000, um extenso percurso de reflexão em torno de seus diálogos e cenas. Entre suas contribuições ao debate, está o paralelo traçado entre Neo, protagonista do filme, e o mito da caverna de Platão. Chaui, que escreveu algumas obras fundamentais de introdução à filosofia para um público não acadêmico, dedicou também uma série de artigos a elementos como a frase com que o protagonista se depara após seu encontro com Oráculo (a única mulher negra de Matrix): "Conhece-te a ti mesmo".

Foi assim que, em diálogo com os estudos sobre a machosfera e as ideias dessa filósofa brasileira, desenvolvi um guia pedagógico e um curso on-line para escolas e associações educativas de todo o país [7]. O curso, intitulado "Pensamento redpill", trouxe elementos inéditos para as reflexões em ambos os campos, ao dar visibilidade ao personagem Cypher, um dos tripulantes da resistência, e relacionar o arquétipo que ele encarna com as comunidades masculinistas, o que resultou na proposição de um conceito de minha autoria: o ciphermasculinismo.

Cypher, vale lembrar, é o tripulante da nave que trai a resistência. Tendo tomado a pílula vermelha anos antes, ele se arrepende de seu despertar: prefere a ilusão agradável da Matrix à dureza do real e negocia com as máquinas sua reinserção no sistema. "A ignorância é uma bênção", diz em uma passagem, enquanto saboreia um bife que sabe que não existe. Mas seu arquétipo inclui algo mais: Cypher cultiva um ressentimento corrosivo em relação a Morfeu, a quem acusa de tê-lo enganado, ao mesmo tempo em que alimenta uma paixão não correspondida por Trinity, carregada de cobranças, como se ela lhe devesse atenção. O ressentimento contra quem o "despertou", a sensação de que o mundo o traiu e a transformação da rejeição afetiva em rancor: esse é o material de que são feitas as comunidades masculinistas, que se consideram a si mesmas redpilled e, no entanto, habitam, como Cypher, a fantasia que escolheram. Essa é a leitura que propõe o conceito de ciphermasculinismo.

Neste texto, vamos introduzir algumas reflexões em torno do arquétipo de Oráculo, partindo do enfoque do feminismo negro brasileiro.

Candomblé, iyalorixás e o espelho de Oxum

É necessário um breve contexto histórico. O Brasil é o país americano que mais recebeu africanos escravizados: os números variam de acordo com a fonte, mas estima-se que cerca de cinco milhões desembarcaram em seus portos entre os séculos XVI e XIX, o que representa mais de um terço de todo o tráfico transatlântico [8]. A maioria das pessoas traficadas era nativa da África Ocidental, especialmente das regiões da Costa da Mina (nas atuais Nigéria, Togo e Benin), com um intenso fluxo pertencente às culturas iorubá (nagôs), jeje ou bantu.

A região da Bahia foi um dos principais destinos dos navios e o epicentro de maior concentração de africanos ocidentais no Brasil. Nesse ambiente de profunda violência colonial e resistência se estruturou o candomblé, já no século XIX, como uma religião de matriz africana, ainda que de identidade brasileira. No candomblé nagô, cultuam-se os orixás, divindades que representam fenômenos da natureza, da fauna e da flora. Os orixás masculinos (Exu, Ogum, Oxóssi etc.) são conhecidos como oborós, enquanto as orixás femininas (Iemanjá, Oxum, Iansã, entre outras) são chamadas de iyabás. Cada figura possui uma identidade arquetípica e ocupa um lugar próprio na consulta adivinatória.

Trata-se de uma religião que foi se construindo primordialmente pelas mãos e palavras das iyalorixás baianas, as mães de santo, sucedidas depois por outras iyalorixás, que continuam sendo as guardiãs desse saber ancestral e as líderes de suas comunidades. No candomblé, os lugares onde se cultuam os orixás são chamados de terreiros. Desde sua formação, as mulheres negras têm a seu cargo o preparo das comidas sagradas, a transmissão de passagens da vida dos orixás (os chamados itans) e o atendimento das pessoas aflitas e necessitadas dentro do que se conhece como jogo de búzios. São elas que cuidam do axé, a força vital que habita em nós, e atuam como autoridade espiritual e política que desafia a lógica patriarcal e racista da sociedade escravista.

Ao longo da história do Brasil, essas mulheres foram perseguidas e criminalizadas, e até hoje enfrentam a intolerância religiosa que ameaça seus espaços de convivência e devoção. Apesar de tudo, conseguiram resistir e transformaram o terreiro em um espaço de produção de conhecimento, cuidado e reconstituição das famílias negras que a escravidão tentou despedaçar.

Na história do candomblé brasileiro, as iyalorixás deixaram gravados seus nomes. A título de exemplo, podemos citar Mãe Stella de Oxóssi, Mãe Nitinha de Oxum, Mãe Ana de Ogum, todas já ancestralizadas no Orum (plano espiritual), assim como mulheres negras que seguem produzindo saberes e cuidando de suas comunidades no Aiyê (plano terreno), como Mãe Neuza de Xangô, Mãe Luizinha de Nanã, Mãe Márcia de Obaluaiyê (que é meu oráculo e minha mãe de santo)[9], entre muitas outras. Felizmente, apesar do colonialismo que sempre perseguiu o "povo de santo", existem milhares de mães e pais de santo no Brasil, assim como ogãs, ekedis, ebomis e iaôs [10] que dão continuidade ao candomblé.

Assim, para uma pessoa familiarizada com o candomblé, a ligação entre a personagem Oráculo e a mãe de santo é intuitiva. No filme, Neo encontra seu oráculo na cozinha, assando biscoitos, e faz uma consulta. A partir da sabedoria das iyabás, podemos estabelecer uma série de associações tanto com o filme quanto com os estudos sobre a machosfera, porque o candomblé, além de uma religião, é também uma cosmogonia, uma forma de ver a vida.

O espelho de Oxum

Por exemplo, "Conhece-te a ti mesmo". A frase que Chaui traz para o debate filosófico ressoa de maneira peculiar nos itans (passagens de vida) de Oxum, divindade soberana dos rios e cachoeiras. Essa orixá, negra como a noite, carrega sempre um espelho, conhecido como abebê. Ao longo dos anos, intelectuais brancos e europeus que se dedicaram a estudar Oxum associaram constantemente o espelho à vaidade, reduzindo sua portadora e suas filhas a uma preocupação com a beleza, com a maquiagem, quase como sinônimo de futilidade [11].

Essa, no entanto, é a perspectiva da Matrix. É, em geral, uma visão turva que busca ligar Oxum ao mito grego de Narciso. Como afirma a feminista negra Carla Akotirene, "tratar Oxum como uma sereia de água doce, narcisista, uma espécie de Vênus, portanto europeia, faz parte das cosmovisões etnocêntricas que não refletem a centralidade do pensamento cosmossentido dos cinco búzios abertos, dos oriquis e da espiritualidade do povo iorubá"[12]. A pensadora resgata as festividades dedicadas a Oxum na África, em um texto em diálogo com a feminista nigeriana Oyèronké Oyèwúmi.

Diferentemente de Narciso, Oxum não está confinada ao reflexo de sua própria imagem. Ela cuida de seus filhos, mas antes limpa suas próprias joias. É dona de si e cuida de si mesma em primeiro lugar. Em sua mão, o espelho é, em si, um objeto que ela usa para se ver e se arrumar. Mas, com ele, Oxum também engana quem a persegue, fingindo que está se maquiando, quando na verdade observa tudo com um olho na nuca. Por isso, como nos ensina a sabedoria dos povos de terreiro, nas mãos de Oxum o espelho é também uma arma. Uma arma que ela usa para cegar os inimigos, apontando-o para o sol. Além de cegá-los, essa iyabá, que é uma grande feiticeira, pode provocar com o espelho queimaduras intensas. Ela é capaz, se assim quiser, de provocar com ele um grande incêndio.

Da perspectiva da resistência, de Zion, podemos dizer, é muito interessante a abordagem proposta pela feminista negra lésbica Tatiana Nascimento em "Letramento e tradução no espelho de Oxum: teoria lésbica negra em auto/re/conhecimentos" [13]:

"Oxum, a orixá que reina nas águas doces correntes (rios, cachoeiras, fontes...), leva consigo um espelho, o abebê. É por isso que muitas vezes ela foi considerada um ser vaidoso. Afastando-me dessa leitura tradicional, na qual o espelho é associado à vaidade e à beleza física, proponho entendê-lo como fonte de autoconhecimento e reconhecimento, em que uma se olha para se compreender melhor."

Nascimento investiga o espelho de Oxum a partir de um itan que faz referência a um vínculo lésbico entre essa orixá e a orixá Iansã, que reina sobre os ventos e as tempestades [14]. A possibilidade de acendermos uma vela em honra de uma iyabá que se deita com outra é uma das tantas características de vanguarda do candomblé brasileiro, que, junto com a umbanda (religião afro-brasileira que articula o candomblé, o catolicismo e o espiritismo, formando uma identidade própria), representa 1% da população do país segundo o último censo nacional, o que significa que seus adeptos somam mais de dois milhões de pessoas.

A disputa pela metáfora

Em Matrix, quando Neo se encontra com Oráculo, há um detalhe que costuma passar despercebido: sobre a porta da cozinha, uma placa de madeira traz a inscrição em latim Temet Nosce. E é a própria Oráculo quem traduz a inscrição para o visitante desorientado: "Conhece-te a ti mesmo". A máxima do templo de Delfos, que atravessou Sócrates e a longa tradição filosófica ocidental até chegar a Chaui, está literalmente pendurada na cozinha de uma mulher negra que assa biscoitos. Neo busca uma resposta sobre seu destino: quer saber se ele é ou não o Escolhido. A mãe de santo, no entanto, não vai lhe dar de imediato uma verdade...

O que ela faz é devolvê-lo a si mesmo e provocar sua consciência. Aponta para ele, em nossa associação, o espelho de Oxum, que não é um instrumento de contemplação narcisista, mas uma tecnologia para se encontrar. Busca compreender suas contradições, seus limites, suas potências e responsabilidades. Ela o auxilia em seu caminho de interpretação do mundo, mas é Neo quem precisa percorrê-lo. Conhecer-se é, nesse sentido, um ato de reconhecimento de si.

Voltemos, então, à machosfera. Ela também oferece um espelho aos jovens que recruta: um que lhes devolve a imagem da ofensa, da vítima de um mundo supostamente dominado por mulheres e feministas, que chega a privar muitos jovens de estabelecer relações com mulheres. É o espelho de Narciso, que confina e afoga. O abebê de Oxum opera ao contrário: convida a se olhar para se conhecer, não para se lamentar; para assumir responsabilidades, não para fabricar inimigos. A disputa pela metáfora da pílula vermelha é, no fundo, uma disputa entre esses dois espelhos. E talvez a maior ironia seja que os autoproclamados "despertos" da machosfera citem um filme dirigido por duas mulheres trans, cuja figura de maior sabedoria é uma mulher negra que recebe em sua cozinha, esse território que a casa-grande destinou às mulheres negras e que elas, como as iyalorixás em seus terreiros, transformaram em lugar de poder. Quem realmente quiser sair da Matrix vai ter que aprender, como Neo, a escutar.

Nessa perspectiva, o autêntico "despertar" não é a adesão a uma teoria conspiratória misógina, mas um trabalho cotidiano de autocuidado e responsabilidade diante do coletivo: o mesmo trabalho que as mães de santo ensinam há séculos nos terreiros. Ao disputar o sentido da metáfora, o feminismo negro brasileiro devolve ao centro da cena não um herói solitário, mas uma genealogia de mulheres que, como Oráculo, utilizam seu saber para desorientar os opressores e guiar aquele que busca se encontrar.

Notas

[1] Lilly Wachowski, codiretora da trilogia, revelou em 2020 que Matrix trata sobre ser uma pessoa trans. "Essa era a intenção original, mas o mundo não estava totalmente pronto", disse Wachowski. Tanto ela quanto sua irmã Lana tornaram pública sua transição depois de lançadas as três obras da trilogia. "The Matrix é 'uma metáfora trans': a revelação de Lilly Wachowski, codiretora da popular trilogia", BBC Mundo, 7/8/2020.

[2] Termos próprios da gíria da internet. "Incel": contração de involuntary celibate (celibatário involuntário), designa aqueles que se percebem excluídos das relações sexoafetivas e responsabilizam por isso as mulheres e o feminismo; "chad": arquétipo do homem atraente e bem-sucedido sexualmente que esses fóruns tomam como parâmetro de comparação; "stacy": contraparte feminina do chad, ou seja, a mulher desejável que, segundo essa visão, só se interessa pelos chads [N. do E.].

[3] Debbie Ging: "Alphas, Betas, and Incels: Theorizing the Masculinities of the Manosphere" [2017], Men and Masculinities vol. 22 nº 4, 2019.

[4] Ver mais em Stephanie Wescott, Steven Roberts e Xuenan Zhao: "The Problem of Anti-Feminist 'Manfluencer' Andrew Tate in Australian Schools: Women Teachers' Experiences of Resurgent Male Supremacy", Gender and Education vol. 36 nº 2, 2023, e Michael Flood: Engaging Men and Boys in Violence Prevention, Palgrave MacMillan, Nova York, 2019. 

[5] Lola Aronovich: "O dia em que o cara que quis me destruir foi condenado a 41 anos de prisão", The Intercept Brasil, 21/12/2018, disponível em www.intercept.com.br/2018/12/21/prisao-do-misogino-marcelo-mello/.

[6] Ver Marilena Chaui: Iniciação à filosofia, São Paulo, Ática, 2010.

[7] Djamila Ribeiro: Guia pedagógico do curso pensamento redpill, São Paulo, edição da autora, 2026.

[8] Dados do Trans-Atlantic Slave Trade Database, https://legacy.slavevoyages.org/voyage/database.

[9] Nesta altura, quem está lendo já deve ter notado o modo como nos referimos às autoridades do candomblé brasileiro. No caso das mulheres, começamos pela palavra mãe, depois o nome da iyalorixá e, por fim, seu orixá de cabeça. Para os homens, parte-se da palavra pai: Pai Air de Oxoguiã, Pai Sidnei de Xangô e assim por diante.

[10] Posições em terreiros que variam conforme as funções e o tempo de iniciação na prática religiosa.

[11] Para o antropólogo francês Pierre Verger, o arquétipo de Oxum é o das mulheres graciosas e elegantes, apaixonadas por joias, perfumes e roupas caras. Pierre Fatumbi Verger: Orixás: deuses iorubás na África e no Novo Mundo, São Paulo, Corrupio/Círculo do Livro, 1981.

[12] Carla Akotirene: "Osun é fundamento epistemológico: um diálogo com Oyèronké Oyèwúmi", em Revista CartaCapital, 21/10/2019.

[13] Tese de doutorado, Universidade Federal de Santa Catarina, Centro de Comunicação e Expressão, Programa de Pós-Graduação em Estudos da Tradução, Florianópolis, 2014.

[14] Oxum seduziu Iansã. Certa vez, Oxum passou pela casa de Iansã e a viu na porta. Achou-a linda, elegante, atraente, e pensou: "Vou me deitar com ela". E seguiu passando várias vezes diante de sua porta, com um cântaro de água na cabeça, cantando, dançando, provocando ao caminhar. No início Iansã não percebeu, depois acabou se entregando. Mas quando Oxum se propôs a conquistá-la mais uma vez, Iansã decidiu castigá-la. Oxum teve que fugir e se esconder no rio, onde vive até hoje. Rita Segato: Santos e daimones: o politeísmo afro-brasileiro e a tradição arquetipal, Brasília, Editora da Universidade de Brasília, 1995, p. 403.

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