10 Abril 2026
O papel dos professores e das instituições de ensino no debate e nas soluções para a problemática da violência de gênero se torna central diante do avanço dos feminicídios.
O artigo é de Karolayne Gonsalves, pesquisadora, socióloga e gestora de projetos, especializada em masculinidades, violência, diversidade, inclusão, gênero e responsabilidade social, publicado por Extra Classe, 08-04-2026.
Eis o artigo.
Os dados recentes sobre violência no Brasil e no Rio Grande do Sul revelam um cenário que exige atenção urgente, e também possíveis novas estratégias de enfrentamento. Mais do que números, eles indicam um padrão: homens aparecem, simultaneamente, como principais autores. No Rio Grande do Sul, a violência contra mulheres segue em patamares preocupantes, com dezenas de feminicídios anuais e centenas de tentativas registradas, mais especificamente, em até o momento, o RS atingiu 23 feminicídios consumados até a elaboração deste artigo, e saltou para 27 por ocasião de sua publicação, num intervalo de apenas três dias.
Ao mesmo tempo, os homens representam a maioria das mortes violentas e dos casos de suicídio, além de ocuparem majoritariamente o sistema prisional. Esses dados não podem ser analisados de forma isolada: eles apontam para a necessidade de compreender como as masculinidades são socialmente construídas.
A escola, nesse contexto, ocupa um lugar estratégico. É nela que crianças e adolescentes constroem referências sobre o que significa “ser homem”: muitas vezes associadas à força, ao controle emocional e à negação da vulnerabilidade. Esses padrões, quando não problematizados, podem contribuir para a reprodução de violências, tanto nas relações interpessoais quanto no ambiente escolar.
Os próprios dados sobre violência nas escolas reforçam essa discussão. Levantamentos indicam que todos os autores de ataques extremos em instituições de ensino no Brasil eram do sexo masculino, evidenciando a necessidade de refletir sobre gênero também nesse espaço. Ao mesmo tempo, práticas cotidianas como o bullying, a homofobia e a naturalização da agressividade estão diretamente relacionadas a modelos rígidos de masculinidade hegemônica.
Diante desse cenário, a educação básica tem avançado no reconhecimento do problema. Recentemente, o Ministério da Educação passou a incluir, de forma mais sistemática, conteúdos sobre prevenção da violência contra mulheres nos currículos escolares, com a proposta de trabalhar o tema de forma interdisciplinar e desde as etapas iniciais da formação. A medida reforça que o debate sobre gênero é essencial à formação cidadã.
Nesse processo, o papel dos professores é central. Mais do que transmitir conteúdos, educadores e educadoras atuam como mediadores de debates, referências éticas e facilitadores de espaços de escuta. No entanto, essa tarefa não é simples: envolve lidar com resistências sociais, disputas políticas e, muitas vezes, com a ausência de formação específica para abordar temas como masculinidades, violência e saúde mental. Soma-se a isso o fato de que esse trabalho também pode representar um desafio pessoal para docentes, na medida em que exige revisão de padrões internalizados, apropriação de novas linguagens e o desenvolvimento de uma compreensão mais ampla sobre as dinâmicas de gênero e poder.
Experiências desenvolvidas no próprio estado mostram caminhos possíveis. Um deles é o projeto “Te liga, guri!”, realizado entre o Instituto Cíclica e a Ong InterConnectar com estudantes do ensino médio de escolas públicas em Viamão (RS), é um exemplo de intervenção pedagógica voltada à prevenção da violência a partir do trabalho com masculinidades. A iniciativa promoveu rodas de conversa com jovens de 13 a 21 anos, abordando temas como gênero, relações afetivas, saúde mental e violência de gênero.
O contexto local evidencia a relevância da proposta: na Região Metropolitana de Porto Alegre, chegam a ser registrados casos de violência contra mulheres a cada hora, enquanto municípios como Viamão apresentam centenas de ocorrências anuais. Diante disso, o projeto apostou no diálogo como ferramenta de transformação.
Os resultados indicam que criar espaços de escuta e reflexão permite que os jovens questionem estereótipos, reconheçam emoções e desenvolvam formas mais saudáveis de se relacionar. Mais do que uma ação pontual, a experiência aponta para a necessidade de incorporar esse tipo de abordagem de forma contínua nas escolas. Vale mobilizar o professor Fernando Seffner (2020) que compreende a sala de aula como um verdadeiro “laboratório social”, sendo um espaço onde os educadores e pesquisadores podem observar narrativas, interações e performances dos jovens.
Discutir masculinidades na educação não significa apenas prevenir a violência contra mulheres, embora esse seja um objetivo central. Trata-se também de promover saúde emocional, reduzir comportamentos de risco e ampliar possibilidades de existência mais saudáveis para os próprios meninos e jovens.
Para os professores, isso representa um desafio, mas também uma oportunidade: a de contribuir diretamente para a construção de uma cultura escolar mais justa, igualitária e livre de violências. Em um cenário marcado por desigualdades e conflitos, a escola segue sendo um dos poucos espaços potentes de produzir mudanças estruturais, e o debate sobre masculinidades é parte fundamental desse processo.
Para a elaboração deste artigo, foram consultados dados da Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente, a partir do relatório Panorama dos suicídios e lesões autoprovocadas no Brasil de 2010 a 2021, do Ministério da Saúde; do 1º Boletim Técnico – Escola que protege: dados sobre violências nas escolas, dos Ministérios da Educação e dos Direitos Humanos e da Cidadania; do 19º Anuário Brasileiro de Segurança Pública; e do Observatório Estadual de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, vinculado à Secretaria de Segurança Pública. O texto também dialoga com contribuições teóricas dos estudos de gênero, especialmente a partir de Raewyn Connell, sobre a construção social das masculinidades, e de Fernando Seffner, que analisa a escola como espaço central na produção e problematização dessas dinâmicas.
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