Há uma figura que a democracia contemporânea parece empenhada em manter do lado de fora, mas que insiste em atravessar suas fronteiras e perturbar suas certezas: o estrangeiro. Migrante, refugiado, apátrida, ele não chega apenas de outro território: chega trazendo consigo uma pergunta que atinge o coração da política: quem tem o direito de pertencer? Sua presença desnaturaliza aquilo que parecia evidente, a fronteira entre nacionais e estrangeiros, entre os que pertencem e os que apenas chegam, entre aqueles cujos direitos são reconhecidos e aqueles que precisam primeiro provar que merecem tê-los. É nesse ponto de fricção que o pensamento de Donatella Di Cesare adquire sua força crítica: a migração deixa de ser um "problema" a ser administrado e torna-se uma experiência filosófica capaz de revelar as fissuras sobre as quais se ergue a própria comunidade política. Como estrangeiro residente, o migrante não apenas atravessa uma fronteira: ele a torna visível, expondo seu caráter histórico, político e, sobretudo, seletivo.
Mas o que ocorre quando uma democracia, para proteger aqueles que estão dentro, precisa incessantemente produzir aqueles que devem permanecer fora? É nessa inquietante passagem da hospitalidade à imunização que se situa uma das questões centrais do pensamento de Di Cesare. Quando a fronteira deixa de ser apenas uma linha no mapa e passa a funcionar como dispositivo de vigilância, classificação e exclusão; quando o medo do outro se converte em tecnologia de governo; quando a defesa da identidade nacional se articula ao controle técnico das populações, a figura do refugiado deixa de ocupar as margens e passa a interrogar o centro da própria democracia. Por isso, o Ciclo de Estudos "Refugiados e democracia: acolhimento, imunização e justiça", com a presença de Donatella Di Cesare na Unisinos Porto Alegre de 25 a 27 de agosto, não propõe simplesmente discutir a questão migratória. Propõe algo mais radical: pensar se ainda podemos chamar de democrática uma comunidade que necessita transformar a proteção em exclusão e a diferença em ameaça. Afinal, talvez o estrangeiro seja aquele que, ao bater à porta, nos obriga a perguntar quem somos nós do lado de dentro.
A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos — Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do Instituto Humanitas Unisinos — IHU.
Há uma figura que as democracias contemporâneas parecem não saber onde colocar: a do estrangeiro. Ele chega de fora, atravessa fronteiras, desestabiliza pertencimentos e introduz uma pergunta incômoda no interior de comunidades que se imaginavam politicamente constituídas: quem tem o direito de pertencer? É justamente a partir dessa figura liminar, o migrante, o refugiado, o estrangeiro, que a filósofa italiana Donatella Di Cesare vem desenvolvendo uma das mais contundentes críticas à política contemporânea.
É esse horizonte que estará no centro do Ciclo de Estudos "Refugiados e democracia: acolhimento, imunização e justiça", que contará com a participação da pesquisadora italiana, docente na Università di Roma La Sapienza, presencialmente no campus da Unisinos em Porto Alegre, em uma parceria entre o PPG Filosofia Unisinos e o Instituto Humanitas Unisinos – IHU nos dias 25, 26 e 27 de agosto. Mais do que discutir a chamada "questão migratória", a proposta abre uma interrogação de maior alcance: o que acontece com a democracia quando ela transforma a proteção de alguns na exclusão de outros?
A pergunta é decisiva porque, para Di Cesare, a migração não constitui simplesmente um fenômeno social a ser administrado por políticas públicas, estatísticas ou dispositivos de segurança. Ela toca o nervo exposto da política moderna. Como afirmou em entrevista recente ao IHU, a migração coloca radicalmente em questão categorias como Estado, soberania, fronteira e cidadania. O migrante, vindo de fora, revela que aquilo que parecia natural, a divisão entre nacionais e estrangeiros, entre os que pertencem e os que não pertencem, é, na verdade, uma construção histórica e política.
É por isso que o estrangeiro incomoda. Não apenas porque chega, mas porque interroga. Sua presença revela o caráter contingente das fronteiras, questiona a pretensão de propriedade sobre o território e obriga a comunidade política a confrontar a própria definição de pertencimento.

Em Estrangeiros residentes. Uma filosofia da migração, obra que se tornou uma referência central de seu pensamento, Di Cesare desloca radicalmente o olhar: em vez de perguntar como os Estados podem administrar os migrantes, ela pergunta o que a presença dos migrantes revela sobre os próprios Estados. O migrante, escreve a filósofa em artigo publicado pelo IHU, não é um dado biológico, mas um sujeito existencial e político. A partir dele emerge a exigência de pensar um possível ius migrandi, um direito de migrar, justamente em um mundo no qual o colapso dos direitos humanos torna cada vez mais urgente interrogar o próprio fim da hospitalidade.
Essa inversão é filosoficamente poderosa. A migração deixa de ser apresentada como "problema" externo à política e passa a ser compreendida como uma experiência capaz de desvelar os limites da própria ordem política. O Estado-nação moderno define-se, em larga medida, por uma operação de delimitação: há um dentro e um fora, cidadãos e estrangeiros, pertencentes e não pertencentes. Mas o migrante atravessa justamente essa linha. Ele é aquele que evidencia que a fronteira não é apenas uma linha geográfica: é também uma máquina política de distribuição de direitos.
Daí a importância da figura do "estrangeiro residente", aparentemente paradoxal, mas central na filosofia de Di Cesare. Trata-se daquele que habita sem necessariamente possuir, que reside sem estar fundado no mito da autoctonia, que participa da comunidade sem que seu pertencimento seja reduzido ao sangue, ao solo ou ao nascimento. Em entrevista publicada pelo IHU em 2026, a filósofa retoma essa figura para afirmar que a cidadania não deveria estar fundada nem no solo, nem no sangue, nem na propriedade. A consequência é radical: talvez seja necessário deixar de pensar a comunidade como propriedade.
É nesse ponto que o segundo termo do ciclo, a imunização, ganha toda a sua densidade filosófica. Di Cesare vem mostrando como as democracias contemporâneas podem assumir uma lógica imunitária: protegem aqueles que estão dentro justamente mediante a exposição ou exclusão daqueles que permanecem fora. Em entrevista concedida durante a pandemia, ela chamou atenção para a existência de uma "democracia imunitária", na qual as fronteiras funcionam como dispositivos de proteção dos cidadãos contra aquilo que é percebido como ameaça exterior.
A metáfora não é meramente sanitária. Ela aponta para uma estrutura política. Imunizar significa produzir uma barreira contra aquilo que se considera capaz de contaminar. Quando essa lógica é transposta para a política, o estrangeiro pode ser convertido no "agente externo" diante do qual a comunidade deve se proteger. O resultado é uma transformação silenciosa da democracia: em nome da segurança, multiplicam-se fronteiras, controles, filtros, vigilâncias e mecanismos de exclusão. O paradoxo é que, ao tentar proteger-se absolutamente do outro, a comunidade pode terminar por destruir aquilo que a constitui como comunidade.
A hospitalidade, nesse sentido, revela sua face inquietante: ela está sempre próxima da hostilidade. O IHU já publicou uma análise dessa tensão a partir de Di Cesare, mostrando como o migrante desmascara a pretensão de naturalidade do Estado e força-o a confrontar sua própria constituição histórica. Talvez seja justamente aí que resida a questão mais provocadora do ciclo: é possível uma democracia que não precise se imunizar contra o estrangeiro para preservar sua própria identidade?
A reflexão de Di Cesare ganha ainda maior atualidade diante das novas formas de controle das populações migrantes. As fronteiras já não são apenas muros, cercas ou linhas cartográficas. Elas podem assumir a forma de bancos de dados, sistemas de identificação, vigilância, triagem e classificação.
É nesse ponto que seu pensamento recente aproxima migração, técnica e extrema direita. Em sua entrevista mais recente ao IHU, publicada em abril de 2026, Di Cesare denomina "tecnofascismo" a forma emergente de um novo totalitarismo que articula a frieza do controle técnico e algorítmico com a pulsão etnopolítica do sangue e do pertencimento.
A formulação é especialmente importante porque impede que se imagine o autoritarismo contemporâneo simplesmente como repetição do fascismo histórico. O perigo atual pode surgir de uma combinação inédita: de um lado, a política é esvaziada pela governança técnica; de outro, a comunidade é recomposta em torno de identidades cada vez mais fechadas.
O demos perde seu kratos, enquanto o povo tende a ser reduzido ao ethnos. A migração aparece então como ponto de condensação dessas duas tendências. Ao mesmo tempo em que o migrante é transformado em objeto de gestão (registrado, classificado, vigiado e selecionado), ele também pode ser convertido em inimigo, em ameaça à identidade nacional. A fronteira passa a operar simultaneamente como dispositivo técnico e como mecanismo identitário.
A pergunta sobre o refugiado transforma-se, assim, em uma pergunta sobre nós mesmos: que tipo de democracia estamos construindo quando a segurança exige permanentemente a produção de um lado de fora?

Aqui o pensamento de Di Cesare encontra uma interlocutora fundamental: Hannah Arendt. Ao analisar a condição dos refugiados e dos apátridas, Arendt mostrou que a perda da pertença política podia significar algo ainda mais profundo do que a perda de direitos específicos: significava a perda daquele espaço político no qual os direitos poderiam ser efetivamente reconhecidos. O refugiado colocava em evidência o paradoxo de uma humanidade que proclamava direitos universais, mas cuja efetivação permanecia dependente da pertença a uma comunidade política, do conceito de cidadania.
Di Cesare retoma esse problema a partir de uma filosofia da migração que desloca a questão para o presente. Se o estrangeiro é aquele que revela as fronteiras constitutivas da comunidade, então acolhê-lo não pode ser reduzido a um gesto de benevolência. Trata-se de repensar os próprios fundamentos da cidadania. Por isso, hospitalidade não é apenas uma virtude individual. É uma questão de arquitetura política.
E talvez essa seja uma das maiores provocações de seu pensamento: não basta perguntar como acolher o estrangeiro; é preciso perguntar que transformação da comunidade política o acolhimento exige.
A questão se torna ainda mais urgente quando observamos o crescimento contemporâneo das direitas nacionalistas em sua expressão exacerbada. Em diferentes momentos de sua colaboração com o IHU, Di Cesare vem insistindo que a extrema direita se alimenta da construção de um "inimigo" e de uma concepção homogeneizadora da comunidade nacional. A defesa da nação diante do que lhe é estranho, sejam migrantes, refugiados ou outras formas de diferença, converte-se em eixo político. Nesse processo, o medo não é apenas um sentimento social. Ele pode converter-se em tecnologia de governo.
Promete-se proteção em troca de fechamento. Segurança em troca de vigilância. Identidade em troca de exclusão. E, pouco a pouco, a democracia pode ser reduzida à administração daqueles que já estão dentro, enquanto aqueles que permanecem fora tornam-se vidas cuja vulnerabilidade pode ser naturalizada.
É precisamente contra essa naturalização que a filosofia de Di Cesare se insurge. Sua reflexão também se aproxima, nesse ponto, de uma concepção da democracia como espaço de conflito, dissenso e desobediência. Em artigo publicado pelo IHU, a filósofa sustenta que a desobediência civil não é uma ameaça à democracia, mas pode constituir seu próprio "sal". Quando uma lei ultrapassa os limites da humanidade, obedecer passivamente deixa de ser uma virtude democrática. A democracia, portanto, não se reduz à obediência às regras existentes. Ela precisa conservar aberta a possibilidade de questionar as regras quando elas próprias produzem exclusão.
É por isso que a presença de Donatella Di Cesare no PPG Filosofia da Unisinos e no IHU ultrapassa o significado de uma atividade acadêmica. Seu pensamento convida a filosofia a retornar à pólis, não para oferecer soluções técnicas aos problemas políticos, mas para interrogar aquilo que a política costuma apresentar como evidente.
Quem pode atravessar uma fronteira? Quem pode permanecer? Quem tem direito à cidade? Quem pode ser cidadão? Quem é reconhecido como sujeito de direitos? Quem pode ser considerado ameaça? E, talvez acima de todas essas perguntas: que comunidade queremos construir quando já não podemos sustentar o mito de que alguns nasceram naturalmente para pertencer e outros nasceram naturalmente para permanecer do lado de fora?
Em sua entrevista mais recente ao IHU, Di Cesare insiste que a filosofia deve voltar a fazer política, não como ideologia ou programa partidário, mas como exercício de vigilância sobre aquilo que se pretende inevitável. A filosofia deve reabrir o possível quando o presente se apresenta como único horizonte.
É justamente esse gesto que torna o Ciclo de Estudos "Refugiados e democracia: acolhimento, imunização e justiça" particularmente oportuno, atual e formativo. Porque falar dos refugiados é, em última instância, falar sobre a democracia. Falar das fronteiras é falar sobre cidadania. Falar de hospitalidade é perguntar pelos limites da comunidade. Falar de imunização é investigar como a proteção pode converter-se em exclusão. E falar de justiça é perguntar se os direitos humanos podem continuar sendo chamados de universais quando dependem, para existir concretamente, de uma fronteira que decide quem pertence e quem não pertence.
Talvez o refugiado seja, então, muito mais do que aquele que bate à porta. Ele é aquele que nos obriga a perguntar quem somos nós do lado de dentro. É essa pergunta, incômoda, radical e profundamente atual, que Donatella Di Cesare traz à Unisinos. Uma pergunta que não diz respeito apenas aos que atravessam fronteiras, mas ao futuro da própria ideia de democracia. E talvez acompanhar sua reflexão seja, antes de tudo, aceitar que algumas fronteiras precisam deixar de ser vistas como naturais para que a política possa voltar a ser pensada.
Filósofa, ensaísta e colunista italiana que leciona Filosofia Teorética na Università di Roma "La Sapienza". É uma das pensadoras mais influentes no debate público italiano e internacional, seja acadêmico, seja midiático. Colabora em vários jornais e revistas, incluindo L'Espresso e il Manifesto. Seus livros e ensaios são traduzidos mundialmente, dentre os quais destacamos: O complô no poder (Aynè, 2022), Vírus soberano? A asfixia capitalista (Aynè, 2020), Estrangeiros residentes: uma filosofia da migração (Âyiné, 2020), Terror e modernidade (Aynè, 2019) e o mais recente Tecnofascismo (Einaudi, 2025).
Ciclo de estudos Refugiados e democracia. Acolhimento, imunização e justiça política
📅 25 a 27 de agosto
📍 Presencial na Unisinos Porto Alegre e com transmissão ao vivo pelo YouTube e Facebook do IHU.
📍 Atividade gratuita. Será fornecido certificado aos participantes inscritos que registrarem presença durante a transmissão.
🔗 Inscrições e programação completa: https://www.ihu.unisinos.br/evento/refugiados-democracia