06 Janeiro 2026
"A retórica da identidade cristã, que se restringe apenas a sinais externos e proclamações frequentemente instrumentais, deve ser jogada fora pelas mãos das vítimas de guerras e migrações, que aguardam ser acolhidas por aqueles que demonstram boa vontade, um impulso de generosidade, um palpitar de amor atuante", escreve Gianfranco Ravasi, ex-prefeito do Pontifício Conselho para a Cultura, em artigo publicado por Il Sole 24 Ore, 21-12-2025. A tradução é de Luisa Rabolini.
Eis o artigo.
Poucos chegarão nadando até suas praias. Que tipo de homens são esses mostrando um comportamento tão bárbaro? Negam-nos o asilo da areia, guerreiam contra nós, proíbem-nos de ficar na praia. Se vocês não têm respeito pelos homens, saibam que os deuses se lembram do que é sagrado e do que é sacrílego.
Somente devido a essa menção final aos deuses conseguimos perceber que essas linhas não foram escritas em nossos dias, por exemplo, após um massacre de refugiados em alguma costa italiana. É, na verdade, Virgílio quem, na Eneida (I, 538-543), descreve o dramático desembarque dos exilados troianos nas praias de Cartago, e o poeta escreve esses versos no século I a.C. Não é apenas um testemunho da atualidade dos clássicos, mas também uma denúncia dirigida incessantemente à indiferença, ao egoísmo e à crueldade que permeiam a chamada modernidade civilizada.
Além disso, não nos esqueçamos de que o próprio cristianismo tem uma experiência semelhante na biografia inicial de seu fundador: a de um refugiado atravessando o mar do deserto em direção a uma terra de refúgio, o Egito. A proximidade do Natal desse Menino torna-se, assim, uma provocação não tanto para arrancar os enfeites natalinos e as luzinhas, mas para voltarmos nosso olhar e nossos corações para os muitos desesperados da Terra.
A retórica da identidade cristã, que se restringe apenas a sinais externos e proclamações frequentemente instrumentais, deve ser jogada fora pelas mãos das vítimas de guerras e migrações, que aguardam ser acolhidas por aqueles que demonstram boa vontade, um impulso de generosidade, um palpitar de amor atuante. Talvez o presépio mais autêntico seja aquele descrito por um ateu como Bertolt Brecht em seu poema "Na Véspera de Natal": "Nós, miseráveis, estamos sentados hoje em um pequeno quarto frio. O vento sopra lá fora, o vento entra. Vem, bom Senhor Jesus, volta o teu olhar para nós: pois realmente precisamos de Ti."
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