17 Agosto 2026
"Aí está a verdadeira questão. Não no latim ou na língua vernácula, não na orientação do altar nem na forma dos gestos, mas em saber se a vida de quem celebra reflete aquilo que dizem crer. Porque, no final, a credibilidade do Evangelho não depende do rito que se defenda, mas da verdade com que se vive: 'A verdade vos libertará' (Jo 8,32)."
O artigo é de José Carlos Enríquez Díaz, teólogo, publicado por Religión Digital, 16-08-2026.
Eis o artigo.
Enquanto alguns elevam o rito a bandeira, o Evangelho continua lembrando que a fé não se mede por latins nem cerimônias, mas pela vida. Defender formas antigas pode ser legítimo; transformá-las em absolutos, um perigoso desvio da mensagem de Jesus.
O debate em torno da Missa tradicional voltou ao primeiro plano em decorrência das recentes declarações do Cardeal Raymond Leo Burke, uma das vozes mais firmes na defesa do uso do Missal de 1962. Nascido em Wisconsin em 1948, formado em instituições como a Universidade Católica da América, Burke ocupou postos de grande relevância na Igreja, destacando-se por seu perfil doutrinalmente conservador e sua insistência em preservar formas litúrgicas anteriores ao Concílio Vaticano II.
Cardeal Burke | Fonte: RD
Nos últimos meses, ele tem insistido em que os fiéis devem "lutar" para manter acessível a chamada Missa tradicional em latim, aceitando inclusive o sofrimento que possa derivar das restrições impostas após o motu proprio Traditionis Custodes. Para Burke, essa forma litúrgica constitui um "bem enorme" que não pode ser perdido. Sua postura, contudo, não é simplesmente uma preferência estética ou espiritual: representa uma determinada visão da Igreja, da tradição e, em última instância, da relação entre rito e fé.
Ora, essa defesa levanta uma questão de fundo que não pode ser evitada: que lugar ocupa o rito dentro do Evangelho e da experiência cristã? Porque o problema não é a existência de ritos — inevitáveis em qualquer religião —, mas sua absolutização.
Quando o rito se converte em um absoluto, corre o risco de deslocar o Evangelho. E aí surge uma tensão que não é nova: aquela que já denunciavam os textos bíblicos entre a observância externa e a autenticidade interior: "Nem todo aquele que me diz: 'Senhor, Senhor', entrará no Reino dos céus, mas aquele que faz a vontade de meu Pai" (Mt 7,21).
Diversos estudos em história das religiões mostram que, nas origens, os ritos — especialmente os sacrificiais — desempenhavam uma função social e psicológica: coesionavam o grupo e ajudavam a canalizar sentimentos profundos como a culpa ou o medo. Antes mesmo de uma formulação clara da ideia de Deus, o ser humano já praticava rituais. O rito precede, de certo modo, a teologia. Mas justamente por isso, o Evangelho introduz uma ruptura decisiva.
No centro da mensagem de Jesus não há um sistema ritual, mas uma forma de vida. Os evangelhos mostram Jesus relativizando constantemente as práticas religiosas quando estas se convertem em um fim em si mesmas: "Este povo me honra com os lábios, mas o seu coração está longe de mim" (Mc 7,6). De fato, a última ceia — que depois seria reinterpretada liturgicamente — foi, em sua origem, uma refeição compartilhada, um gesto de fraternidade mais do que uma cerimônia rígida: "Tomai e comei… fazei isto em memória de mim" (Lc 22,19). As primeiras comunidades cristãs celebravam encontros nos quais partiam o pão e compartilhavam a vida, sem o aparato ritual que mais tarde se desenvolveria.
Por isso, é problemático identificar a fidelidade cristã com a adesão estrita a formas litúrgicas determinadas.
A história — e também o presente — está cheia de exemplos de pessoas escrupulosamente observantes no plano litúrgico, mas profundamente incoerentes em seu comportamento. Jesus foi especialmente duro com essa atitude: "Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas!" (Mt 23,27).
A Carta aos Hebreus, por exemplo, insiste em que o verdadeiro sacrifício não é ritual, mas existencial: uma vida entregue em favor dos outros. Nessa linha, o critério último não é a perfeição cerimonial, mas a justiça, a solidariedade e a verdade na vida cotidiana. O culto que agrada a Deus não se mede pela precisão do rito, mas pela coerência ética: "Misericórdia quero, e não sacrifícios" (Mt 9,13).
Sob essa perspectiva, certas posturas rigoristas em torno da Missa tradicional podem resultar preocupantes. Não porque valorizem a beleza ou a riqueza simbólica de uma liturgia antiga — algo legítimo —, mas porque tendem a identificar essa forma concreta com a "verdadeira" fé, deslegitimando implicitamente outras expressões aprovadas pela Igreja após o Concílio Vaticano II.
Cardeal Burke | Fonte: RD
Mais ainda, existe o risco de que essa defesa do rito oculte uma contradição mais profunda: uma religiosidade centrada em normas e cerimônias que nem sempre se traduz em uma vida justa e transparente.
A nostalgia do incenso
O cristianismo não nasceu como uma religião do rito, mas como um movimento centrado na transformação da vida. Reduzi-lo a uma questão de formas litúrgicas — por mais veneráveis que sejam — é empobrecer o Evangelho. E, em última instância, pode se converter em uma maneira de evitar o mais exigente da mensagem de Jesus: a conversão pessoal e o compromisso com os outros: "Pelos seus frutos os conhecereis" (Mt 7,16).
O próprio Evangelho adverte contra esse perigo utilizando imagens muito gráficas, como o "fermento dos fariseus", símbolo de uma religiosidade que aparenta fidelidade, mas está corrompida pela hipocrisia: "Guardai-vos do fermento dos fariseus" (Mc 8,15). Junto a ela aparece também o "fermento de Herodes", que representa a instrumentalização do poder e da violência. São duas formas distintas de desviar a mensagem: uma a partir do religioso, outra a partir do político. Ambas continuam sendo atuais.
Refeições fraternas com Jesus | Fonte: RD
Nesse contexto, a insistência de Burke em "lutar" pela Missa tradicional pode ser interpretada como algo mais do que uma defesa litúrgica: é uma tomada de posição dentro de uma batalha cultural e eclesial. Mas convém perguntar se essa luta está verdadeiramente alinhada com o núcleo do Evangelho ou se, ao contrário, corre o risco de absolutizar o secundário.
Refeições fraternas com Jesus
O desafio, portanto, não é escolher entre uma missa ou outra, mas recuperar o sentido profundo daquilo que se celebra. Sem essa recuperação, qualquer rito — antigo ou moderno — corre o perigo de se converter em um gesto vazio. E então, como tantas vezes na história, o "culto" acaba substituindo Deus, em vez de conduzir a Ele.
Aí está a verdadeira questão. Não no latim ou na língua vernácula, não na orientação do altar nem na forma dos gestos, mas em saber se a vida de quem celebra reflete aquilo que dizem crer. Porque, no final, a credibilidade do Evangelho não depende do rito que se defenda, mas da verdade com que se vive: "A verdade vos libertará" (Jo 8,32).
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