Tudo está oculto por trás do veto da Rússia ao único partido que se opõe à guerra na Ucrânia

Mais Lidos

  • Milei, o profeta detonado. Artigo de Fernando Rosso

    LER MAIS
  • “Estou preparado para uma terceira guerra. Não para uma nuclear”. Entrevista com Lejeune Mirhan

    LER MAIS
  • Quando políticos leem discursos escritos por IA: a era da tecnologia de ventriloquismo. Artigo de Éric Sadin

    LER MAIS

Assine a Newsletter

Receba as notícias e atualizações do Instituto Humanitas Unisinos – IHU em primeira mão. Junte-se a nós!

Conheça nossa Política de Privacidade.

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

12 Agosto 2026

Após anunciar um programa eleitoral antiguerra, o partido Yabloko experimentou um aumento notável de apoio, e 11 dias após ser aceito para participar das eleições de setembro, o Supremo Tribunal o proibiu.

A reportagem é de Albert Sort Creus, publicada por El Diario, 11-08-2026.

Foi tão inesperado que a Comissão Eleitoral Russa permitisse a participação do Yabloko nas eleições parlamentares de 20 de setembro, apesar de seu programa contra a guerra e a repressão, quanto previsível que o partido fosse vetado nesta segunda-feira, após uma ação judicial movida no Supremo Tribunal por supostas violações das normas sobre financiamento estrangeiro e propriedade intelectual.

O que aconteceu durante os 11 dias entre as duas decisões explica a mudança de postura do Kremlin. Embora admitindo que o partido, com seu apoio historicamente muito baixo, tinha como objetivo demonstrar a marginalidade das posições pacifistas e dividir o voto liberal, a indignação pública forçou as autoridades russas a recuarem. A oposição política, quase unanimemente, pediu votos para o Yabloko, sua popularidade disparou online e as pesquisas começaram a mostrar que ele tinha chances de entrar no Parlamento russo.

Em uma ação precipitada, o Rodina, um partido de extrema-direita, entrou com uma ação judicial exigindo a exclusão do Yabloko do processo. Seus advogados desenvolveram argumentos incriminatórios tão absurdos quanto a alegação de que o Yabloko teria usado, em sua campanha, uma foto de Hiroshima tirada por um fotógrafo do Exército dos EUA sem a permissão do autor.

A decisão do juiz indignou as centenas de jovens, muitos deles menores de idade, que se reuniram em frente ao Supremo Tribunal — uma cena rara em um país onde as manifestações de dissidência são mínimas, pois geralmente são duramente reprimidas. A polícia respondeu obrigando-os a dispersar, sob pena de serem levados a um centro de recrutamento. Enquanto isso, grande parte da oposição afirma que essa reação é prova irrefutável de que o regime está com medo.

Medo das pesquisas

A última vez que o Yabloko (que significa "maçã" em russo) entrou no Parlamento, em 1999, foi poucos dias antes de Boris Yeltsin entregar a presidência a Vladimir Putin. Desde então, o partido nunca mais ultrapassou a cláusula de barreira de 5% necessária para eleger representantes. Nas eleições parlamentares anteriores, as de 2021, o partido obteve 1,34% dos votos, e três anos antes, nas eleições presidenciais de 2018, seu cofundador, Grigory Yavlinsky, havia conquistado 1,05%.

Suas posições estritamente liberais-democráticas os colocavam em desacordo com a maioria da oposição, especialmente com a facção liderada por Alexei Navalny. O Yabloko não via com bons olhos a formação de uma frente unida contra Putin e considerava os protestos de rua ineficazes. Isso frequentemente lhes rendia críticas por institucionalismo excessivo e falta de purismo tático.

Ainda assim, o partido também sofreu repressão estatal. Ao longo do último ano, os tribunais declararam alguns de seus líderes como agentes estrangeiros, impedindo-os de concorrer a cargos públicos. De fato, o presidente do partido, Nikolai Rybakov, foi designado como tal e sancionado por exibir supostos símbolos extremistas, resultando em sua desqualificação.

Apesar de tudo, o Yabloko ainda mantém alguns deputados nas assembleias regionais, e essa circunstância permitiu que participassem das eleições sem a necessidade de coletar assinaturas, um procedimento frequentemente usado para eliminar qualquer proposta pacifista. A surpresa foi que a Comissão Eleitoral não alegou nenhum erro técnico para excluí-los da disputa e que, na verdade, o sorteio para determinar a ordem dos candidatos na cédula os colocou em segundo lugar, logo atrás do Rússia Unida, partido de Putin.

Essa janela de oportunidade para a oposição rapidamente gerou uma onda de apoio. Ativistas e políticos exilados que antes desconfiavam do Yabloko correram para pedir votos para o partido. Foi o caso da viúva de Navalny, Yulia Navalnaya, de Ilya Yashin e de Vladimir Kara-Murza.

O slogan “Pela paz e pela liberdade! Por uma vida sem medo!” também atraiu muitos jovens que atingiram a maioridade em meio à guerra, temendo serem recrutados e acabarem na linha de frente, e que veem como, dia após dia, seus direitos são restringidos, a internet é bloqueada e se torna quase impossível para eles viajarem para a Europa.

Memes de todos os tipos, destacando de forma nada sutil uma maçã, viralizaram nos últimos dias no TikTok e no Instagram, enquanto marcas comerciais, algumas sediadas na Rússia, também recorreram ao símbolo da fruta em seus anúncios.

A gota d'água para as autoridades foi a ascensão do Yabloko nas pesquisas. Segundo o veículo de mídia da oposição Viorstka, o partido chegou a 9,3% dos votos uma semana antes de ser derrotado nas urnas. Uma fonte próxima à administração presidencial disse ao elDiario.es que “quando a taxa de aprovação de um partido [antiguerra] ultrapassa 5%, e isso acontece um mês e meio antes das eleições, ele precisa ser expulso. E quanto antes, melhor”.

 O receio era de que isso pudesse catalisar o voto contra a guerra ou, melhor dizendo, a "coligação dos descontentes" à qual Navalny apelava.

Outra publicação da oposição, Meduza, cita um estrategista político do círculo de tecnocratas do Kremlin que acrescenta que, em Moscou e São Petersburgo, o apoio ao partido pode variar entre 12% e 14%.

Esses números alarmaram a oposição estabelecida, os partidos atualmente representados na Duma, que não contestam nem a liderança de Putin nem a sua guerra. O social-democrata Sergei Mironov afirmou que a paz prometida pelo Yabloko é "a rendição do nosso país ao Ocidente coletivo" e exigiu que, por essa razão, a organização fosse expulsa da corrida eleitoral. Enquanto isso, o nacional-populista Leonid Slutsky pediu que o Yabloko fosse declarado uma organização "indesejável", um rótulo normalmente reservado para ONGs estrangeiras.

Uma exigência sem fundamento, mas suficiente

O único deputado de Rodina, Alexei Zhuravlyov, membro do grupo parlamentar de Slutsky, foi incumbido de enfrentar o desafio do Kremlin e levar Yabloko à justiça. Especialistas consideram seu caso muito frágil. "O processo foi mal preparado e carecia de mérito", observa o cientista político Aleksandr Kinev.

Desde o início, o partido de extrema-direita argumentou que os apelos do Yabloko para interromper o conflito eram ilegais porque, ao exigir um cessar-fogo antes que a Rússia tivesse conquistado todas as regiões ucranianas anexadas pela Constituição, estava violando a integridade territorial da Federação. Também classificou como extremistas e incitadoras de ódio as declarações de políticos liberais contra a repressão, a censura e a perseguição da comunidade LGBTQ+.

Um dos aspectos cruciais do processo foi a acusação de violação de propriedade intelectual. Assim, além de denunciar o uso indevido de uma fotografia do Exército dos EUA de 1945, os advogados do Rodina argumentaram que o logotipo do partido era baseado em um pôster de 1920 do artista soviético El Lissitzky e que haviam usado uma imagem criada com o ChatGPT para a campanha sem o consentimento da OpenAI.

A defesa de Yabloko conseguiu refutar algumas dessas acusações, como o fato de ele não ter creditado o fotógrafo em seu site. Seus advogados tiveram que ampliar a imagem para demonstrar que a assinatura do fotógrafo estava de fato presente e forneceram a nota fiscal comprovando o pagamento.

A partir do momento em que o Yabloko saiu das sombras e anunciou sua participação nas eleições com uma plataforma antiguerra, o interesse entre os russos disparou, e o governo não previu um aumento tão acentuado de interesse nem a potencial catástrofe que isso representava.

Eles também discutiram uma citação que Yavlinski havia usado em uma entrevista recente. O cofundador do partido havia parafraseado um verso da canção de Arkady Ostrovsky "Pust vsegdá búdet sólntse" (Que o Sol Brilhe Sempre), e Rodina acreditava que isso constituía uma violação dos direitos do compositor. Mas o herdeiro do músico, seu filho Mikhail, deu permissão ao Yabloko e agradeceu por se lembrarem das canções de seu pai.

A questão mais delicada foram as acusações relativas ao financiamento da campanha. Numa das manobras mais desconcertantes, os advogados da extrema-direita alegaram que o Yabloko havia excedido o orçamento de campanha alocado ao partido. A justificativa, segundo eles, era que, com o frenesim midiático da semana anterior, o custo dessa exposição havia ultrapassado em muito o valor permitido e, além disso, havia sido realizada por meio de canais estrangeiros proibidos, como o YouTube e o Instagram.

A realidade, porém, é que a grande maioria do conteúdo que tem circulado ultimamente sobre o partido foi gerada organicamente. O próprio Ribakov reclamou aos juízes: “Não pagamos aos jovens que fazem vídeos em nosso apoio e que vieram hoje ao Supremo Tribunal. Eles nos apoiam simplesmente porque querem viver na Rússia e não querem ser mortos.”

Por fim, a Comissão Eleitoral corroborou a acusação e forneceu um documento confidencial com supostas provas de que o Yabloko teria recebido financiamento estrangeiro. "Somos financiados por cidadãos russos e devemos prestar contas a cidadãos russos", retrucou Rybakov. Segundo os advogados do Yabloko, essas doações estrangeiras totalizaram apenas 16.900 rublos, cerca de 170 euros, provenientes da Geórgia e da Armênia, e foram devolvidas aos remetentes.

Em todo caso, o juiz, com a aprovação do promotor, considerou esses argumentos suficientes para acolher o processo e desqualificar o partido liberal. Ao mesmo tempo, ambos rejeitaram as acusações de extremismo. O Yabloko tem até sábado para recorrer da decisão, mas as chances de sua reintegração são mínimas.

O erro de cálculo

Uma das perguntas que muitos cidadãos têm feito desde segunda-feira é por que a candidatura do Yabloko foi inicialmente autorizada. Analistas como Dmitri Bavirin apontam que o regime queria usá-lo para canalizar uma parcela dos votos descontentes que não tinham chance de entrar na Duma, fortalecendo assim o Rússia Unida. Ao mesmo tempo, criou a ilusão de pluralismo nas urnas e, mais importante, demonstrou claramente que a agenda liberal e capitulacionista não tem apoio na sociedade.

Viorstka sugere outra hipótese complementar: a de que os serviços de segurança, em desacordo com os tecnocratas do Kremlin, desejam enfraquecer o único partido liberal moderado, o Novo Povo. Este partido, lançado em 2020 por Sergei Kiriyenko, o homem forte do bloco político da administração presidencial, ganhou força nos últimos meses com sua postura moderadamente beligerante em relação aos bloqueios da internet.

O jornal acrescenta que o juiz da Suprema Corte, Vyacheslav Kirillov, é próximo de Andrei Yarin, um rival de Kirienko dentro da administração presidencial, que goza do apoio dos serviços de inteligência. Sugere que a má gestão desta crise poderá prejudicar a posição de Kirienko e, em última instância, conceder mais poder ao FSB, a antiga KGB.

A jornalista Farida Rustamova acredita que, com essa decisão judicial, as autoridades “estão demonstrando que podem agir com impunidade”. “Se quisermos, revistamos vocês; se não, esmagamos vocês como insetos”, escreve ela. Segundo Rustamova, “as autoridades estão demonstrando seu poder de desmoralizar mais uma vez as pessoas com pensamento crítico e dissipar até mesmo a mais remota noção de que elas possam se unir e mudar alguma coisa”.

Mark Galeotti, especialista em Rússia, acredita ser improvável que o partido de oposição tenha ameaçado o Rússia Unida ou o Partido Comunista, o segundo maior grupo na Duma. "O receio era de que isso pudesse catalisar o voto contra a guerra ou, melhor dizendo, a 'coalizão dos descontentes' à qual Navalny estava apelando", afirma.

Do exílio, Navalnaya divulgou um vídeo na segunda-feira afirmando que o Kremlin "ficou com medo". "Eles viram o que absolutamente não queriam: que as pessoas estão começando a se unir. E a questão nem é o apoio ao Yabloko, mas sim o fato de que milhões de russos estão começando a ter a oportunidade de dizer o que realmente pensam sobre Putin e a guerra", disse a ativista.

Enquanto isso, Vladimir Kara-Murza concentrou-se nas centenas de adolescentes reunidos em frente ao tribunal. "Esses jovens, cantando, gritando e rindo na cara da polícia, são o futuro da Rússia, enquanto o velho ditador covarde em seu bunker agora é para sempre passado", escreveu ele.

Esse apoio de políticos russos no exterior ao Yabloko tem sido alvo de críticas dentro da oposição. O cientista político Kinev acredita que a propaganda "excessiva e provocativamente ostentosa" da oposição democrática "deixou o partido sem chances". De fato, o Yabloko se distanciou dele por medo de ser acusado de receber financiamento estrangeiro ou de ser ligado ao terrorismo, como no caso Navalnaya. Foi em vão.

No entanto, o jornalista Anton Barbashin discorda. "Acontece que não foram os emigrados que fizeram a diferença, mas sim os russos dentro da própria Rússia", afirma. Ele destaca que "a partir do momento em que o Yabloko saiu das sombras e anunciou sua participação nas eleições com uma plataforma antiguerra, o interesse entre os russos disparou" e enfatiza que a administração presidencial "não previu um aumento tão acentuado no interesse ou a potencial catástrofe que isso representava" para os resultados que havia definido para o Rússia Unida. "Irritar Putin é um risco muito grande", conclui o analista.

Leia mais