Onde nasce a diplomacia humanitária da Igreja (e por que começa pelos pequenos). Artigo de Nello Scavo

Papa Leão XIV com Volodymyr Zelenskyy, presidente da Ucrânia. (Foto: Vatican News)

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17 Julho 2026

"Quem pode abrir um caminho, uma brecha, um canal, um corredor antes que seja tarde demais? É aí que nasce a diplomacia humanitária. Não quando a guerra termina, mas quando a guerra pretende ocupar tudo: a política, a memória, as famílias, a língua e até o futuro. Não substitui a diplomacia dos Estados. No entanto, impede que a paz seja reduzida a uma mera contabilidade de territórios", escreve Nello Scavo, em artigo publicado por Avvenire, 15-07-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Nello Scavo é jornalista, repórter investigativo e correspondente de guerra italiano. Ele trabalha para o jornal católico Avvenire desde 2001. 

Eis o artigo.

A missão do Vaticano na Ucrânia tem um objetivo claro: salvar vidas enquanto a política continua a fracassar. Em seu cerene, está a negociação para a libertação dos menores transferidos para a Rússia. É assim que se desenrolam as trajetórias de mediação que acabam por dar frutos.

Existe uma diplomacia que lida com mapas, fronteiras, esferas de influência, oleodutos e bases militares. É a diplomacia das dinâmicas de força. Mas, existe outro tipo. Mais frágil. Mais exposta. Muitas vezes, mais concreta. Começa com perguntas elementares: quem pode abrir um caminho, uma brecha, um canal, um corredor antes que seja tarde demais?

É aí que nasce a diplomacia humanitária. Não quando a guerra termina, mas quando a guerra pretende ocupar tudo: a política, a memória, as famílias, a língua e até o futuro. Não substitui a diplomacia dos Estados. No entanto, impede que a paz seja reduzida a uma mera contabilidade de territórios. Lembra às chancelarias, aos exércitos e aos organismos internacionais que uma paz que é construída esquecendo, por exemplo, as crianças, não é paz, é apenas uma trégua entre adultos.

A missão do Vaticano na Ucrânia escolheu uma arena mais específica e verificável: salvar vidas enquanto a política continua a fracassar. A missão, confiada pelo Papa Francisco e renovada pelo Papa Leão XIV ao Cardeal Zuppi - e que conta com o Núncio em Kiev, o arcebispo lituano Visvaldas Kulbokas, como figura-chave nas relações com a Ucrânia — promove a proteção de civis e negociações para a libertação dos menores transferidos para a Rússia. O mandato, entregue em maio de 2023, acompanhou a geografia dos atores decisivos do conflito.

O Cardeal Zuppi reuniu-se prontamente com a liderança ucraniana em Kiev, com o presidente dos EUA, Biden, em Washington, além de representantes do governo chinês em Pequim e autoridades russas em Moscou, com exceção de Vladimir Putin, que preferiu delegar a outros o encontro presencial com o enviado do Vaticano. Em Kiev, já em 5 e 6 de junho de 2023, Zuppi ouviu as demandas ucranianas relativas a civis, prisioneiros e crianças levadas para a Rússia. Em Moscou, no final daquele mesmo mês, reuniu-se com o assessor presidencial Yuri Ushakov, com o Patriarca Kirill e com Maria Lvova-Belova.

Em julho, sua conversa com Biden envolveu aquela que, na época, era a principal potência apoiadora da Ucrânia. Em setembro, em Pequim, as conversas com o enviado chinês Li Hui levaram a questão ao aliado político e econômico mais influente de Moscou. Canais que não eliminam o conflito em torno das responsabilidades, mas o atravessam com o único objetivo de salvar vidas, prevenir novas violações e abrir espaços que, um dia, poderiam permitir às negociações de paz seguir as rotas traçadas pela Santa Sé.

Moscou rejeita a acusação de deportação, mas admite transferências organizadas de menores ucranianos, incluindo crianças que estavam em estruturas protegidas. Em março de 2023, o Tribunal Penal Internacional emitiu mandados de prisão contra Vladimir Putin e Maria Lvova-Belova. No entanto, o Kremlin fala em evacuações por motivos de segurança. É uma diplomacia feita de listas, certificados, laços de parentesco a serem verificados e identidades a serem reconstruídas.

Às vezes, um rosto reaparece por trás de um dossiê. Paralelamente, o Cardeal Pietro Parolin tem mantido o nível institucional da diplomacia do Vaticano: a cúpula na Suíça em junho de 2024, a visita à Ucrânia no mês seguinte, a conversa com Zelensky e a disposição da Santa Sé em facilitar eventuais negociações. Até a conversa improvisada entre Trump e Zelensky dentro da Basílica de São Pedro, no dia do funeral do Papa Francisco.

Desde a primeira missão de Zuppi, foram criados mecanismos que permitem a várias organizações humanitárias ucranianas e internacionais tratar de casos individuais com as autoridades russas. Até o momento, mais de 1.500 menores conseguiram deixar para trás a "proteção" de Moscou. Após a visita do cardeal aos prisioneiros russos na Ucrânia, espera-se que a Rússia possa abrir as portas de suas prisões para permitir encontrar os soldados ucranianos capturados e relançar as trocas de prisioneiros.

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