17 Julho 2026
As consequências dessa evolução bélica são radicais, com efeitos difíceis de prever. E nos apresentam uma série de problemas éticos que pensávamos serem apenas teóricos. O artigo é de Gianluca Di Feo, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 17-07-2026.
Eis o artigo.
A guerra agora está se tornando baseada em drones. Isso não é novidade: todos os dias testemunhamos a entrada em campo de novos robôs de combate, cada vez mais independentes de humanos. Esta semana, pela primeira vez, os americanos usaram barcos explosivos controlados remotamente para atacar uma base naval iraniana, enquanto os ucranianos realizaram uma operação de desembarque com um barco e um tanque não tripulados. Na realidade, o Pentágono está simplesmente copiando o que as forças de Kiev e Moscou vêm fazendo há anos, chegando ao ponto de clonar os drones voadores Shahed, projetados pelos Pasdaran. Em vez disso, os ucranianos estão revolucionando a própria natureza do conflito, com uma transformação que traz uma reviravolta operacional a cada seis meses: ela força os russos a modificar suas táticas e estudar contramedidas.
As consequências dessa evolução na guerra são radicais, com efeitos difíceis de prever. Elas nos apresentam uma série de problemas éticos que pensávamos serem teóricos, mas que na verdade são dramaticamente reais: como regular a autonomia das máquinas assassinas? Há meses, ucranianos e russos vêm utilizando drones pilotados por inteligência artificial que decidem por si mesmos quando e como matar. Eles possuem uma lista de alvos em sua memória que inclui, por exemplo, ônibus, frequentemente usados para transportar soldados: no Donbass ocupado por Moscou, um drone controlado por IA chegou a destruir o ônibus de um time de futebol infantil.
Há também a metamorfose dos exércitos, pois tudo nas forças armadas está destinado a mudar. A perspectiva de que o número de pilotos de drones no campo de batalha possa superar o de soldados de infantaria já não parece absurda. Os programas do Kremlin visam treinar um milhão de pilotos e técnicos dedicados à gestão de robôs até 2030, adicionando 600 mil às fileiras militares: um exército de crianças recrutadas em escolas de ensino médio e universidades.
Por fim, há a profunda transformação da indústria. O número de drones está crescendo exponencialmente: hoje, o Comando Sul da Ucrânia — responsável pela frente que vai de Donbass à foz do rio Dnipro — consome 3.500 drones por dia: isso representa mais de 100 mil por mês, em sua maioria quadricópteros kamikaze de baixo custo, mas frequentemente modelos mais sofisticados. Zelensky declarou que seu país produz atualmente 10 milhões de drones por ano e pretende dobrar esse recorde. Essas são declarações otimistas demais, mas os ucranianos certamente produzem mais de quatro milhões de unidades por ano, e os russos também estão avançando em ritmo semelhante. Isso exige uma abordagem diferente para a cadeia de suprimentos industrial: nenhuma empresa europeia ou americana opera nesses níveis.
Ao mesmo tempo, não faz sentido construir milhões de dispositivos que se tornarão tecnologicamente obsoletos em seis meses: precisamos criar uma estrutura que mantenha os modelos atualizados e seja capaz de entregá-los em grandes volumes assim que a necessidade surgir. Isso obviamente implica o estabelecimento de regras contratuais diferentes e um relacionamento diferente com a indústria. Este é um verdadeiro desafio para os estados-maiores e empresas de todo o Ocidente. Os ucranianos e russos, por outro lado, usam imediatamente em combate as armas que saem de suas fábricas: esperamos nunca ter que fazer isso, mas isso não significa que possamos permanecer desarmados em um mundo dominado por relações de poder.
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