Leão XIV na Espanha: "Aquela do Irã não é uma guerra justa, na Ucrânia é urgente uma negociação"

Encontro do Papa Leão com o presidente espanhol Pedro Sanchéz. (Foto: Vatican Media)

Mais Lidos

  • A ferrovia bioceânica Brasil-Peru promete agilizar o comércio com a China. Mas a que custo?

    LER MAIS
  • Antonio Banderas ao Papa: "Estou aqui hoje confessando ter sido vítima do feitiço de Deus"

    LER MAIS
  • “As ideias de Yarvin e de outros são um absurdo, mas as prescrições liberais do mundo seguem linhas semelhantes". Entrevista com Carlos Fernández Liria

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Aceleracionismo Amazônico

Edição: 559

Leia mais

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

09 Junho 2026

O Papa agradece às autoridades espanholas por sua "fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo, que se traduz em um ativo compromisso pela paz e pela solidariedade entre os povos". Durante a viagem, está previsto um encontro com as vítimas de abusos sexuais cometidos pelo clero.

A reportagem é de Francesco Peloso, publicada por Domani, 06-06-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

O Papa viajou para a Espanha para sua quarta viagem apostólica ao exterior; ele permanecerá lá por 7 dias (até 12 de junho), com etapas em Madri, Barcelona e nas Ilhas Canárias. Esta última parada marcará a primeira visita de um pontífice ao arquipélago na costa da África e será uma oportunidade para Leão XIV abordar a questão das migrações, considerando que as Ilhas Canárias fazem parte da rota atlântica que vê tantas pessoas partirem rumo à Europa por um caminho particularmente perigoso. Dessa forma, no voo que o levou à capital espanhola na manhã de sábado, ele falou sobre acontecimentos atuais, começando pelos conflitos que abalam o Oriente Médio e a Ucrânia.

Uma solução para a guerra na Ucrânia

“Estou preocupado com a Ucrânia", disse Prevost, respondendo a jornalistas que lhe fizeram algumas perguntas durante o voo. "A situação piora a cada dia. Agora, até mesmo nos Estados Unidos, alguns querem dar seu apoio (às negociações). Já se passaram quatro anos e meio. É preciso encontrar uma solução." E sobre a mensagem que enviaria a Putin, que se recusou a se encontrar com Zelensky, o papa disse: "A mensagem da encíclica: promover as negociações que ao menos estavam acontecendo. Realmente é preciso pressionar para pôr fim à violência e à guerra e encontrar uma solução. Vidas demais já foram perdidas."

O Irã e o princípio da "guerra justa"

Sobre o Irã e o princípio da "guerra justa", invocado pelo vice-presidente estadunidense J.D. Vance, Leão afirmou: "Acredito que já foi declarado com bastante clareza: não existe ali uma guerra justa. O problema é que a teoria da guerra justa vem de séculos passados; não se imaginavam as armas e a capacidade de destruição que o homem possui hoje. É tudo como afirmo na encíclica." Depois uma referência à questão dos abusos sexuais cometidos pelo clero, um tema que gerou amplo debate nos últimos meses na Espanha. "Encontrarei algumas pessoas que sofreram abusos", disse Prevost, "mas infelizmente é impossível receber todas aquelas que o desejariam." Os abusos sexuais na Igreja, especificou o Papa, "é uma ferida ainda aberta".

O discurso no Palácio Real espanhol

Dessa forma, em seu primeiro discurso em solo espanhol, no palácio real, diante do rei, da rainha, das autoridades civis e do corpo diplomático, Leão XIV abordou diversos temas que lhe são caros, como a rejeição da violência, as polarizações e as ideologias para lidar com os conflitos de nosso tempo, optando, em vez disso, pela cultura do encontro, pela aceitação da complexidade como uma riqueza a ser valorizada e pelo caminho da paz e da solidariedade como instrumentos para resolver as controvérsias desta época sem ceder ao medo e à obscuridade.

"A tentação de ganhar popularidade atiçando as chamas da polarização parece estar crescendo, em vez de diminuir", enfatizou Prevost. "A dignidade humana continua sendo violada. Portanto, precisamos de cultura, interioridade, educação livre e de qualidade e transcendência. Contudo, por essas noites escuras, homens e mulheres fiéis à verdade foram impelidos a avançar de sala em sala até o ponto em que, na consciência, justiça e paz se abraçam.

É a partir de sua liberdade que aprendemos a ser livres." E mais, referindo-se ao papel da velha Europa em tal contexto, disse: "Convido a todos, em nome da verdade, a abandonar as narrativas que geram divisão e polarização de suas realidades sociais e de sua história, para passar das simplificações estéreis para a apreciação fecunda da complexidade. Vejo aqui uma vocação específica da Europa, da qual a Espanha é protagonista original e fundamental. É o dom que o Velho Continente pode oferecer ao mundo se quiser se manter jovem, assim como jovem é aquele que sente ter um futuro e uma missão que ainda nos desafiam."

O elogio à Espanha

Continuando seu raciocínio, logo em seguida quis dirigir um elogio especial à Espanha: "Expresso meu apreço ao seu país", disse o Pontífice, "pela sua fidelidade ao direito internacional e ao multilateralismo, que se traduz em um compromisso ativo pela paz e pela solidariedade entre os povos. Ao mesmo tempo, encorajo a cultivar o diálogo e a amizade social dentro de suas fronteiras, a levar em conta os pontos de vista dos pobres e dos jovens ao imaginar o futuro, a transformar em positiva harmonia as instâncias por autonomia e por unidade, a favorecer o processo de união europeia, não em contraposição a outras potências, mas como um dom para toda a família humana."

Palavras importantes para o primeiro-ministro Pedro Sánchez, que enfrenta uma série de investigações judiciais que testam profundamente a estabilidade do governo e do seu próprio partido, o PSOE. Por outro lado, os repetidos apelos do Papa à convivência entre diferentes culturas e religiões não devem ter agradado o líder da extrema-direita espanhola, Santiago Abascal, que já havia criticado o pontífice pela sua próxima visita às Ilhas Canárias. Tudo isso e muito mais culminará no discurso de Leão XIV ao Congresso espanhol na próxima segunda-feira, uma estreia absoluta para um Papa.

Leia mais