O terror como espelho da sociedade. Artigo de Vitória Abranoski

Foto: Pixabay

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09 Julho 2026

"A presença feminina no terror sempre foi ambígua: ora como vítima, ora como sobrevivente. No entanto, obras recentes ampliam essa representação, transformando mulheres em símbolos de resistência ou em espelhos das pressões sociais."

O artigo é de Vitória Abranoski, estudante de Jornalismo pela Universidade Internacional (Uninter).

Eis o artigo. 

O cinema de terror sempre se destacou por sua capacidade de explorar medos universais, mas também por revelar tensões sociais ocultas. Mais do que monstros sobrenaturais, o gênero frequentemente expõe os horrores da própria realidade.

Em A Substância (2024), Caroline Fargeat transforma a busca pela juventude em um pesadelo. A protagonista, uma celebridade, enfrenta uma versão mais jovem e distorcida de si mesma após testar uma substância experimental. O filme denuncia como o corpo feminino é constantemente tratado como problema social, refletindo pressões culturais sobre aparência e envelhecimento.

Já em Casamento Sangrento (2019), de Matt Battinelli-Olpin e Tyler Gillett, Grace descobre que seu casamento é, na verdade, um ritual macabro da família Le Domas. A obra mistura suspense e humor negro para criticar o elitismo e a brutalidade das tradições aristocráticas, expondo a ganância como motor da violência.

Esses filmes mostram como o terror contemporâneo se conecta a questões sociais urgentes, especialmente à violência contra mulheres. O gênero se reinventa ao trocar monstros sobrenaturais por figuras humanas, revelando que o verdadeiro horror está nas estruturas sociais.

O terror incel e o consentimento

O filme Obsessão (2025), dirigido por Curry Barker, marca a ascensão de um novo subgênero: o terror incel. A trama acompanha Bear (Michael Johnston), que recorre ao objeto sobrenatural One Wish Willow para manipular os sentimentos de Nikki (Inde Navarrette), sua colega de trabalho.

O feitiço elimina a autonomia da personagem, transformando-a em uma versão distorcida criada pelo desejo masculino. Esse subgênero, também chamado de "terror do consentimento", substitui monstros sobrenaturais por homens comuns, denunciando a masculinidade frágil e a naturalização da misoginia. O horror surge da tentativa de controlar e possuir mulheres, refletindo uma realidade marcada por ressentimento e hostilidade.

A presença feminina no terror sempre foi ambígua: ora como vítima, ora como sobrevivente. No entanto, obras recentes ampliam essa representação, transformando mulheres em símbolos de resistência ou em espelhos das pressões sociais. Filmes como A Substância e Casamento Sangrento mostram protagonistas que enfrentam tanto forças externas quanto estruturas sociais opressoras. Já em Obsessão, a crítica recai sobre a tentativa masculina de negar o direito ao consentimento, reforçando a importância da autonomia feminina como tema central.

O terror contemporâneo se consolida como um gênero capaz de dialogar com problemas sociais reais. Ao abordar o elitismo, a obsessão pela juventude e a violência de gênero, filmes como A Substância, Casamento Sangrento e Obsessão revelam que o verdadeiro horror não está em fantasmas ou demônios, mas na própria sociedade. O surgimento do terror incel e a crescente valorização da representação feminina demonstram que o gênero continua a se reinventar, tornando-se não apenas entretenimento, mas também um espelho crítico da realidade.

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