31 Julho 2026
"Nesse rol daqueles que se destacaram e influenciaram a sociedade, está um em especial que, apesar de ter vivido no século XX, continua sendo um farol no XXI. Pedro Arrupe, o homem que passou pela bomba atômica e foi incompreendido por papas. Alguém que soube ler os apelos de Deus para a sua época e se abriu para viver o frescor do Espírito em uma Igreja que se reconhecia a caminho, instando os jesuítas a se adaptarem às “circunstâncias de pessoas, tempos e lugares”. Um homem de Inácio e como Inácio, que, sem dúvida alguma, seria enviado por Inácio para os turbulentos tempos atuais".
O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, mestre em Direito pela Unisinos, bacharel em Direito pela PUC-SP e em Filosofia pela FAJE. É autor do livro Os Povos Indígenas e a defesa da Natureza como titular de direitos na Constituição Federal: uma análise descolonial a partir de Ellacuria.
Eis o artigo.
Como bem sintetizou Pedro Arrupe, “ser companheiro de Jesus é amar Jesus Cristo com toda a sua alma”. “Jesus Cristo não quer pessoas desanimadas entre seus companheiros”, mas pessoas “totalmente comprometidas, sob o estandarte da cruz, na decisiva luta dos nossos tempos por uma fé e uma justiça que essa própria fé exige” (Grogan, 2022, p. 72). Celebrar Santo Inácio de Loyola também é refletir sobre a obra de sua vida, sua experiência de Deus sintetizada nos Exercícios Espirituais e encarnada concretamente na Companhia de Jesus.
Vale ressaltar que a espiritualidade inaciana vai muito além da ordem religiosa fundada por Inácio, sendo vivida por inúmeras pessoas leigas e religiosas de diversas congregações. Um tesouro para toda a Igreja, como reconheceram vários pontífices desde o século XVI. Seu testemunho continua contagiando uma imensa diversidade de cristãos e cristãs, sedentos de um itinerário para buscar e encontrar a vontade de Deus, em um relacionamento que se aprofunda no amor e leva ao serviço dos demais.
Todavia, não se pode ignorar que o santo de Loyola dedicou longos anos e muito se empenhou, após um discernimento comunitário entre os primeiros companheiros e a confirmação do Senhor, na criação da Mínima Companhia. Um grupo de pecadores perdoados, chamados a amar e servir. No transcorrer dos séculos, gerações de jesuítas se sucederam nesse caminho específico de encontrar Deus em todas as coisas.
Entre fidelidades e incoerências, os filhos de Inácio procuraram dar concretude ao modo de proceder apontado nas Constituições e nutrido nos Exercícios Espirituais. Uma história que levou à escrita de tantos livros e que certamente despertará tantos outros ainda por serem escritos. Uma caminhada formada por mártires e santos – os últimos números falam de pelo menos 53 santos, 158 beatos e 15 veneráveis – e algumas dezenas à espera do reconhecimento oficial da Igreja. Jesuítas famosos que marcaram seu tempo, bem como tantos outros que, no anonimato de sua entrega abnegada e discreta, ajudaram o Reino a acontecer silenciosamente.
Nesse rol daqueles que se destacaram e influenciaram a sociedade, está um em especial que, apesar de ter vivido no século XX, continua sendo um farol no XXI. Pedro Arrupe, o homem que passou pela bomba atômica e foi incompreendido por papas. Alguém que soube ler os apelos de Deus para a sua época e se abriu para viver o frescor do Espírito em uma Igreja que se reconhecia a caminho, instando os jesuítas a se adaptarem às “circunstâncias de pessoas, tempos e lugares”. Um homem de Inácio e como Inácio, que, sem dúvida alguma, seria enviado por Inácio para os turbulentos tempos atuais.
Em julho de 2026, celebram-se os cem anos de uma experiência fundante na vida de Arrupe, os milagres de Lurdes. Conhecido por ter sido o Superior Geral que ajudou a Companhia de Jesus a fazer a sua virada pós-Concílio Vaticano II e a comprometer-se ainda mais com os empobrecidos e os injustiçados, o jesuíta espanhol foi um homem de profunda espiritualidade. Estudante de Medicina, Arrupe era um jovem curioso e inquieto: “Eu não sabia o que eu iria encontrar lá: havia uma espécie de pressentimento que eu ainda não podia definir” (Grogan, 2022, p. 39).
No santuário mariano e junto com sua família, ele testemunhou o Outro que se faz radicalmente presente não só no ordinário, mas também no extraordinário da vida de seu povo. Assim testemunha sobre aqueles dias:
“Eu senti Deus tão próximo de mim nesses milagres, que fui arrastado violentamente em sua direção. E eu o vi tão próximo daqueles que sofrem, daqueles desconsolados e daqueles cujas vidas são despedaçadas. Um ardente desejo queimou dentro de mim para imitá-lo na mesma proximidade com o mundo dos seres humanos rejeitados, com aqueles desprezados por uma sociedade que nem mesmo suspeita que há almas pulsando sob tão grande tristeza” (Grogan, 2022, p. 40-41).
O cavaleiro de Loyola era um homem cheio de ambições e, ao ser atingido por uma bala de canhão em Pamplona (1521), entrou em um período de profundo encontro e intenso discernimento da vontade de Deus. Tal como Inácio, seria essa a bala de canhão que estilhaçou as certezas do universitário Pedro em Madri? Certamente, o Senhor começou a provocá-lo algum tempo antes, quando se juntou a alguns amigos para participar da Sociedade de São Vicente de Paulo e visitar um mundo que lhe era estranho: o dos marginalizados.
Nas visitas que fazia às comunidades empobrecidas da periferia madrilenha, ele se confrontou com uma dura realidade de injustiças e desigualdades. Impactado com o que via e ouvia entre aquela gente esquecida, os questionamentos começaram a surgir no seu interior mais profundo. E então a experiência de um Deus que não ignora as misérias humanas e supera os limites do esperado:
“Eu fui preenchido por uma imensa alegria: senti Deus muito próximo, puxando-me até ele. Eu parecia estar de pé ao lado de Jesus e, ao sentir seu onipotente poder, o mundo à minha volta começou a parecer extremamente pequeno” (Grogan, 2022, p. 41).
Após as curas em Lurdes, ele entra no Noviciado em Loyola, em janeiro de 1927. Nos passos do Peregrino, Arrupe se forja na escola dos Exercícios Espirituais como um homem em saída, a serviço e sempre pronto para discernir a vontade do Cristo pobre. Como alguém que mergulhou intensamente no modo de proceder dos jesuítas, o que esse sucessor de Santo Inácio tem a inspirar àqueles que buscam viver uma inacianeidade cheia de vitalidade e sentido nos dias atuais?
Pedro Arrupe foi uma pessoa de profunda liberdade e comunhão com a Igreja. Duas características marcantes da espiritualidade inaciana que valoriza o crescimento na liberdade interior, também chamada por Inácio de indiferença. A partir daí, soube encarnar a obediência jesuíta, sob a ótica da confiança nos seus companheiros e na fidelidade criativa que desafia a ir além.
Logo após a publicação da encíclica Humanae Vitae (1968) – que causou grandes reações em setores da sociedade e da Igreja, inclusive em muitos jesuítas – o então Superior Geral da Companhia de Jesus destacou que “com relação ao sucessor de Pedro, a única resposta para nós é uma atitude de obediência, que é ao mesmo tempo amorosa, firme, aberta e verdadeiramente criativa”. Todavia, não deixou de ponderar:
“Obedecer não é parar de pensar, nem repetir a encíclica palavra por palavra de modo servil. Pelo contrário, isso compromete cada um a estudar tão profundamente quanto possível e corrigir o nosso ensino, se necessário. O serviço que os jesuítas devem ao Santo Padre e à Igreja é, ao mesmo tempo, o serviço que devemos à própria humanidade” (Grogan, 2022, p. 92).
Ele entendeu que “sentir com a Igreja”, muitas vezes implicava amor e ousadia suficientes para resistir ao comodismo covarde de simplesmente dizer “amém”. No mesmo sentido, Santo Inácio, quando perguntado o que faria se a Companhia de Jesus fosse extinta, disse que bastariam quinze minutos de oração diante do Senhor para recuperar a paz. Uma liberdade desconcertante que não confundia os meios com os fins. Afinal, o único absoluto é o Deus de Amor.
Nos últimos anos, o decréscimo, juntamente com o envelhecimento de jesuítas e de muitas congregações femininas de espiritualidade inaciana, tem gerado preocupação. Contudo, como bem apontou Arrupe, “não é o novo mundo que me dá medo”:
“O que me preocupa mais é que os jesuítas tenham pouco ou nada para oferecer aí, pouco ou nada para dizer ou para fazer que justifique a nossa existência como jesuítas. Eu tenho medo que nós repitamos as respostas de ontem para lidar com os problemas de amanhã” (Grogan, 2022, p. 74).
O jesuíta basco compreendeu que ser fiel às intuições de Inácio exigia deixar de repetir as velhas respostas desbotadas. Para isso, era preciso reinventar a missão e estar aberto a discernir novos apelos do Deus sempre novo. Apelos que iriam trazer, como de fato trouxeram, riscos e oposição. É preciso romper uma linguagem estéril e hermética, voltada apenas ao próprio grupo. Caso contrário, “ninguém mais irá nos escutar, porque ninguém irá entender o que estamos tentando dizer” (Grogan, 2022, p. 74). Portanto, ainda se está insistindo nas respostas – agora talvez já – de anteontem, ou a liberdade de Inácio, concretizada em Arrupe, tem espaço para interpelar?
Para Bernard Lonergan, SJ a Igreja possui “a desagradável posição de sempre chegar na cena um pouco sem fôlego e um pouco atrasada” (Grogan, 2022, p. 86). E reconhecer as falhas, que também tocam a cada um como Igreja viva, em nada diminui o entusiasmo do primeiro chamado. Uma atitude de permanente autodefesa e frágil insegurança diante das críticas não significa maior dedicação ou devoção à missão de Cristo.
Para Inácio, a capacidade de avaliar-se e tomar consciência das incoerências e resistências é central em sua espiritualidade. Isso pode ser constatado, por exemplo, na revisão da oração e no exame diário de consciência. Olhar-se sem falsos enganos ou adocicados romantismos é libertador, ainda que possa ser um processo longo e dolorido. A profundidade intelectual e espiritual está ligada à pobreza: “a experiência da insegurança humana nos leva a buscar abrigo na segurança infalível de Deus” (Burke, 2004, p. 85).
Arrupe nunca se esquivou da crítica e da autocrítica com a profundidade necessária para confrontar um mundo que se contenta com o superficial e o imediato. Quando a Companhia de Jesus nos Estados Unidos parecia não acompanhar o movimento de luta pelos direitos civis com a inacianeidade esperada, ele escreveu aos seus companheiros com uma clareza cristalina:
“No entanto, nosso histórico de serviço aos negros americanos ficou muito aquém do que deveria ter sido. De fato, nos últimos anos houve grandes pioneiros como os Padres John LaFarge e John Marko, e outros que os seguiram. Esses jesuítas americanos, apesar de mal-entendidos e até oposição, às vezes dentro da própria Companhia, realizaram coisas heroicas em seu trabalho com o povo negro. Mas, infelizmente, nosso apostolado junto aos negros nos Estados Unidos dependeu principalmente da iniciativa individual e muito pouco de um esforço corporativo da Companhia. [...] Mas nas décadas seguintes, [...] a Companhia de Jesus tendia a se identificar cada vez mais com o segmento branco de classe média da população” (Burke, 2004, p. 157).
Ajudar a refletir e chamar os seus mais próximos a encarar a própria letargia e os seus afetos desordenados não é tarefa fácil, muito menos agradável. Isso demanda capacidade crítica, lucidez e coragem para exercitar um olhar acurado sempre em busca do “bem mais universal”, como pede Santo Inácio nas Constituições. Nos termos observados por Arrupe, “para conhecer bem a realidade que encontramos ou na qual vivemos, precisamos de mais do que um olhar superficial sobre ela em um contato aleatório ou puramente formal, ou uma experiência única dessa realidade” (Burke, 2004, p. 86).
A longa formação dos jesuítas, assim como os votos proferidos, tem por finalidade o caráter apostólico. “Ser contemplativo na ação” para o fundador da Companhia de Jesus passa, inerentemente, pela disponibilidade para ir aonde for preciso. Tanto é assim que os jesuítas professos fazem um quarto voto ao Papa quanto à missão, comprometendo-se a aceitar quaisquer lugares e apostolados que lhe sejam solicitados. Para Arrupe, esse sentido de prontidão foi se intensificando e consolidando ao longo de sua caminhada:
“Toda missa é uma missa para o mundo e no mundo. Eu me lembro da missa que celebrei no topo do famoso Monte Fuji, a uma altura de mais de onze mil pés. [...] Uma vez que chegamos ao topo, a vista do sol nascendo era estupenda. [...] No cume tão próximo do céu, parecia-me que eu entendia melhor a missão que Deus havia me confiado. Desci de lá com um entusiasmo renovado. Aquela Eucaristia me fez sentir a grandeza do Deus eterno e Senhor universal. Ao mesmo tempo, senti que eu era um “assistente”, um participante no trabalho de Jesus Cristo na grande missão redentora que lhe foi confiada pelo Pai. Pude repetir com mais sinceridade e convicção as palavras de Isaías — “Eis-me aqui, envia-me” (Is 6, 8) — ou as de São Francisco Xavier — “Aqui estou! Eis-me aqui” (Burke, 2004, p. 55).
Provavelmente mais desafiadores do que os vinte e sete anos no Japão – com a terrível violência da bomba atômica sobre Hiroshima – foram os anos de generalato que exigiram de Arrupe sua maior disponibilidade. O desafio de não ser apoiado por alguns companheiros e incompreendido por homens poderosos da hierarquia eclesial. Ainda assim, o jesuíta basco conduziu a Companhia de Jesus por dezoito intensos anos.
Essa disponibilidade missionária, que, no fundo, é entrega de toda uma vida, pressupõe liberdade e profundidade. Na etapa final de seus dias, já doente e tendo de enfrentar a intervenção na sua amada Companhia, ele não deixou de reconhecer: “mais do que nunca, eu agora me encontro nas mãos de Deus” (Grogan, 2022, p. 215).
Após o vívido período arrupeano, o mundo parece mais sombrio. O extremismo político, a xenofobia, o fundamentalismo religioso ressurgiram com vigor. Guerras e extermínios seguem seu rastro de destruição e morte, diante de um silêncio maléfico da comunidade internacional. Migrantes caçados nos Estados Unidos, milhares de famílias bombardeadas no Líbano e um povo inteiro sendo asfixiado em um escandaloso genocídio na Palestina.
Quanto à Igreja, após uma inflexão na abertura do Concílio promovida pelos pontificados de João Paulo II e Bento XVI, a força dos grupos conservadores e tradicionalistas segue causando estragos. Apesar das aberturas de Francisco e Leão, necessários avanços rumo a uma Igreja mais fiel ao Evangelho seguem interditados pela pressão de lobbies poderosos.
Considerando essa “composição vendo o lugar”, a espiritualidade de Inácio e suas intuições nunca foram tão imprescindíveis. Que a sabedoria de Pedro Arrupe, homem aberto ao Espírito, ajude a viver a inacianeidade para dar carne a uma Igreja que busca respostas aos problemas de amanhã com liberdade, profundidade e disponibilidade: “meu chamado para vocês hoje é que estejam disponíveis para o Senhor” (Grogan, 2022, p. 217).
Referências
BURKE, Kevin. Pedro Arrupe: essential writings. Maryknoll: Orbis Books, 2004.
GROGAN, Brian. Pedro Arrupe: a heart larger than the world. Chicago: Loyola Press, 2022.
KELLY, Connor M.; DUNS, Ryan G. Who will you become? An Ignatian Introduction to Catholic Theology. Washington: Georgetown University Press, 2025.
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