Igreja das Margens, testemunha do Deus escondido. Artigo de Gabriel Vilardi

Padre Dall’Oglio, SJ - Zona de conflito

20 Junho 2026

"O compromisso cristão pela paz, só será verdadeiro quando buscar a justiça. Uma justiça “desarmada e desarmante” (Leão XIV), que precisa começar por garantir o direito à autodeterminação dos povos. De Gaza e do Líbano à Amazônia e aos Pampas! Ainda que nos esqueçamos de vocês, marginais das fronteiras próximas e distantes, nossos companheiros e companheiras marginais jamais se esquecerão. Tomando sobre si a sorte dos marginalizados, seguirão nos incomodando com a sua memória inapagável e com seus testemunhos visíveis do Deus escondido". 

O artigo é de Gabriel dos Anjos Vilardi, jesuíta, mestre em Direito pela Unisinos e bacharel em Filosofia pela FAJE. 

Eis o artigo.

“O horror em Gaza é sem precedentes” (Albanese, 2026, p. 2), denuncia há tempos uma solitária e sempre ameaçada Francesca Albanese, Relatora das Nações Unidas para os Territórios Palestinos Ocupados. No Líbano, mais de 1 milhão de pessoas foram deslocadas de suas casas, com milhares de mortos, entre eles, cerca de 250 crianças. No Sudão, o conflito interno levou à calamitosa situação em que três quartos da população necessitam de ajuda humanitária. Em meio a um sistema internacional que parece incapaz de conter a virulência dos Trumps e Netanyahus, venceram os perversos?  

No Brasil, os Povos Indígenas e seus territórios-Natureza continuam sendo fustigados e ameaçados por retrocessos legislativos. As imagens da Polícia Militar de Mato Grosso do Sul atacando os Guarani Kaiowá, em Amambai, são chocantes e escandalosas. De repente, as Retomadas indígenas se transformam na Faixa de Gaza e no Líbano e os policiais militares em enfurecidos colonos israelenses, desejosos de aniquilar os abjetos e milenares habitantes locais.

Infelizmente, os inimigos dos Povos do Bem Viver e da Natureza não estão só no Congresso Nacional, mas também em amplos setores do Judiciário. Ademais, as violações dos Direitos Humanos e dos Direitos da Natureza só ocorrem com a conivência de parlamentares, altos funcionários das diversas esferas do Executivo, delegados, juízes e influentes empresários. O que esperar de um país que persegue violentamente seus povos originários e entrega seus territórios ao aniquilamento do capital neoextrativista?

Onde está Deus em meio a tanto sofrimento? Provavelmente, será difícil encontrá-Lo trancado nas sacristias bem ornamentadas das grandes igrejas, ou nos confortáveis palácios episcopais, bem como ainda nas prestigiosas instituições religiosas, preocupadas em não perder a proteção dos poderosos. Deus está ali, encarnado nas vítimas das terríveis situações de guerra e opressão que pululam nas Gazas, mundo afora. Nunca alheio, indiferente ou insensível à miséria de suas criaturas e da Criação. Jamais conformado ou preocupado com o seu próprio prestígio, recursos ou influência.

Há cerca de dez anos, a Companhia de Jesus, reunida na sua 36ª Congregação Geral, dirigiu uma importante mensagem para os jesuítas e todos aqueles e aquelas que colaboram na mesma missão de Evangelho da Vida e se encontram em zonas de conflito. Referindo-se aos Exercícios Espirituais de Santo Inácio de Loyola, reconheceu que “através de sua consagração à missão de Cristo, vocês aceitam a pobreza com o Cristo pobre, e não poucas vezes a humilhação com o Cristo humilhado” (CG 36, p. 69).

Desde então, o mundo tornou-se mais inabitável e o terrível genocídio em Gaza se descortinou diante de uma desconcertante passividade dos líderes da comunidade internacional. A Corte Internacional de Justiça reconheceu, em janeiro de 2024, o risco de genocídio e determinou que os Estados agissem. Nada. Em maio do mesmo ano, a destemida Albanese apresentou um documento contundente que descrevia as atrocidades cometidas pelo Estado de Israel. “‘Anatomia de um Genocídio’ foi o primeiro relatório, fornecido às Nações Unidas, com detalhada denúncia do fato de que as operações do Exército israelense em Gaza revelavam uma intenção de aniquilar, bem como destruir tudo” (Albanese, 2026, p. 3). Tampouco nada foi feito!

Tal qual assentado pelos delegados jesuítas, “sejam quais forem as razões, como sempre, os que as padecem são sempre os mais pobres dos pobres”. Por isso, nunca é demais reiterar que “elevamos nosso clamor contra tal injustiça e protestamos pelo sofrimento de tantas pessoas inocentes” (CG 36, p. 70). Esse é o dever de todo cristão, dizer não ao mal da violência das armas: não em meu nome, muito menos em nome de Deus!

Diante das atrocidades cometidas contra as crianças palestinas e ucranianas, mas também contra as milhares de crianças indígenas que não possuem seu território devidamente reconhecido e protegido pelo Estado brasileiro, o silêncio cúmplice e o conformismo covarde estão longe de ser uma opção cristã. Levantar-se pela paz e a favor das milhões de pessoas que sofrem o jugo pesado da opressão militar irrompe como um imperativo para todo homem e toda mulher de boa vontade.

Aos líderes que querem instrumentalizar a religião, como Trump e o seu católico vice J. D. Vance – que insistem em uma estapafúrdia justificativa de “guerra justa” –, é preciso dar um basta. O Papa Leão já disse que não há guerras justas. O Deus da Aliança é o Senhor das Misericórdias e o Príncipe da Paz. É preciso gritar nas igrejas e espaços religiosos, nas ruas e praças, nos parlamentos e tribunais: parem de matar os palestinos, os libaneses, os povos indígenas! Paz!

Mas não a bandeira de uma paz alienada e descompromissada. Uma paz vazia, apenas repetida como mais uma expressão estéril e sem sentido na realidade. A paz cristã é uma paz comprometedora, uma paz que implica na tomada de posição, saída da própria zona de conforto, das velhas certezas sedimentadas e inamovíveis. Uma paz que exige ações concretas e que diz respeito a cada um e cada uma, nos termos conclamados pela Congregação Geral 36:

“Estimulamos também a todas as Províncias que lutem pela paz com os meios que estejam ao seu alcance, sejam eles redes sociais, centros sociais, instituições educacionais, paróquias ou publicações. Recordamos por último as palavras do Papa Paulo VI: “Se queremos a paz, trabalhemos pela justiça”. Essas palavras nos recordam que quando trabalhamos pela justiça pelo mundo afora, tomamos parte na luta pela paz” (CG 36, p. 71).

Uma paz que é fruto da justiça, como disse São Paulo VI! Não uma paz que é imposta após terra arrasada, sob ameaça e à base do terror. Como se sentem as mães e as avós em Gaza e no Líbano, sob a fúria incessante das armas israelenses? E as mães e avós indígenas, que estão sob o terror de fazendeiros e seus jagunços, garimpeiros e madeireiros que maculam corpos e territórios sagrados? Há alguma perspectiva de futuro para os seus filhos na destruída Gaza e no fragmentado Líbano, à beira de um colapso? Há alguma dignidade para seus rebentos, ao crescerem cercados pelo latifúndio monocultor e sob a mira de uma Polícia Militar, que age como milícia privada dos ruralistas?

Há uma correlação evidente entre a luta dos Povos Indígenas e toda a marginalização que sofrem, e a luta dos palestinos por seu território e pelo direito à autodeterminação. Todos são vítimas dos efeitos da colonização, que impregnam os sistemas políticos, jurídicos e religiosos vigentes. Relativamente ao drama da Palestina, Albanese (2026, p. 4) fala ainda em “ocupação ilegal, colonialismo de assentamento e apartheid”. Quanto às violações infligidas aos povos originários, os números indicam um cerceamento da mesma natureza, no que se refere ao direito à terra:

“De um total estimado atualmente em 1428 territórios indígenas, apenas 38,1% (436 TIs regularizadas, 87 áreas regularizadas como Reservas Indígenas e 21 terras dominiais) encontram-se com o procedimento plenamente finalizado, enquanto 884 (61,9%) territórios possuem algum nível de pendência em seu reconhecimento. Mais grave, deste conjunto, 572 territórios sequer tiveram seu procedimento iniciado (40% do total), e 180 aguardam a execução ou finalização de seus estudos de identificação ou delimitação” (Caderno, 2026, p. 19).

Como se não bastasse a dívida histórica do Brasil com as comunidades indígenas na demarcação dos seus territórios ancestrais, o Congresso Nacional trabalha para aprovar, na surdina indecente das madrugadas vazias, projetos (por exemplo, o PDL 717/24) que suspendem o reconhecimento das Terras Indígenas demarcadas e travam futuros processos já extremamente morosos. Enquanto isso, o lobby ruralista pressiona o Supremo Tribunal Federal para sacramentar novos e inconcebíveis revezes, no interminável julgamento da Tese do Marco Temporal.

Como não comparar o mesmo escárnio perverso da extrema-direita brasileira, que se regozija com o enfraquecimento das normas ambientais e trabalha diuturnamente contra os povos indígenas, com a celebração macabra no Parlamento israelense quando da aprovação da pena de morte para os prisioneiros palestinos? Trata-se de um processo de desumanização semelhante. Os indígenas e os árabes palestinos e libaneses tornam-se corpos sacrificáveis em nome dos interesses e da suposta segurança de alguns. É o mesmo discurso que massacrou milhões de indígenas nas Américas e agora embasa o genocídio na terra sagrada para as três maiores religiões monoteístas.

Como se sentem os religiosos e as religiosas, bem como os leigos e as leigas engajados que vivem e trabalham no Líbano e na Terra Santa, diante de tanta dor e violência? Como é se confrontar diariamente com cenas de destruição, fome, medo e misérias causados pela barbárie das impiedosas armas e sanguinários equipamentos militares? Como é viver com o sentimento de que os governantes mundiais e a grande mídia pouco se importam com os crimes e os abusos presenciados no cotidiano de suas vidas e missões?

A presença de missionários e missionárias junto a tais populações oprimidas é uma chama trêmula de esperança, em meio às trevas da indiferença global. Um lembrete de que ainda existem pessoas que se importam e que estão dispostas a partilhar essa dor que atravessa a alma. Não só essa Igreja marginal dos marginalizados, mas também inúmeras organizações humanitárias, como a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras, para citar apenas algumas. Faróis em um cenário de caos e morte, muitas vezes perpassados pela pura impotência. Sem cair em um espiritualismo ingênuo, vive-se uma dinâmica da Terceira Semana dos Exercícios Espirituais, a espiritualidade da Paixão:

“A cruz da Sexta-feira Santa e o silêncio de expectativa do Sábado Santo estão muitas vezes fortemente presentes entre nós. É precisamente aí que Jesus Ressuscitado vem ao nosso encontro como consolador e amigo. Nosso desejo é estender sua amizade a todos os afetados e brutalizados pelos conflitos, mesmo os que consideramos inimigos” (CG 36, p. 72).

No mesmo sentido, a missão junto aos povos originários também é uma exigente e comumente desprezada fronteira humano-espiritual. O desgaste emocional de se colocar contra o arbítrio e os desmandos de forças poderosas tem seu preço. Tristemente, não é incomum perceber que aqueles religiosos e religiosas que assumem a radicalidade da presença junto às margens precisam lidar com outras formas de marginalização interna. Afinal, deslocar-se para as periferias muda as perspectivas e as concepções.

Por isso, o primeiro gesto de quem quer realmente ser empático deveria ser escutar e conhecer tais complexas e dolorosas realidades fragmentadas. Como é importante poder escutar de superiores e demais companheiros religiosos, bispos e altas estruturas eclesiásticas, paróquias, colégios, casas de retiro e do Povo de Deus: “desejamos ter notícias de vocês, saber de suas esperanças e frustrações, discernir os melhores meios de solidarizar-nos com vocês” (CG 36, p. 70). Fundamental (re)afirmar: Estamos com vocês e vocês, cristãos que estão às margens – inseridos no coração da humanidade que sangra –, não serão esquecidos!

Como frisa a alentadora e tão atual mensagem aos jesuítas nas fronteiras da barbárie, “a luta pela justiça, pela paz e pela reconciliação” não é um mero modismo ou predileção ideológica, mas “nos remete às nossas raízes jesuíticas expressas na Fórmula do Instituto” (CG 36, p. 72). Pode soar estranho para quem conhece os jesuítas apenas pelos seus colégios e universidades, mas Santo Inácio sempre quis servidores disponíveis para ir onde outros não podem chegar. Homens em permanente tensão, inquietos e abertos ao Deus de rostos plurais que se encarna nas mais diferentes culturas e lugares. Não há que se falar, de modo simplório, de um gosto pela aventura ou pelo exótico, mas sim da fidelidade ao Cristo, amigo dos últimos e descartados.

Alguns mais resistentes poderiam dizer ter sido aquela uma mera contingência histórica, que os tempos são outros e que esses princípios devem ser “readequados”. Essa readequação, invariavelmente, implica um enfraquecimento, com inúmeras atenuações da radicalidade do primeiro chamado. Trata-se de uma tentação de toda ordem e congregação religiosa, ou seja, de perder, com o passar dos séculos, o ardor evangélico e aferrar-se às grandes e cômodas estruturas. Mas como prescindir de alguns de seus valiosos membros que devem assumir postos importantes em colégios, universidades e estruturas administrativas, para enviá-los aos confins do mundo para trabalharem em lugares empobrecidos e em difíceis conflitos?

Exatamente por isso, é corajoso e imprescindível frisar sempre que possível, que o chamado dos primeiros tempos continua atual e jamais deve ser domesticado. Em sua carta-compromisso, os jesuítas afirmaram que a primeira instrução de Inácio “foi reiterada nas últimas Congregações Gerais e é relevante – e urgente – hoje como era quando nossos Primeiros Companheiros fundaram a Companhia de Jesus” (CG 36, p. 72). Como é significativo receber esse endosso, quando todos os demais parecem se esquecer ou normalizar a excruciante dor de milhões de seres humanos, submetidos ao poder de uns poucos:

“Essa missão na fronteira da guerra e da paz é uma missão que nos toca a todos como jesuítas: noviços, escolásticos, irmãos, padres, os que estão em um ministério ativo e os já aposentados e que talvez se encontrem nas enfermarias das Províncias. Toca a todos nós, quer atuemos numa paróquia ou numa faculdade de teologia, num colégio, num centro de espiritualidade ou em qualquer outro ministério” (CG 36, p. 72).

Sim, vale a pena manter o trabalho com migrantes e refugiados, como o desenvolvido pelo Serviço Jesuíta aos Refugiados (JRS) no Líbano. Vale a pena manter uma paróquia em Gaza, com a presença valiosa de padres da Congregação do Verbo Encarnado e das Missionárias da Caridade. Vale a pena apoiar o trabalho junto aos Povos Indígenas, desenvolvido por religiosos e leigos do Conselho Indigenista Missionário (Cimi). Vale a pena estar presente na Terra Santa, apesar de todas as hostilidades e tensões que os cristãos vêm enfrentando.

Certamente, tais missões e comunidades inseridas nesses contextos conflituosos possuem muitas privações e desafios. Testemunhar o Evangelho nas margens exige renúncias e traz pouco reconhecimento. Não há glamour em conviver com comunidades indígenas massacradas pelo agronegócio ou violentadas por milícias paraestatais, muito menos em regiões bombardeadas por drones e tanques de guerra. Serão presenças apostólicas que sempre dependerão da generosidade e da partilha de recursos das comunidades e obras autossustentáveis. Isso permanecerá como um problema indigesto ou poderá ser encarado como uma oportunidade de crescer na solidariedade e consciência cristãs?  

O Papa Leão XIV destacou, na sua recém-publicada encíclica Magnifica Humanitas, que a Igreja deve cultivar com reverência e louvar a história desses mártires da periferia. Homens e mulheres desapegados e generosos na partilha de suas vidas, pelos e com os demais. Testemunhas de um bem que implica sacrifícios e prioridades, cristãos e cristãs que encarnaram a opção preferencial pelos empobrecidos e injustiçados. Sua memória não pode ser negligenciada ou abafada para agradar alguns setores privilegiados que não a aceitam, valendo-se de toda sorte de infundadas desculpas. Assim insiste o pontífice agostiniano:

“A par destes sinais públicos, existe uma trama mais oculta, mas decisiva: as comunidades religiosas que escolhem lugares pobres e perigosos; os mártires da fraternidade e da justiça, como São Maximiliano Maria Kolbe, São Óscar Romero e o Beato Enrique Angelelli, ao lado de testemunhas que encarnaram, em condições difíceis e muitas vezes desumanas, a esperança do Evangelho e a dignidade do homem, como o Venerável François-Xavier Nguyễn Văn Thuận. E, sobretudo, os “mártires do quotidiano” que cuidam, educam, acompanham e consolam sem alarde, como os pais, os enfermeiros, os médicos, os voluntários, as pessoas que permanecem ao lado dum idoso ou dum excluído. O testemunho deles mostra que o bem não acontece automaticamente, mas requer perseverança, memória, e uma conversão que nos permite recomeçar mesmo após as derrotas” [MH, 125].

É preciso perguntar-se o que fariam São Oscar Romero, Dom Luciano Mendes de Almeida e Santa Dulce dos Pobres em face do genocídio em Gaza e da invasão do Líbano? Como reagiriam o Padre João Bosco Burnier, SJ, o Irmão Vicente Cañas, SJ e a Irmã Cleusa Rody diante da destruição da Amazônia e da perseguição às comunidades indígenas? Alguém consegue imaginar que eles estariam conformados com essas situações ou distraídos com os vídeos nas redes sociais dos pseudo-influenciadores digitais católicos?

A boa notícia é que os Helder Camara e as Dorothy Stang da atualidade já estão por aí, trabalhando marginalmente nas periferias do mundo. A Igreja das Margens jamais abandonou os palestinos de Gaza e da Cisjordânia, os deslocados do Líbano, as comunidades indígenas desde os Yanomami no Norte até os Guarani Mbya no Sul. Mesmo com pouco apoio institucional, recursos financeiros que diminuem a cada dia e agentes pastorais que envelhecem, eles e elas continuam a ser amigos dos descartados e crucificados da história. Enfrentando muitas incompreensões e oposições dos próprios irmãos da comunidade religiosa, bem como perseguições de lideranças eclesiais, continuam firmes ao lado dos esquecidos pela sociedade do capital.

Provavelmente, vocês são a melhor parte de nossas milenares instituições e prestigiosas congregações religiosas. Nunca poderemos agradecer-lhes suficientemente por tanto bem feito ao Cristo desfigurado pelo ódio da guerra. O Papa Francisco tentou, ao telefonar diariamente ao pároco de Gaza, expressando seu amor e interessando-se pelo sofrimento experienciado naquela parte da Terra Santa.

E nós, cristãos, religiosos e religiosas consagrados, leigos e leigas, estamos verdadeiramente empenhados em defender a vida desses menores dos nossos irmãos? Estamos dispostos a deixar que a tensão, o incômodo e a compaixão nos desloquem dos nossos ambientes protegidos? Queremos arcar com as consequências de assumirmos o lado dos melhores amigos do Deus Marginal?

A resposta do órgão máximo da Companhia de Jesus pode soar irrealizável ou utópica demais, mas precisa virar nossa oração diária nesses tempos de aflição. Do contrário, ficaremos sempre no meio do caminho e deixaremos nossos companheiros sozinhos nas margens deste mundo, onde o Evangelho de Justiça é mais necessário. Rezemos:

“Com vocês, estamos movidos de uma compaixão, que se traduz no forte desejo de mudar as realidades dolorosas que vemos retratadas nas telas de nossas televisões e computadores. Com vocês queremos concretizar a reconciliação que Jesus Cristo deseja e de que nosso mundo necessita tão urgentemente. Com vocês, pomo-nos aos pés da Cruz, perguntando como melhor amar e servir, como atuar melhor para alcançar mudanças, como ser melhores instrumentos do Espírito de Deus para este mundo despedaçado” (CG 36, p. 73).

Assim, talvez a nossa oração possa se tornar carne e os nossos corações de pedra menos duros aos apelos do Reino da Paz. Oxalá o Senhor nos conceda a graça de juntar nossas vozes às dos nossos companheiros das Margens e aos marginalizados, por eles servidos, para denunciar os promotores de violência que continuam clamando por suas “guerras justas” e dizer: “Deus não caminha por aí, pelas poças de sangue e tortura. Deus caminha nos limpos caminhos de esperança e amor” (Romero, 2006, p. 9).

Se não pudermos ser parceiros dos missionários e das missionárias das Margens, ao menos não lhes sejamos obstáculos ao chamado do Deus que se fez Marginal. Que não queiramos lhes impor mais fardos inúteis do que os que já carregam, por sentirem com os sofredores-marginais. Se não pudermos ser tal qual Verônica ou Cirineu no calvário das feridas abertas da humanidade, não precisamos ser como os fariseus, os anciãos do Templo ou os soldados romanos.

O filho de Santo Agostinho, que agora ocupa o trono de Pedro, insiste na força do amor de pessoas que ousaram se fazer marginais com os marginais deste mundo:  

“Alguns acontecimentos ajudam a ver que a história pode mudar quando mesmo um só homem ou mulher leva realmente a sério a dignidade de todos: o movimento pelos direitos civis nos Estados Unidos da América, ligado também ao testemunho de Martin Luther King Jr., ou o fim do apartheid na África do Sul após a libertação de Nelson Mandela e a sua decisão de não entregar ao ódio o futuro. Em contextos diferentes, destacaram-se também mulheres corajosas e generosas como Santa Laura Montoya, Santa Teresa de Calcutá, Dorothy Day, Marie Skłodowska-Curie, Maria Montessori, Elisabeth Elliot, Wangari Maathai, Benazir Bhutto e muitas outras de todos os continentes, que contribuíram com o seu empenho para tornar a história mais humana” [MH, 124].

Mesmo em tempos de Trumps e Netanyahus, em que tudo o que se construiu desde o fim da Segunda Guerra Mundial parece ruir ante a impotência e inércia das demais nações, algo sempre pode ser feito. “É precisamente esta interconexão de instituições justas, testemunhos fidedignos e fidelidades quotidianas, que mantém viva a esperança e indica uma direção: permitir o crescimento da técnica sem deixar regredir o coração”, diz Leão XIV. “Por isso, a humanidade – magnífica e ferida – não deve ser substituída nem superada” [MH, 126]. O grito que protesta contra o arbítrio, o gesto para aliviar o peso da marginalização, a presença que teima em ficar, mesmo em meio ao abandono do mundo incivilizado, todos esses são verdadeiros sinais de crença na humanidade.

“Um cristão não pode permitir que o inimigo de Deus, o pecado, reine no mundo”, ensinou São Oscar Romero das Américas. “Um cristão tem que trabalhar para que o pecado seja marginalizado e o Reino de Deus estabelecido”, assevera o apóstolo de El Salvador. “Trabalhar por isso não é se envolver em política”, mas “é simplesmente o que o Evangelho requer de uma pessoa, de um cristão desses dias, mais compromisso com a história” (Romero, p. 6). O pecado, nesses tempos, tem nome: a guerra, o massacre, a violência perpetrada contra outros seres humanos e contra a Natureza, dons de Deus.

O compromisso cristão pela paz, só será verdadeiro quando buscar a justiça. Uma justiça “desarmada e desarmante” (Leão XIV), que precisa começar por garantir o direito à autodeterminação dos povos. De Gaza e do Líbano à Amazônia e aos Pampas! Ainda que nos esqueçamos de vocês, marginais das fronteiras próximas e distantes, nossos companheiros e companheiras marginais jamais se esquecerão. Tomando sobre si a sorte dos marginalizados, seguirão nos incomodando com a sua memória inapagável e com seus testemunhos visíveis do Deus escondido.

Referências

ALBANESE, Francesca. When the world sleeps: stories, words and wounds of Palestine. Melbourne: Hardie Grant, 2026.

CONGREGAÇÃO Geral 36. São Paulo: Edições Loyola, 2017.

CADERNO Terras Indígenas no Brasil: direitos territoriais, demandas por demarcação e pendências administrativas - 2025. Conselho Indigenista Missionário: Brasília, 2026.

ROMERO, Oscar. Through the year with Oscar Romero: daily meditations. Londres: Darton, Longman and Todd, CAFOD e Christian Aid, 2006.

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