07 Julho 2026
O início do segundo governo Trump foi marcado por uma imagem que persiste no imaginário coletivo: a ascensão dos barões do Vale do Silício aos mais altos círculos do poder. Não é que antes eles não estivessem lá, é que agora estão decididos a expandir seu poderio estabelecendo laços estreitos com a política. Uma nova oligarquia. A tecnologia que oferecem aos objetivos do governo americano se tornou uma peça indispensável, e o maior expoente disso é a Palantir, a empresa de vigilância e inteligência fundada pelo magnata tecnológico Peter Thiel, que financia o trumpismo desde seus primórdios.
A informação é de Franco Delle Donne, publicada por El Diario, 04-07-2026.
Diante desse cenário, explodiu a insurreição dentro do próprio movimento MAGA. As bases, aquelas que possibilitaram a chegada de Donald Trump ao poder em duas ocasiões e que defendem seu presidente com unhas e dentes, levantaram a voz: "Os Estados Unidos não se tornaram a maior nação do mundo permitindo que elites não eleitas façam experimentos com a população sem garantias nem obrigação de prestar contas". Este é um trecho da carta da coalizão Humans First, liderada por Steve Bannon, dirigida a Trump. Trata-se de um aviso do setor mais leal e, ao mesmo tempo, mais radicalizado, que já tem nome próprio: o populismo tecnonegativo.
Ambos os setores reivindicam para si a narrativa do "America First", embora suas definições sejam muito diferentes. Qual deles Trump vai priorizar? Vai tomar partido de algum dos lados ou manterá um equilíbrio pragmático entre os oligarcas que lhe garantem preeminência global em termos de hard power e o núcleo duro de sua base eleitoral que o legitima na política doméstica? O movimento MAGA está diante de um cisma.
A origem da insurreição
Em 15 de janeiro de 2026, o representante republicano de Oklahoma, Cody Maynard, propôs três leis desenhadas para estabelecer limites legais à inteligência artificial. O mais relevante: proibia as agências estatais de tomar decisões críticas baseadas unicamente em IA. A revisão humana, segundo seu texto, deveria ser obrigatória e ter a última palavra. Além disso, determinava que uma IA não poderia ter personalidade de nenhum tipo, e eliminava o uso de chatbots com menores de idade, essencialmente aqueles desenhados para simular relações humanas ou fomentar a dependência emocional. Não era um caso isolado. Era a semente do que se tornaria o Humans First.
Antes que o conflito se tornasse visível, o movimento Humans First já havia passado de uma ideia a uma campanha organizada. Seu site o apresentava como um movimento conservador, nacionalista e cristão que buscava que a tecnologia servisse à gente comum. Durante março e abril de 2026, organizaram assembleias públicas em diferentes estados: a fase de ativação territorial havia começado, e sua narrativa política atraía as bases do trumpismo original.
Steve Bannon, ex-assessor de Trump durante sua primeira campanha eleitoral e brevemente durante sua primeira presidência, não demorou a abraçar a causa. Visualizou o potencial do conceito desde o início e foi favorecido pela presença de um velho conhecido entre os fundadores: Joe Allen, que havia sido correspondente do War Room durante cinco anos. O movimento tinha DNA de Bannon desde sua origem, e chegava a fase de sua nacionalização.
O mencionado War Room, seu podcast diário com quase 7 mil episódios e presença em todas as plataformas, se converteu na tribuna do movimento. A mensagem era simples e, ao mesmo tempo, eficaz: era impossível avançar rumo ao objetivo histórico do trumpismo, sintetizado na frase "America First", se a gente fosse ignorada, ou seja, a verdadeira América. E era exatamente isso que aconteceria se o governo Trump priorizasse os interesses de um punhado de tecnoentusiastas bilionários acima dos trabalhadores que o haviam levado ao poder.
Tratava-se de uma questão moral que defendia o humano diante da máquina. O Humans First deixava de ser uma campanha de controle tecnológico para se transformar em um ramo ideológico do trumpismo que tentava unir soberania nacional, conservadorismo religioso e crítica ao poder digital.
Tratava-se de uma investida do núcleo duro do MAGA contra o aliado mais importante de Trump nesta segunda presidência. No quadro populista característico do trumpismo de base, o discurso redefinia a elite corrupta contra a qual lutar. Agora eram os oligarcas das big techs que colocavam em risco os trabalhadores e seu bem-estar. Os números que o próprio Bannon manejava eram fornecidos pela HFS Research: 27 milhões de empregos em perigo dentro das 2 mil maiores empresas. Todos expostos à eliminação ou reformulação pela IA em apenas três anos.
As exigências do bloco insurgente se cristalizaram na publicação de uma Carta Aberta a Trump em 15 de maio de 2026. Demandavam um decreto presidencial para evitar que sistemas de IA pudessem "ameaçar nossa segurança nacional, nossos filhos, os trabalhadores americanos e o estilo de vida americano".
Mais de 60 referências conservadoras assinaram a carta, com Bannon à frente, entre eles pastores evangélicos e líderes do nacionalismo cristão. Sua presença não era decorativa, mas convertia a regulação da IA em algo mais do que uma disputa técnica ou trabalhista. Tratava-se de uma questão moral que defendia o humano diante da máquina. A carta era um grito de guerra contra outro modelo de país em pleno avanço: a república tecnológica da Palantir.
O manifesto da Palantir
"A questão não é se armas de IA serão construídas; é quem as construirá e com qual propósito. Nossos adversários não vão parar para se permitir debates teatrais sobre os méritos de desenvolver tecnologias com aplicações críticas para a defesa... Eles vão seguir em frente". O ponto cinco do Manifesto da Palantir é contundente, e qualquer regulação só desembocaria numa espécie de desarmamento unilateral diante das potências inimigas.
Nessa lógica se sustenta toda a proposta de Alex Karp, CEO da Palantir. O que se propõe é uma fusão simbiótica entre o Estado e a corporação para estar à altura do novo hard power que rege o mundo atual. É, em definitivo, a versão Palantir do "America First".
O manifesto não foi mais do que uma publicação na rede social X que viralizou em abril de 2026. Seu conteúdo provém de um livro publicado meses antes, intitulado The Technological Republic: hard power, soft belief, and the future of the west. Essas ideias sublinham eixos geopolíticos como a segurança, a guerra ou a capacidade de dominação. Um cesarismo tecnológico do qual, segundo Karp, depende a sobrevivência da nação. Aí está a fratura com o resto do MAGA. O movimento de Bannon opera sob outras coordenadas: nação, religião, tradição, base popular.
"America First"?
Ambos os lados jogaram suas cartas em público. Os dois invocam a grandeza da nação, mas seus objetivos não têm nada em comum. Trump manteve até agora um equilíbrio pragmático, sem emitir um veredito. A questão é por quanto tempo mais.
Se o Humans First se impuser, o risco não é apenas político. Uma burocracia regulatória pesada poderia frear a inovação justo quando a corrida tecnológica contra a China não admite pausas. Ou pelo menos esse é o argumento de Karp, e é o que tem mais peso na Casa Branca. Embora também seja verdade que na mira do CEO também está o suculento butim que representam as licitações estatais, e as que poderiam vir. Em 2025, os contratos federais da Palantir quase dobraram, beirando 1 bilhão de dólares, com projeções de mais de 7 bilhões para 2026.
Do lado da política, perder esse músculo tecnológico tem um custo. E Trump sabe disso. Mas se quem dita o rumo da Casa Branca é a Palantir, o risco é o oposto: um leviatã da vigilância que, em nome da segurança nacional, se torna imune à prestação de contas. Assim, um Estado cujo aparato de inteligência terminaria sendo gerido por particulares que não respondem perante o eleitor. O cesarismo tecnológico que Karp descreve como solução poderia ser exatamente o problema: a destruição da democracia, dos direitos e das garantias.
O cisma tem uma lógica que Trump não pode ignorar indefinidamente
O que começou como uma disputa sobre regulação tecnológica derivou em algo mais profundo: uma guerra civil dentro do movimento que ergueu Donald Trump. De um lado, o aristopopulismo da Palantir: a promessa de que a oligarquia tecnológica e as classes populares têm os mesmos interesses, que o hard power do século XXI beneficiará tanto o trabalhador quanto o engenheiro do Vale do Silício. Do outro, o populismo tecnonegativo de Bannon: a convicção de que a máquina é o novo inimigo de classe e que nenhuma promessa de grandeza nacional justifica entregar o futuro a elites não eleitas.
O cisma tem uma lógica que Trump não pode ignorar indefinidamente. Cada contrato que assina com a Palantir é munição para Bannon. Cada regulação que concede ao Humans First é um sinal de fraqueza diante de seus financiadores. O equilíbrio pragmático que manteve até agora tem data de validade. A questão não é se o movimento MAGA sobreviverá a este conflito. A questão é o que restará dele quando terminar.
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