04 Julho 2026
As portas da Igreja "nunca se fecham" definitivamente. "A ruptura em relação à sucessão apostólica é extremamente grave; contudo, o estilo evangélico é, de qualquer forma, aquele do Bom Pastor: buscar recuperar até a última ovelha perdida", afirma o Padre Giulio Albanese, conselheiro da Secretaria de Estado do Vaticano, missionário comboniano e diretor de Cooperação do Vicariato de Roma. E acrescenta: "Também em 1998, a notificação de excomunhão foi imediatamente acompanhada pela criação, por parte de João Paulo II, da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, para promover a plena comunhão com a Igreja Católica dos sacerdotes, seminaristas e fiéis ligados a Marcel Lefebvre e à Fraternidade São Pio X, justamente em consequência das consagrações episcopais ilícitas ocorridas em Écône. A história se repete hoje, e o desejo de Leão de sanar a ruptura repete aquele de Karol Wojtyła em 1988. O diálogo pode ser retomado e uma solução encontrada".
A entrevista é de Giacomo Galeazzi, publicado por La Stampa, 02-07-2026. A tradução de Luisa Rabolini.
Eis a entrevista.
O que comporta a crise?
O ato cometido pelos lefebvrianos não pode ser lido apenas como uma desobediência disciplinar; ele revela uma dificuldade mais profunda: a incapacidade de acolher o significado eclesiológico do Concílio Vaticano II. Não está em jogo simplesmente uma questão de rito, de sensibilidade litúrgica ou de saudosismo histórico, mas uma diferente compreensão da Igreja. A gravidade do acontecido não pode ser minimizada agora.
Onde a ruptura se aprofunda?
O Concílio Vaticano II convidou a Igreja a redescobrir-se como mistério de comunhão, Povo de Deus em caminho na história, sacramento universal de salvação e realidade chamada a dialogar com o mundo sem renunciar ao Evangelho. Essa visão não anula a tradição, mas a compreende como realidade viva, guardada pelo Espírito e transmitida no seio da comunhão eclesial. A negação lefebvriana, por outro lado, parece se manter ancorada em um modelo estritamente pré-conciliar.
Do que depende hoje?
De uma eclesiologia predominantemente defensiva, exclusiva, marcada pelo medo da modernidade e pela tendência de identificar a fidelidade à tradição com a preservação estática de formas históricas do passado. Nessa perspectiva, a Igreja corre o risco de ser pensada como uma cidadela sitiada, mais que como uma mãe e mestra chamada a anunciar Cristo a todos os povos. É por isso que a consagração de bispos sem mandato pontifício não é apenas uma ruptura jurídica; é uma ferida infligida à comunhão.
Por que é uma ruptura?
Um bispo não é bispo por iniciativa privada ou por filiação a um grupo, mas sim no âmbito da sucessão apostólica vivida em comunhão com o sucessor de Pedro e com o colégio episcopal. Separar o episcopado da comunhão eclesial significa despojá-lo de seu sentido católico. Por trás desse gesto, portanto, está uma compreensão reduzida da tradição: não como vida da Igreja guiada pelo Espírito, mas como fixação de uma época considerada normativa. Os caminhos existem.
O Concílio é a solução?
O Vaticano II ensinou que a fidelidade autêntica não consiste em repetir simplesmente o passado, mas em salvaguardar o único depósito da fé, tornando-o inteligível e fecundo no tempo presente. A verdadeira obediência eclesial não é submissão formal a uma autoridade externa, mas adesão à Igreja como lugar concreto onde Cristo continua a guiar o seu povo. Onde essa comunhão está sendo rejeitada, inclusive em nome de uma tradição que corre o risco de ser transformada em ideologia. No entanto, a unidade eclesial pode ser restaurada.
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