Vamos preservar a esperança: uma forma de habitar o mundo. Artigo de Giulio Albanese

Foto: Jr. Korpa / Unsplash

Mais Lidos

  • “O agronegócio é hegemônico na mídia, no interior do Estado brasileiro e em toda a sua estrutura. Também é hegemônico no governo”. Entrevista com Joao Pedro Stedile

    LER MAIS
  • "Abusos contra os palestinos": a guerra de estupros entre Israel e o Hamas

    LER MAIS
  • A corrupção naturalizada, enfim desmascarada: o Banco Master. Artigo de Leonardo Boff

    LER MAIS

Revista ihu on-line

Natal. A poesia mística do Menino Deus no Brasil profundo

Edição: 558

Leia mais

O veneno automático e infinito do ódio e suas atualizações no século XXI

Edição: 557

Leia mais

Um caleidoscópio chamado Rio Grande do Sul

Edição: 556

Leia mais

19 Mai 2026

A esperança, especialmente quando cultivada em um contexto de reflexão sobre a geopolítica contemporânea, não pode ser reduzida a um sentimento vago ou a uma simples atitude positiva. Em vez disso, é uma escolha intelectual e espiritual, uma visão de mundo que se confronta com a realidade sem negá-la, mas também sem absolutizá-la.

O artigo é de Giulio Albanese, missionário comboniano fundador da Agência Misna, publicado por Avvenire, 16-05-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Eis o artigo. 

Vivemos em uma época marcada por profundas fraturas: guerras que se reacendem em diferentes áreas do planeta, desigualdades econômicas cada vez mais acentuadas, crises ambientais que ameaçam a habitabilidade de regiões inteiras e migrações que desafiam tanto as consciências pessoais quanto as responsabilidades políticas dos Estados. Uma interpretação puramente geopolítica dessas realidades poderia facilmente levar ao pessimismo ou à resignação.

Precisamente nesse cenário, porém, abre-se o espaço para uma compreensão mais profunda: uma perspectiva que poderíamos chamar de "geoteológica", capaz de ler as feridas da história não apenas como crises políticas, mas como lugares onde se mede a responsabilidade do ser humano perante Deus.

Essa perspectiva não visa simplificar a realidade. Pelo contrário, leva-a a sério em toda a sua complexidade. A Terra não é apenas um espaço neutro de competição entre potências, mas um lugar habitado por pessoas, histórias, culturas e sofrimentos reais. Todo mapa geopolítico, lido em sua totalidade, é também um mapa humano, composto de rostos e vidas concretas. E é precisamente por essa razão que qualquer análise que se limite apenas às relações de poder corre o risco de permanecer incompleta.

A esperança nasce quando rejeitamos a ideia de que a história é determinada unicamente por lógicas inevitáveis de poder. Não porque essas lógicas não existam, mas porque não esgotam o significado da realidade. Dentro de todo sistema, mesmo o mais rígido, existem interstícios de liberdade, espaços de decisão, possibilidades de mudança. A história humana não é um mecanismo fechado, mas um processo aberto.

Nesse sentido, a esperança nunca é ingênua: é uma forma de lucidez. Significa receber o mal sem considerá-lo definitivo, interpretar as crises sem transformá-las em destino e, sobretudo, manter viva a convicção de que a ação humana ainda pode ter relevância, mesmo quando as condições parecem desfavoráveis. Existe um elemento fundamental nessa visão: o valor das periferias, não apenas geográficas, mas também sociais e existenciais. Muitas vezes é justamente nas margens que emergem formas inesperadas de resistência, solidariedade e reconstrução do tecido humano. A esperança não nasce necessariamente nos centros de poder, mas naqueles lugares onde a vida é mais exposta e, justamente por isso, mais criativa. Nessa perspectiva, a esperança não é uma ideia abstrata, mas uma prática concreta. Ela se expressa na capacidade de construir relações onde a desconfiança domina, de promover a justiça onde a injustiça prevalece, de manter o diálogo aberto onde o fechamento identitário seria mais fácil. É uma esperança que se traduz em responsabilidade.

Uma responsabilidade que também diz respeito àqueles que observam o mundo a partir de uma perspectiva de estudo, de análise ou de formação. A geopolítica nunca é neutra: a forma como lemos o mundo influencia a forma como escolhemos habitá-lo. Uma leitura desencantada não deve resvalar para o cinismo; pelo contrário, pode tornar-se mais exigente, mais atenta, mais consciente.

A esperança, nessa perspectiva, não elimina o conflito, mas o atravessa sem ser esmagada por ele.

Não nega as tensões globais, mas recusa-se a considerá-las a palavra final da história. É a consciência de que o futuro não é simplesmente a continuação do presente, mas um espaço ainda por construir.

Este é, portanto, o desafio mais importante: aprender a ler o mundo interpretando os sinais dos tempos à luz da Palavra de Deus, sem perder a capacidade de vislumbrar, nas suas contradições, a possibilidade de um futuro diferente. Porque a história humana, apesar de tudo, continua a ser um livro aberto. Para todos!

Leia mais