Após o Cisma: A Tradição Viva (Parte 1). Qual a distância entre Ecône e Roma? O Cisma e o Decreto de Censura considerados em termos temporais. Artigo de Andrea Grillo

Padre Michael Mary | Foto: Redentoristas Transalpinos (imagem de arquivo)/Katholisch

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21 Julho 2026

"Cisma, na definição jurídica, é isso e somente isso. É uma questão de poder, que certamente manifesta muito mais do que isso, mas que se reduz a uma questão de exercício da jurisdição. Esse modo de pensar a realidade eclesial e os delitos que a ferem está completamente fora do tempo: compartilha, com os lefebvrianos, a falta de história e de consciência", escreve Andrea Grillo, teólogo, em artigo publicado por Come se non, 02-07-2026.

Eis o artigo. 

Este é o primeiro de uma série de artigos do autor intitulada "Depois do cisma: a tradição viva".

Se você perguntar a um programa de gestão de viagens a distância espacial entre Roma e Écône, a resposta é 817 km. Obviamente, não há programas ou aplicativos que possam responder à pergunta sobre qual é a distância "temporal" entre Roma e Écône. Mas essa resposta seria bastante interessante. E talvez a resposta pudesse ser diferente se se considerasse apenas a cerimônia de "ordenação" de 1º de julho, e se, em seguida, nos ocupássemos dos dois documentos publicados nesta manhã, em 2 de julho, pelo Dicastério para a Doutrina da Fé. Tentemos nos deter um pouco sobre a dificuldade de datar, no tempo, não apenas o ato dos lefebvrianos, mas também a resposta oficial da Cúria romana.

A fixação em 1864

Não há dúvida de que, se lermos a Profissão de fé católica difundida pela FSSPX alguns dias antes de 1º de julho, não é difícil compreender que aquela comunidade se deteve no Sílabo de Pio IX, em 1864, e lê tudo o que veio depois como uma traição ao verdadeiro catolicismo. Em relação àquele texto, é evidente como já os textos de Pio X e de Pio XII, para não falar do Concílio Vaticano II e de grande parte do magistério pós-conciliar, são apenas a história de um engano e de uma errante perda de identidade. Se você se convence de que a verdadeira Igreja é a de Pio IX, é difícil que possa dialogar com a cultura do século XX e do novo milênio. De fato, em relação àquela profissão de fé e à cerimônia que a selou na lógica do cisma, devemos dizer, junto ao Papa Leão: "Nós devemos seguir em frente."

Se, porém, nos detemos no decreto de excomunhão e na nota explicativa que o acompanha, então não é tão fácil fornecer uma diferença de datação tão certa.

Deve-se dizer, de fato, que a tradição moderna do catolicismo, na esteira da preciosa elaboração medieval, se organizou com uma ordenação da jurisdição por Congregações que remonta ao século XVI. Recentemente mudou o nome, passaram a se chamar Dicastérios, mas não mudou o procedimento e tampouco a linguagem. O Dicastério que fala em 2026, e que se pronuncia sobre a atuação da FSSPX, usa as categorias penais e as formas disciplinares de 500 anos atrás. O risco é confundir o catolicismo com essas formas modernas de jurisdição. No entanto, isso é, sob certos aspectos, também um bem: de fato, se a FSSPX é um evidente fenômeno "tardo-moderno", ligado à incompreensão da tradição, que é paralisada e congelada em formas imutáveis e museais — ou seja, o tradicionalismo em sentido técnico, como substituição da tradição por um fantoche —, a resposta de Roma ocorre num registro mais antigo, mas igualmente moderno, que reduz toda a questão a um delito muito simples: o cisma é, de fato, "não observar a subordinação ao papa", que no caso específico significa proceder à nomeação de bispos sem mandato papal. A coisa é certamente grave, do ponto de vista institucional, mas devemos perguntar: por que o papa é contrário a essas ordenações? Apenas porque se sente "ultrapassado"? A questão formal não é decisiva, senão no plano jurídico, como é inevitável. Mas no plano substancial, onde está a questão? Disso, no fundo, nada foi dito.

O que significa "seguiremos em frente"?

Se diante dos lefebvrianos dizemos justamente com o papa Leão "seguiremos em frente", devemos fazê-lo de verdade. A pergunta que deve ser formulada, em toda a sua urgência, é a seguinte: em que sentido é inaceitável uma seita que quer deter-se na história em 1864, se a Igreja de Roma, para censurar essa opção, usa a linguagem e as categorias de 1864?

Aqui nos encontramos, de fato, no centro da questão.

Para simplificar, às vezes se diz: os lefebvrianos são "pré-conciliares", ou seja, não aceitam o Concílio Vaticano II. Em contrapartida, a Igreja de Roma é conciliar, ou seja, determinada de modo significativo pelos 16 documentos aprovados pelo CV2. Bem. Se o Concílio foi, antes de tudo, um evento linguístico, é evidente que, para permanecer em sua tradição, não se pode falar uma linguagem que poderia ter sido escrita e dita um século antes do Concílio. Eis um grande mérito do que ontem se consumou: colocar diante de todos os católicos a evidência de um cisma, mas também a inadimplência linguística e institucional da Igreja romana. Se é verdade que conseguimos ver o erro cometido pela FSSPX — e isso é certamente um dado positivo —, é igualmente verdade que não conseguimos dizer, com a mesma autoridade, o verdadeiro motivo da condenação. Mas isso não está claro para uma parte não irrelevante da Igreja romana: que a liberdade de consciência, a participação ativa na liturgia, a estrutura comunional da Igreja, a relação com os sinais dos tempos seja constitutiva do catolicismo, pelo menos há 60 anos, não aparece em nada nos dois pronunciamentos desta manhã, que falam apenas de "delito de cisma" e de "consequências sobre presbíteros e fiéis". Parece um ato de "administração moderna normal", que não consegue tematizar a questão verdadeira, por carência de categorias. No "sistema", não está previsto nada além desse ato formal.

Paradoxos e crises de crescimento

Aos lefebvrianos parece que tudo pode ser perdoado: que neguem a identidade livre de cada sujeito, que assumam como "pecado" toda história diferente da dos católicos, que condenem toda religião diferente do catolicismo como perversão, que não compreendam o bem que veio à Igreja também do mundo tardo-moderno. A única coisa imperdoável parece ser o fato de não aceitarem a submissão ao Soberano Pontífice.

Cisma, na definição jurídica, é isso e somente isso. É uma questão de poder, que certamente manifesta muito mais do que isso, mas que se reduz a uma questão de exercício da jurisdição. Esse modo de pensar a realidade eclesial e os delitos que a ferem está completamente fora do tempo: compartilha, com os lefebvrianos, a falta de história e de consciência.

De fato, sobre todo o resto parece que não há problemas. Talvez isso seja inevitável, dada a impostação moderna da Cúria romana. Talvez, porém, como escrevem alguns, será inevitável que se passe do cisma à contestação da heresia: ou seja, que se passe de questões formais, ainda que não secundárias, a questões substanciais. Só assim aparecerá verdadeiramente a distância temporal de Écône em relação a Roma. Aparecerão como erros irremediáveis todas aquelas afirmações que, nos últimos 20 anos, alguns, na Cúria romana, pensaram poder "domesticar", chegando a cogitar uma espécie de redução do Vaticano II a alguns princípios não negociáveis, deixando todos livres sobre o resto (entre os quais, por exemplo, a reforma litúrgica). O jogo por baixo, que se jogou por vinte anos em alguns setores da Cúria romana, agora se torna um ponto muito embaraçoso, que se pode tentar esconder, deixando o conflito entre Écône e Roma no plano formal, como se se tratasse apenas de um grave caso de insubordinação: se não tivessem ordenado aqueles 4 bispos, tudo estaria bem…

Essa passagem substancial, que obriga todos a tomar posição, será agora inevitável, também para fazer amadurecer uma diferença menos formal entre Roma e Écône. Para que não se caia mais na armadilha de condenar uma seita que fala com as palavras de 1864, fazendo uso de uma terminologia atrasada 150 anos. Para que fique mais claro o que significa para Roma "seguiremos em frente": a partir do Decreto e da Nota explicativa desta manhã, o nó central não se compreende onde esteja: talvez não devesse ser compreendido, ou talvez ainda não se tenha querido que se tornasse completamente claro. Mas não tardará a se manifestar. Desde que também os pastores e os teólogos não fiquem a assistir ao espetáculo, como se não lhes dissesse respeito.

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