Fernando Pessoa e o exercício de ver. Artigo de Faustino Teixeira

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18 Julho 2026

"O poeta Caeiro apresenta-nos um Jesus profundamente humano, enraizado na dinâmica terrenal, distante do Jesus que foi metaficizado pela cristologia helenizante. É o Jesus que habita a nossa aldeia e que sua 'divindade' desborda da sua profunda humanidade", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de ForaUFJF e colaborador do Instituto Humanitas UnisinosIHU

Eis o artigo.

Fernando Pessoa é um dos maiores nomes da literatura universal. Ele nasceu em Lisboa, em setembro de 1887, e faleceu no final de 1935. Viveu num período marcado por grande crise na civilização europeia. Ele, como português, viveu na pele essa experiência de “decadência de um tempo”. Havia na sociedade portuguesa de então o “sentimento de uma falta de perspectivas políticas e econômicas, de estagnação e mediocridade em todos os campos" (PESSOA, 2023, p. 624) [1]. O poeta português vivia sob o influxo de pensadores como Nietzsche e Sigmund Freud, que captavam como poucos o clima de “mal-estar” que acompanhou o evento da Primeira Guerra Mundial, num tempo de desemprego e fome, que acabou contribuindo para a gestação do fascismo. Como indicou Leyla Perrone-Moysés, esse clima de incerteza foi igualmente favorável para a irrupção da heteronímia de Pessoa.

Esse poeta português tem o dom e o carisma de “capturar” o leitor com todo o seu potencial de sedução. Não se entra impunemente no mundo de Pessoa. A leitura de sua poesia tem um poder único de atração, que embriaga o leitor e abre horizontes inusitados para a reflexão. Adentrar-se nesse mundo poético é também um risco, como adverte José Gil, um de seus grandes estudiosos: “Entrar em Pessoa é um perigo: eventualmente não mais de lá se sai”. A convivência com sua poesia e prosa provocam no leitor sentimentos diversificados, envolvendo “amor e ódio, exasperação, paixão, sufoco, admiração sem fim, e novamente claustrofobia, hostilidade” (GIL, 2010, p. 9).

Algo que impressiona na produção de Pessoa, é a pletora de reflexões produzidas por ele, que foram sendo guardadas em seu famoso baú. Foram mais de 25 mil papéis deixados para a posteridade, cuja grande maioria está guardada na Biblioteca Nacional de Portugal. Era um escritor prolixo e vulcânico:

“Quando as palavras começavam a fluir, usava qualquer tipo de papel que estivesse à mão – folhas soltas, cadernos, papéis timbrados dos cafés que frequentava, páginas arrancadas de agendas ou calendários, o verso de histórias em quadrinhos e folhetos, capas de livros, cartões de visita, envelopes e as margens de manuscritos redigidos dias ou anos antes” (ZENITH, 2022, p. 27).

Foram décadas de produção diversificada, reunidas em seu baú de madeira. Dali nasceram um campo caleidoscópico, que se traduziram em muitos poemas, contos, ficção policial, peças de teatro, tratados filosóficos, sociológicos e estudos linguísticos. Ali naquele baú estavam presentes as dezenas de alter-egos que delinearam a personalidade múltipla de Fernando Pessoa.

Álvaro de Campos, num de seus poemas, assinala o traço de sua múltipla personalidade: “Quanto mais personalidades eu tiver (...) mais possuirei a existência total do universo” (CAMPOS, 2007, p. 224). É como se o próprio eu se dissolvesse para habitar o outro: “O Eu não é já um sujeito, mas um puro plano em que pode surgir qualquer mundo, qualquer realidade, brotando num fluxo intensivo” (GIL, 2010, p. 23). Nesse eu-múltiplo o que predomina é o acolhimento de muitas sensações, uma “sinfonia de sensações”, como indicou Álvaro de Campos. E a vida, com a sua riqueza flutuante e plural, encontra espaço de acolhida e atua como maieuta do humano (CAMPOS, 2007, p. 131).

No universo de Pessoa, a heteronomia pontua uma dinâmica de “produção de multiplicidades”, de um eu que se prolifera e capta as dimensões do tempo. O heterônimo “não tem uma identidade fixa, mas apenas um 'contorno' cheio de virtualidades: tem o poder de viajar, à sua maneira, nas sensações” (GIL, 1999, p. 61). Num dos fragmentos do Livro do Desassossego, Pessoa sublinha: “Cada vez que viajo, viajo imenso (...). Criei em mim várias personalidades. Crio personalidades constantemente” (PESSOA, 2023, p. 312).

Há em Pessoa uma singular “riqueza emocional” que se disponibiliza a captar o canto das coisas:

É apenas, como ele próprio diz, 'um profissional da literatura', que se atribui a tarefa de fazer sentir de todas as maneiras, de restituir o mundo como mundo infinitamente vibrátil, em estado nascente: da sensação mais minúscula e insignificante até 'Hegel', até ao binômio de Newton ou até 'Deus', de tudo fará um feixe de emoções, quer dizer, um 'mistério'” (GIL, 2020, p. 117).

Pessoa dizia que uma das formas de viver sensações novas é construir uma alma nova. E nesse processo de delineamento da identidade, a busca religiosa esteve sempre presente. O seu interesse pelas coisas sobrenaturais nasce já na adolescência e vai se firmando ao longo de sua juventude e maturidade. A astrologia ganhou um espaço bem importante na sua vida, e ele se aperfeiçoou no trabalho de tessitura de mapas astrológicos de seus heterônimos e outras figuras do tempo. Dentre seus inúmeros heterônimos, havia um astrólogo: Raphael Baldaya. Além da astrologia, estudou também teosofia, escrita mediúnica, ocultismo, maçonaria, cabala e rosacrucismo, bem como leituras em torno de filosofia e religião (ZENITH, 2022, p. 493 e 34). Era alguém profundamente sensibilidade com o mundo espiritual.

Em sua obra em prosa, Pessoa dedicou um espaço definido para apresentar seus heterônimos, ou alter-egos, que ganharam em sua pena uma vida histórica concreta, com data de nascimento e morte. Vinha, assim, habitado por essas “vidas alheias”. Dizia: “Sinto-me múltiplo” (PESSOA, 1986, p. 81). O primeiro heterônimo criado por Pessoa foi Alberto Caeiro. Não era alguém de formação letrada, mas tinha uma viva inclinação filosófica. Sua vida era de alguém simples, que vivia numa casinha branca no campo e escrevia poemas livres celebrando a beleza das coisas.

Um dos mais singelos poemas de Caeiro é o Guardador de Rebanhos, cujos primeiros versos apareceram em 4 de março de 1914. Logo em seguida, no dia 08, ocorreu um grande momento epifânico, onde outros versos do poema brotaram de forma surpreendente, num fluxo de inspiração reveladora. Esse dia vem reconhecido como um episódio triunfal. Segundo o relato de pessoa, ele acercou-se de sua cômoda e, em pé, começou a escrever freneticamente várias passagens do poema, “numa espécie de êxtase” cuja natureza ele mesmo não conseguiu definir (PESSOA, 1986, p. 96; BERARDINELLI, 2004, p. 143).

Em passagem das mais célebres do poema, Caeiro narra um sonho que teve, em que o menino Jesus tinha fugido do céu e descido para a sua aldeia. Insatisfeito com a seriedade do céu, a criança buscou hospedagem entre os humanos. E o poeta relata que a partir de então, a criança passou a habitar em sua aldeia, e a ele ela ensinou tudo, sobretudo a olhar para as coisas. Não é uma criança qualquer, mas “a Eterna Criança, o deus que faltava”. Esse sim, “o menino Jesus verdadeiro”, a criança que de tão humana revela-se divina; que com uma das mãos liga-se ao poeta, e com a outra abraça a tudo o que existe. E o poeta descreve a singularidade dessa criança:

É uma criança bonita de riso e natural.

Limpa o nariz ao braço direito,

Chapinha nas poças de água,

Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.

Atira pedra aos burros,

Rouba a fruta dos pomares

E foge a chorar e a gritar aos cães (...).

Corre atrás das raparigas

Que vão em ranchos pelas estradas

Com as bilhas às cabeças

E levanta-lhes as saias” (PESSOA, 2022b, p. 30).

O poeta Caeiro apresenta-nos um Jesus profundamente humano, enraizado na dinâmica terrenal, distante do Jesus que foi metaficizado pela cristologia helenizante. É o Jesus que habita a nossa aldeia e que sua “divindade” desborda da sua profunda humanidade.

O traço que define a poesia de Caeiro é o exercício do ver e a exaltação da natureza. Ele é o mais “puro” e singelo dos heterônimos de Pessoa. É aquele dotado naturalmente com a ciência do ver e do sentir. Como apontou Gil, Caeiro é alguém tocado por uma sabedoria que dispensa qualquer metafísica; alguém que passou pelo aprendizado de “desaprender” para estar diante das coisas nuas, em sua pura singularidade (GIL, 2014, p. 13-15). O misticismo de Caeiro é todo tecido pela corporalidade, de uma alma traçada pela simplicidade, que “não pensa”: “O meu misticismo é não querer saber. É viver e não pensar nisso” (PESSOA, 2022b, p. 56). O poeta não tem filosofia, mas apenas sentidos (PESSOA, 2022b, p. 20).

Caeiro é o poeta que canta a natureza. Sua única preocupação é ver, sem avançar no pensamento. Simplesmente perceber o que há de singelo nas coisas: “A borboleta é apenas borboleta e a flor é apenas flor” (PESSOA, 2022b, p. 224), sem mais delongas; assim como “os rios não são senão rios” e as flores “apenas flores” (PESSOA, 2022b, p. 54). Despido de qualquer aprendizado, o poeta busca beber a matriz essencial naquilo que vê, e apenas deseja sentir a natureza. Para ele, “só a natureza é divina”:

Mas se Deus é as árvores e as flores

E os montes e o luar e o sol,

Para que lhe chamo eu Deus?

Chamo-lhe flor e árvores e montes e sol e luar” (PESSOA, 2022b, p. 25-26).

Como argumentou José Gil, ao descrever Caeiro, ele é um poeta que se define pela prioridade dada aos sentidos:

O que é, então, sentir positivamente a natureza? É sentir com os sentidos e não sentir senão com eles. É preciso ver, e nunca enxertar pensamento no que se vê – eis o que Caeiro repete incansavelmente. O pensamento ou a consciência introduzem elementos estranhos no percebido, fazendo-nos crer que uma nuvem ou vento podem trazer a tristeza ou a alegria; mas o vento é apenas vento, e a tristeza não é uma coisa” (GIL, 2020, p. 119).

Há uma grande afinidade entre os poemas de Caeiro e a filosofia zen budista, como mostrou com pertinência Benedito Nunes e Leyla Perrone-Moisés. Ambos comungam de uma “visão direta do mundo” e o impulso essencial de voltar à “inocência do olhar” (NUNES, 1969, p. 220-221; PERRONE-MOISÉS, 1982, p. 117). Em mote definido de forma muito feliz por José Miguel Wisnik, a poesia de Caeiro poderia ser sintetizada numa expressão: “Isto é isto”.

Outro clássico heterônimo de Pessoa foi Ricardo Reis, que tinha traços de sintonia com Caeiro, mas se diferenciava pela assunção de um neopaganismo com toques de epicurismo e estoicismo. Toda a sua poesia é um elogio do presente. É alguém que se dá conta com muito realismo de que a vida é marcada por efemeridade, que tudo é passageiro e impermanente. Toda a sua reflexão vai no sentido da aceitação dos limites da vida e do fluir do tempo. O seu mote é: “Tudo nisto”. Algo bem na linha do que assinalava Rilke em sua segunda elegia de Duíno: “Tal o orvalho da manhã e o calor do alimento, o que é nosso flutua e desaparece”. Para Ricardo Reis, como lembrou Zenith, “o prazer positivo era esperar demais num mundo moderno regido pelo pensamento cristão, que abominava; ele se esforça para, ao menos, viver com calma e sem sofrimento” (ZENITH, 2022, p. 455).

Em sua reflexão, Ricardo Reis busca evitar provocar o destino, levando a vida sem maiores exageros ou pretensões: simplesmente viver o presente, discreta e secretamente. Seu objetivo vai ser viver calmamente, evitando qualquer sofrimento. Como ele diz num de seus poemas:

Segue o teu destino

Rega as tuas plantas,

Ama as tuas rosas.

O resto é a sombra

De árvores alheias” (PESSOA, 2022, p. 60)

Ricardo Reis está plenamente consciente de que a vida passa, e o que nos cabe é simplesmente resignarmos com a realidade, sem deixar que as paixões se acentuem. Como em seu poema sobre Lídia, o que há para fazer é apenas sentar e contemplar o rio que corre e passa, como “pagãos inocentes da decadência” (PESSOA, 2022, p. 32-33). Ou ainda como no poema sobre os jogadores de xadrez, evitar qualquer tipo de interferência que possa prejudicar o andamento normal das coisas. O caminho a ser seguido, segundo o poeta, é não deixar-se afetar pelo ruído do mundo:

O que levamos desta vida inútil

Tanto vale se é

A glória, a fama, o amor, a ciência, a vida,

Como se fosse apenas

A memória de um jogo bem jogado

E uma partida ganha

A um jogador melhor” (PESSA, 2022, p. 58).

Por fim, temos o terceiro grande heterônimo de Pessoa, Álvaro de Campos. Diversamente dos dois anteriores, o poeta é um otimista inveterado, amante do progresso e das viagens. O seu olhar é caleidoscópico, do homem tipicamente moderno, “adequado às novas circunstâncias: as metrópoles, a multidão, os meios de transporte mais velozes” (PERRONE-MOISÉS, 1988, p. 340). É por excelência, o poeta das grande sensações, movido por uma “gula insaciável do olhar, uma ânsia de devorar com os olhos o maior número de coisas no menor espaço de tempo” (PERRONE-MOISÉS, 1988, p. 341).

Em Álvaro de Campos identificamos um poeta vibrante, cujos versos emergem como jorros de entusiasmo. O seu mote é bem definido: “Em tudo, isto”. O seu desejo é abraçar com vigor toda a realidade, não perder nenhum passo dos instantes fundamentais:

Todos os mares todos os estreitos, todas as baías, todos os golfos

Queria apertá-los ao peito, senti-los bem e morrer!” (PESSOA, 2007, p. 107)

Nada pode escapar ao seu olhar de viajante, quer se assegurar de que todos os lugares por que passou estão guardados como num cofre, promovendo vibrações inusitadas. O que busca é “sentir tudo de todas as maneiras, sentir tudo excessivamente” (PESSOA, 2007, p. 224). Todo esse alvoroço emerge num de seus poemas, Carnaval, onde num dos versos sublinha:

A vida é uma imensa bebedeira (...).

Cada momento é um carnaval imenso,

Em que ando misturado sem querer.

Se penso nisso maça-me viver

E eu, que amo a intensidade, acho isto intenso” (PESSOA, 2007, p. 66).

Há ainda o semi-heterônimo, Bernardo Soares, e o extraordinário Livro do Desassossego, escrito por pessoa entre os anos de 1913 a 1935. É, sem dúvida, sua obra em prosa mais preciosa, que “ilustra de forma magnífica o princípio da incerteza que percorre todo o seu universo escrito” (ZENITH, 2022, p. 29). Há trechos impressionantes nesse livro de Pessoa, como no caso de dois relatos onde o poeta é capaz de captar uma vida inteira a partir da descrição das costas de um homem que caminhava com uma pasta velha debaixo do braço ou o vestido de uma moça que estava à sua frente num bonde de Lisboa (PESSOA, 2023, p. 104-105, 311). Ele sai exausto e sonâmbulo do elétrico, como se ali tivesse vivido a vida inteira.

No Livro do Desassossego, Bernardo Soares revela a consciência da intensidade das sensações que acompanham a dinâmica do seu olhar. O seu mote é: “Nisto, Tudo”. Ele sublinha que é nas “salas do pensamento” que se produzem os mais decisivos conhecimentos emotivos da sua vida. Todos os episódios que o envolvem, desde os mais simples aos mais complexos, são guardados em sua consciência, desde “uma alteração saindo da luz, a queda enrolada de uma folha seca, a pétala que se despega amarelecida, a voz do outro lado do muro com os passos de quem as diz juntos aos de quem a deve escutar”, bem como o portão entreaberto das redondezas de seu lar. Tudo a provocar uma profunda ressonância em seu mundo interior (PESSOA, 2023, p. 129).

Nota

[1] Leyla Perrone-Moisés. Desassossego e mal-estar na civilização (posfácio).

Referências Bibliográficas

BERARDINELLI, Cleonice. Fernando Pessoa: Outra vez te revejo. Rio de Janeiro: Lacerda Editores, 2004.

GIL, José. Diferença e negação na poesia de Fernando Pessoa. Lisboa: Relógio D´Água, 1999.

GIL, José. O devir-eu de Fernando Pessoa. Lisboa: Relógio D´Água, 2010.

GIL, José. Cansaço, tédio, desassossego. Lisboa: Relógio D´Água, 2014.

GIL, José. Fernando Pessoa, ou a metafísica das sensações. São Paulo: n-1edições, 2020.

NUNES, Benedito. O dorso do tigre. São Paulo: Perspectiva, 1969.

PERRONE-MOISÉS, Leyla. Aquém do eu, além do outro. São Paulo: Martins Fontes, 1982.

PERRONE-MOISÉS. Pensar é estar doente dos olhos. In: NOVAES, Adauto. São Paulo: Companhia das Letras, 1988, p. 327-346.

PESSOA, Fernando. Obras em prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1986.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Álvaro de Campos. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Ricardo Reis. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

PESSOA, Fernando. Poesia completa de Alberto Caeiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2022b.

PESSOA, Fernado. Livro do desassossego. São Paulo: Companhia das Letras, 2023.

ZENITH, Richard. Pessoa: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.

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