24 Junho 2026
Tareq Baconi nasceu em Amã, neto de uma família palestina deslocada de Haifa, na Nakba de 1948. Há dois anos, tenta explicar aquilo que boa parte da imprensa ocidental despacha com a palavra “terrorismo”. Analista durante anos de Israel/Palestina, no International Crisis Group, com sede em Ramala, hoje preside o conselho da Al-Shabaka, a rede de análise política palestina, e dirige a seção de livros do Journal of Palestine Studies.
A entrevista é de Guillem Pujol, publicada por La Marea, 20-06-2026.
Publicou originalmente, em 2018, uma história do movimento construída a partir de entrevistas com seus dirigentes e de seus próprios documentos internos, que descrevia a relação entre o Hamas e Israel como um “equilíbrio violento”, sustentado durante dezesseis anos, até que veio o 7 de outubro de 2023. A editora Capitán Swing publicou o livro em espanhol, em 2024, como Hamás: auge y pacificación de la resistencia palestina, com um novo prefácio escrito após o atentado do Hamas, em 7 de outubro, e o início do genocídio em Gaza.
Conversamos com ele sobre o papel da Espanha, do Reino Unido e da União Europeia na crise atual, sobre as fissuras que o genocídio abriu entre Israel e seu principal patrocinador, e sobre a função estrutural que, a seu ver, o Hamas cumpre dentro do projeto colonial israelense. “Isto é uma guerra israelense”, diz sobre a escalada contra o Irã, “não uma guerra estadunidense”.
Eis a entrevista.
Se você tivesse que escrever hoje esse prefácio de 2024, você o mudaria?
Nada, na verdade. Eu me perguntava isso há pouco e fiquei meio nervoso. Mas reli recentemente e não mudaria uma palavra. Nesse prefácio, eu não oferecia respostas fechadas, deixava as perguntas em aberto. E as perguntas que eu tinha em 2024 são exatamente as que tenho hoje. Há processos históricos que ainda não terminaram de mostrar sua forma final, e fingir o contrário seria enganar o leitor.
O Reino Unido traçou, um século atrás, o marco colonial para a Palestina, com consequências funestas que foram se encadeando ao longo do tempo. Hoje, no entanto, parece ser o grande ausente do debate internacional.
Quem dera fosse apenas ausência. Sua participação é negativa. Na semana passada, o Estado levou a julgamento quatro ativistas do Palestine Action, combinando acusações penais com acusações de terrorismo, algo que sequer correspondia ao que estava sendo julgado pelo júri. O Partido Trabalhista, que deveria ser um partido de esquerda, mantém sobre a Palestina uma posição tão sionista quanto a dos conservadores, herdada de uma história que inclui o uso da acusação de antissemitismo contra Jeremy Corbyn.
Hoje, defender a Palestina na esquerda britânica se lê como restringir a liberdade de expressão, perseguir o ativismo e equiparar antissionismo a antissemitismo. E a distância em relação à sociedade não para de crescer. Há um forte apoio popular, tradicionalmente maior entre as pessoas mais velhas, e agora uma geração jovem mobilizada após o genocídio. Eu vivo em Londres. Nas últimas eleições, bastiões históricos do Partido Trabalhista foram conquistados pelos Verdes, e a Palestina foi uma das três principais razões. Na Alemanha, acontece o mesmo.
A Espanha aparece no debate internacional como uma das poucas vozes europeias dispostas a romper o consenso atlantista. Como isto é percebido de fora do país?
De forma muito favorável, em dois níveis: há um amplo apoio popular à causa palestina, mas também medidas práticas de governo, restrições à venda de armas, posições ativas em fóruns de direito internacional. A Espanha importa justamente porque é um Estado-membro da União Europeia que assume uma posição dentro de um bloco que permanece favorável a Israel.
A mobilização do Sul Global, sobretudo por meio do Grupo de Haia, tem sido fundamental para deter as políticas do Norte Global que corroem o direito internacional, e o fato de a Espanha atuar assim dentro do Norte Global a torna um ator decisivo. Países como Espanha e Irlanda não protegem os palestinos por amor, mas por obrigação jurídica que é descumprida pelo restante de seus pares, pois assinar a Convenção do Genocídio implica o dever de preveni-lo.
A União Europeia tem capacidade real de influenciar no conflito ou as divisões internas a tornaram irrelevante?
Tem um potencial enorme e o está desperdiçando. Há acordos preferenciais com Israel, há um projeto conjunto de pesquisa, o Horizon, há cooperação militar. Tudo isso oferece alavancas reais para acabar com a impunidade. Contudo, as exportações de armas israelenses para a Europa não pararam de crescer e atingiram seu pico em 2024, pois são armas já testadas em campo de batalha, o que as torna mais rentáveis.
Enquanto um país como a Espanha se posiciona, os parceiros decisivos - Alemanha, França, Reino Unido – permanecem alinhados a Israel. Essa combinação transforma a União Europeia em um ator incapaz de sustentar uma política comum sobre a Palestina.
Após a guerra entre Israel e Irã, que panorama regional resta para o Hamas? Ficou sem patrocinadores, como aconteceu com a Organização para a Libertação da Palestina (OLP), quando Arafat saiu de Beirute, em 1982?
O Hamas sempre foi hábil em lidar com diferentes patrocinadores regionais, inclusive em conflito entre si: da Arábia Saudita à Síria ou ao Egito. Hoje, acontecem duas coisas ao mesmo tempo. A infraestrutura material, o apoio financeiro e militar iraniano, e o acesso a Gaza via Síria e Líbano foram golpeados pela agressão regional israelense.
Mas, ao mesmo tempo, o Irã saiu dessa guerra como um ator estratégico mais forte do que há um ano. A ofensiva israelense-estadunidense demonstrou aos países do Golfo que a insegurança regional não é provocada pelo Irã, mas pela soberba israelense.
Militarmente, o Hamas segue presente em Gaza, controla parte do território, mantém suas armas, e seu escritório político permanece no Catar, com acesso direto a Teerã. Não acredito que seja uma história totalmente negativa para eles.
E para Israel? Como o início de um acordo de paz entre Irã e Estados Unidos o afeta?
Penso que o Irã foi o único ator verdadeiramente estratégico no último ano. O conflito representou uma derrota estratégica para os Estados Unidos: uma guerra irracional, sem interesse próprio, apenas o de Israel. Agora, negociam coisas que nem estavam na mesa no início, como o Estreito de Ormuz.
Essa trégua é um golpe duro para a doutrina israelense de guerra permanente, por isso Israel tentou sabotá-la, nesses últimos dias, atacando o Líbano. Minha previsão é que continuará usando o enriquecimento de urânio como desculpa para manter o Irã como uma ameaça. No entanto, enquanto a trégua durar, concentrará sua violência no Líbano.
Há conversas vazadas de Netanyahu em que reconhece que financiar indiretamente o Hamas era conveniente. Até que ponto sua existência é funcional ao projeto expansionista israelense?
O fato de o Hamas ainda manter capacidade militar não deveria surpreender quem estuda a guerra de guerrilhas. São armas baratas, muitas reconvertidas de armamentos israelenses, e nenhum exército convencional consegue eliminar completamente uma guerrilha enraizada em sua própria população, sem cometer um genocídio. Dito isso, sim, é beneficiado por ele. Qualquer governo israelense precisa transformar a relação com a Palestina em uma questão de segurança, e qualquer arma palestina reforça essa linguagem de terrorismo.
Isso tem história. Israel autorizou os Irmãos Muçulmanos na Palestina porque acreditava que estavam concentrados na islamização social, não na ação militar, e porque sabia que uma corrente islamista enfraqueceria o nacionalismo secular da OLP. Quando se transformaram em Hamas e começaram as operações militares, esse apoio financeiro foi cortado, mas a lógica de fundo - dividir os palestinos entre si - se manteve. Toda vez que o Fatah e o Hamas tentaram formar um governo de unidade, qualquer governo israelense trabalhou para sabotá-lo.
O Hamas calculou as consequências do 7 de outubro ou foi uma aposta às cegas?
É impossível saber o que o Hamas imaginava. Sei que partia de várias hipóteses, e algumas se mostraram falsas: que um golpe contra o bloqueio recolocaria a Palestina na agenda internacional, que forçaria os países árabes a rever os Acordos de Abraão, e que o povo palestino se insurgiria em toda a Palestina histórica frente à represália israelense.
Subestimou a fragmentação palestina. Nem em 1948 e nem na Cisjordânia houve um levante; os países árabes também não se mexeram, apenas o Irã e o Hezbollah. O maior erro de cálculo foi pensar que a comunidade internacional imporia um limite a Israel.
Contudo, o 7 de outubro também rompeu, penso que de modo irreversível, a ideia de que o sionismo pode oferecer um refúgio seguro aos judeus na Palestina, sem resolver a questão palestina, e nos devolveu à linguagem da Nakba e da colonização. Não sei se era isto que o Hamas imaginava, mas foi o que conseguiu.
Como a destruição de Gaza afetou o apoio social ao Hamas?
É uma das perguntas mais difíceis de responder, devido ao bloqueio informativo e à falta de acesso da imprensa estrangeira, mas há um amplo espectro. Uma parte da população culpa o Hamas por não ter calculado bem e por não ter protegido as pessoas da resposta israelense. Para este setor, provocou uma segunda Nakba, multiplicada.
Outra parte continua defendendo a resistência: o Hamas não tinha alternativa, dizem, estávamos há dezesseis anos sob bloqueio, os países árabes normalizavam relações com Israel, o mundo esquecia Gaza. Isto ao menos sacudiu a comunidade internacional.
O mais triste não é apenas essa fragmentação, que já existia antes; é que o genocídio fez com que os palestinos de Gaza se vejam agora como uma categoria à parte dentro da palestinidade. São pessoas que dizem que ninguém entende o que é um genocídio se não esteve em Gaza. Esta sensação de excepcionalidade tornou a fragmentação ainda mais severa.
Nos Estados Unidos, fala-se cada vez mais do papel do AIPAC - o lobby sionista -, mas também dos republicanos que repetem que apoiar a política genocida de Netanyahu é incompatível com o “America First” de Trump. Os vínculos entre Washington e Tel Aviv estão se rompendo?
Sim, totalmente. Tudo o que Israel fez desde o 7 de outubro acabou aprofundando essa fratura, transformando-a em um verdadeiro paradoxo. Nunca foi militarmente tão forte, tendo desmantelado a infraestrutura de resistência em toda a região, e ao mesmo tempo nunca foi tão frágil, porque esse sobre-esforço prejudicou sua relação com seu principal patrocinador. O Partido Democrata, sobretudo sua geração jovem, afastou-se de Israel. São sinais dessa guinada o fato de Kamala Harris ter perdido e de Zohran Mamdani ter vencido em Nova York.
E no campo republicano, no universo MAGA, já existe uma fratura entre “America First” e “Israel First”. Quando Tucker Carlson ou Marjorie Taylor Greene dizem que isto é um genocídio, questionando por que os Estados Unidos apoiam Israel, diz respeito a um questionamento que qualquer político deveria fazer, mas o fato de vir da direita republicana reconfigurou o sistema político estadunidense. Essa guerra contra o Irã é o exemplo perfeito. É uma guerra israelense, não uma guerra estadunidense, algo que começa a ser observado.
No papel, há um cessar-fogo e um plano de paz em Gaza. O que está acontecendo realmente no local?
Não há nem cessar-fogo, nem plano de paz. O acordo foi negociado como todos os anteriores desde 2007: por fases. A fase um era o fim das hostilidades, a libertação dos reféns pelo Hamas, a entrada de ajuda humanitária e a retirada israelense; só depois as fases dois e três seriam negociadas.
Como todos que acompanham essas negociações, o Hamas sabia que a fase um permaneceria congelada, mas pediu garantias ao Governo Trump, respaldadas pelo Catar e o Egito, de que se libertasse todos os reféns, sua principal carta, Israel permitiria a ajuda e começaria a se retirar. Essa garantia não foi cumprida. Em vez disso, agora, fala-se apenas do desarmamento do Hamas, uma condição que nem sequer estava na fase um.
Enquanto se negocia algo impossível, Israel passou de controlar 53% de Gaza para 60%, com a intenção declarada de chegar a 70%. Há uma política de atirar em quem cruzar a linha amarela, e grupos palestinos são armados para gerar caos. Não estamos em um cessar-fogo, mas diante da continuação do genocídio por meios burocráticos.
O governo espanhol e outros governos europeus continuam apelando à solução de dois Estados. Isto ainda faz sentido?
Eu nunca acreditei que fosse possível, e hoje menos ainda. Essa linguagem diplomática serve, na prática, para manter o status quo: Israel continua existindo como Estado soberano e adiamos indefinidamente a estatalidade palestina. Dá no mesmo se um governo acredita ou não em dois Estados.
A única coisa que deveria ser feita agora é parar o genocídio e exigir a responsabilização. Falar em relançar um processo diplomático, enquanto quem dirige Israel é alvo de mandado do Tribunal Penal Internacional, é aceitar que possa agir com total impunidade e permanecer com pleno acesso diplomático. Qualquer solução - de um, dois ou três Estados - só pode começar por aí: parar o genocídio e prestar contas.
Já há rabinos sionistas falando da Turquia como a próximo grande frente. Como enxerga este ponto?
Israel é um projeto colonial de assentamento, cuja razão de ser é a sua expansão e manutenção como potência militar hegemônica da região. Nenhum vizinho pode ter superioridade militar sobre Israel. Este sempre foi o limite garantido por Washington em qualquer acordo bilateral.
O Irã cumpre essa função de inimigo perfeito, islâmico, com a linguagem nuclear como pano de fundo. Se o Irã deixar de representar uma ameaça, o candidato natural é a Turquia, a outra potência regional, e todo o repertório retórico usado contra o Irã é perfeitamente aplicável: país islâmico, ameaça existencial.
No momento, Israel segue focado no Irã, que saiu fortalecido desta guerra. Então, não acredito que a frente turca seja ativada de imediato. Contudo, do lado da Turquia, a leitura também mudou: durante anos, colocaram-se como inimigos, sem o serem totalmente, com boas relações militares até este genocídio, e esse jogo não é mais sustentável.
Como você descreveria, hoje, o apoio da sociedade israelense ao governo de Netanyahu?
É preciso separar duas coisas. O apoio ao que eles não chamam de genocídio, mas de guerra em Gaza, é quase unânime, mais de 90%. As fissuras aparecem no Líbano e no Irã. Há mais oposição à guerra no Líbano, enquanto a guerra contra o Irã também conta com um apoio quase unânime.
A divergência se concentra nas decisões estratégicas de Netanyahu. Na esquerda, é acusado de erro estratégico no Líbano; na direita, de não ter sido suficientemente contundente. Essa trégua com o Irã vai lhe custar caro: a guerra foi vendida como o fim do programa nuclear iraniano, mas o regime iraniano nunca esteve tão forte quanto agora. Israel não conseguiu alcançar nenhum de seus objetivos estratégicos. Resta ver o que acontecerá nas eleições, penso que isto será cobrado dele.
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