Liberdade e mundo comum: por que Hannah Arendt continua necessária para pensar a política contemporânea? Artigo de Márcia Rosane Junges

Foto: Wikimedia Commons | Munich City Museum

03 Junho 2026

Pensar a política para além das lógicas da administração, da polarização e da mera disputa pelo poder constitui um dos desafios intelectuais mais urgentes da contemporaneidade. Em um cenário atravessado por transformações profundas nas formas de participação cidadã, pela crise de confiança nas instituições democráticas e pela reconfiguração dos espaços públicos de debate, a obra de Hannah Arendt permanece como uma referência incontornável para compreender as possibilidades e os limites da vida política.

Ao recolocarmos no centro da reflexão temas como liberdade, ação, pluralidade e mundo comum, seu pensamento continua oferecendo ferramentas conceituais decisivas para interpretar os impasses do presente e imaginar novas formas de convivência democrática. É nesse horizonte de questões que se insere a conferência "Liberdade, representação e ação em Hannah Arendt", ministrada pela filósofa Mariana de Mattos Rubiano, atividade que encerra o Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

A reflexão é de Márcia Rosane Junges, professora da graduação e pós-graduação em Filosofia da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos, jornalista da equipe de comunicação do IHU.

Eis o artigo.

Em tempos marcados pela erosão da confiança nas instituições democráticas, pela expansão de formas difusas de autoritarismo e pela crescente dificuldade de construção de espaços públicos de diálogo, a reflexão sobre a liberdade política adquire renovada centralidade. É nesse horizonte que a filósofa brasileira Mariana de Mattos Rubiano ministrará nesta quarta-feira, 04-06-2026, a conferência "Liberdade, representação e ação em Hannah Arendt", atividade de encerramento do Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI, promovido pelo Instituto Humanitas Unisinos – IHU. O evento reúne pesquisadoras dedicadas a examinar a atualidade de uma das mais influentes pensadoras da filosofia política contemporânea. As inscrições e a programação completa podem ser acessadas na página oficial do evento.

Entre os conceitos fundamentais elaborados por Hannah Arendt, a liberdade ocupa lugar decisivo. Distanciando-se tanto da tradição liberal, que identifica liberdade com ausência de interferência, quanto das interpretações que a reduzem a uma dimensão interior da vontade, Arendt compreende a liberdade como experiência eminentemente política: algo que se realiza quando os seres humanos aparecem uns diante dos outros, falam, deliberam e iniciam ações em comum. A liberdade, nesse sentido, não é uma propriedade privada do indivíduo, mas uma realidade que emerge no espaço compartilhado do mundo público.

Essa problemática acompanha a própria trajetória intelectual de Mariana Rubiano. Na obra Liberdade em Hannah Arendt (Curitiba: Editora Prismas, 2016), investiga esse conceito, enquanto em sua tese de doutorado Revolução em Hannah Arendt: compreensão e história, se ocupa precisamente de como a autora vincula liberdade, ação e revolução, destacando o caráter político e público dessa experiência humana. Em outros escritos, Rubiano ampliou essa reflexão para o tema da representação política, examinando as tensões entre participação cidadã e instituições representativas no interior do pensamento arendtiano.

A questão é particularmente relevante porque Arendt jamais aceitou respostas simplificadoras sobre a democracia. Embora tenha valorizado experiências de participação direta e formas de autogoverno, ela também se dedicou a compreender os limites e as potencialidades da representação política. Em suas análises, o problema não consiste apenas em quem governa, mas sobretudo em como preservar espaços nos quais os cidadãos possam aparecer, falar e agir coletivamente. A representação torna-se problemática quando substitui a participação; mas também pode desempenhar papel importante quando mantém vivo o vínculo entre instituições e esfera pública. Essa tensão constitui um dos núcleos mais instigantes das investigações desenvolvidas por Mariana de Mattos Rubiano.

Além disso, a reflexão arendtiana sobre a representação política emerge de uma preocupação mais ampla com a preservação da pluralidade humana. Para a filósofa alemã, a política existe porque os seres humanos são diferentes entre si e, justamente por isso, necessitam de espaços nos quais possam expressar opiniões, confrontar perspectivas e construir consensos provisórios. A legitimidade das instituições políticas depende, portanto, de sua capacidade de acolher essa pluralidade sem reduzi-la à uniformidade, nem transformá-la em mera soma de interesses individuais.

Nesse contexto, a ação ocupa um lugar central. Diferentemente das atividades voltadas à produção ou à administração da vida social, a ação política se realiza entre pessoas que compartilham um mundo comum e se reconhecem mutuamente como interlocutores. É por meio dela que novos começos podem surgir, revelando a capacidade humana de interromper processos aparentemente inevitáveis e inaugurar experiências inéditas de convivência e participação pública.

Essa compreensão permite perceber por que Arendt demonstra preocupação diante de processos que esvaziam a esfera pública ou restringem a participação cidadã. Quando os indivíduos deixam de encontrar espaços efetivos para o exercício da palavra e da ação, a política corre o risco de ser reduzida a procedimentos burocráticos ou a mecanismos de gestão que afastam os cidadãos das decisões que afetam a vida coletiva. A vitalidade democrática, nesse sentido, depende da existência de espaços públicos capazes de sustentar o debate, o dissenso e a deliberação.

É precisamente nesse horizonte que se insere a contribuição filosófica de Mariana de Mattos Rubiano. Ao investigar as articulações entre liberdade, representação e ação, sua reflexão evidencia a complexidade do pensamento arendtiano e sua relevância para os desafios contemporâneos. Longe de oferecer modelos prontos ou soluções definitivas, Arendt convida a repensar continuamente as condições que tornam possível a experiência política, compreendida como prática compartilhada de construção e preservação do mundo comum.

Atualização do legado arendtiano

Ao trazer essa discussão para o centro do debate, a conferência pretende dialogar diretamente com desafios contemporâneos. Em sociedades atravessadas por plataformas digitais, polarização política e crescente desconfiança em relação aos mecanismos de representação, a pergunta arendtiana permanece aberta: como criar condições para que a política não se reduza à administração técnica dos assuntos coletivos nem à mera disputa de interesses privados? A resposta de Arendt aponta para a recuperação da ação como capacidade humana de iniciar algo novo no mundo, interrompendo automatismos históricos e abrindo possibilidades inéditas de convivência.

Não por acaso, o Colóquio Internacional Hannah Arendt propõe revisitar categorias como banalidade do mal, totalitarismo, espaço público e direito a ter direitos — conceitos que continuam oferecendo instrumentos analíticos para compreender fenômenos centrais do século XXI. A vitalidade da obra arendtiana reside justamente em sua capacidade de iluminar questões que atravessam o presente: as fragilidades democráticas, as crises de pertencimento político, as novas formas de exclusão e a necessidade de reconstrução de um mundo comum.

A conferência de Mariana de Mattos Rubiano insere-se nesse esforço mais amplo de atualização crítica do legado de Arendt. Mais do que um retorno histórico a uma autora do século passado, trata-se de interrogar o presente a partir de uma filosofia que compreendeu como poucas a relação entre liberdade e pluralidade humana. Em um tempo em que a política frequentemente oscila entre a burocratização da vida pública e a radicalização dos conflitos, revisitar as noções de liberdade, representação e ação significa recuperar a pergunta fundamental que atravessa toda a obra arendtiana: o que torna possível a construção de um mundo compartilhado entre diferentes? É precisamente nessa questão que reside a atualidade de Hannah Arendt, bem como a relevância da reflexão proposta por Rubiano.

Quem é Mariana de Mattos Rubiano?

Graduada em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP e em Filosofia pelo Claretiano Centro Universitário, Mariana de Mattos Rubiano é mestre e doutora em Filosofia pela USP com a tese Revolução em Hannah Arendt: compreensão e história, com pós-doutorado pela UNIFESP, onde leciona. Escreveu Hannah Arendt (Curitiba: Editora Prismas, 2016) e é uma das autoras de Temporalidades de Exceção (Teresina: Editora do IFPI, 2022). É membra do Núcleo de Sustentação do Grupo de Trabalho Filosofia Política Contemporânea, ligado à Associação Nacional de Pós-Graduação em Filosofia (ANPOF).

Anote e participe!

Colóquio Internacional Hannah Arendt. Uma filosofia em diálogo com o século XXI
Liberdade, representação e ação
Profa. Dra. Mariana de Mattos Rubiano – UNIFESP
03/06 | 10h às 11h30min
Transmissão ao vivo: YouTube | Facebook
A atividade é gratuita. Será fornecido certificado a quem se inscrever.
Inscrições e mais informações: www.ihu.unisinos.br/evento/hannah-arendt

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