"Sou um ex-Vale do Silício arrependido, e o Vaticano é crucial para conter seu poder excessivo”. Entrevista com Tristan Harris

Foto: Joshua Reddekopp/Unsplash

26 Mai 2026

Entrevista com o fundador do Centro para a Tecnologia Humana, ex-funcionário da Apple e do Google, atualmente hóspede no Vaticano.

Tristan Harris viu por dentro como funciona a máquina de manipulação e vício na internet: e hoje ele a expõe. Depois de trabalhar na Apple e no Google, em 2015 ele deixou suas empresas para fundar uma organização sem fins lucrativos, o Centro para Tecnologia Humana. Eleito o rosto do documentário da Netflix, O Dilema das Redes, foi recentemente convidado para o Vaticano.

"Sei que o Papa Leão XIV entrou em contato com Megan Garcia, mãe de Sewell Setzer, que cometeu suicídio por causa de um chatbot. Já não é tão fácil acessar chatbots que invadem a vida de crianças de forma imprudente, e isso está mudando graças aos processos judiciais e ao encontro com o Papa Leão XIV."

A entrevista é de Iacopo Scaramuzzi, publicada por La Repubblica, 26-05-2026.

Eis a entrevista.

Como você acha que o Papa pode fazer a diferença?

Fazendo o que está fazendo. Se nos esquecermos do que significa ser humano, a tecnologia irá nos sobrepujar ou explorar. Não precisamos do direito de proteger nossa imagem até que a inteligência artificial consiga extrair nossa imagem de uma fotografia ou nossa voz de três segundos de áudio gravado. O papel do Vaticano não poderia ser mais importante: nomear o que estamos tentando proteger.

Será que o Vale do Silício se importa com o que o Papa diz?

Eles sabem que o alcance da Igreja Católica sobre dois bilhões de pessoas é significativo. Mas eles acham que estão muito perto de controlar a economia mundial, construir um Deus e ganhar trilhões de dólares, e se continuarem assim por mais um ano e meio, dois anos, eles conseguirão. Há um punhado de pessoas com muito dinheiro que está decidindo o futuro de toda a humanidade sem o consentimento de oito bilhões de pessoas. Oito bilionários contra oito bilhões de pessoas.

Leão critica o risco de novas formas de escravidão. Você concorda?

Acredito que este é o momento para um novo contrato social. Num mundo onde as empresas não precisam do nosso trabalho e os governos não precisam da nossa receita tributária porque a obtêm da inteligência artificial, que poder de negociação nos resta? Precisamos agir agora, nos próximos 12 meses.

Como você consegue manter o otimismo apesar do cenário apocalíptico que descreve?

O otimismo não vem do fato de eu achar que as coisas necessariamente vão correr bem. Acho que já existe uma desconfiança inerente em relação à inteligência artificial por causa das coisas negativas que as pessoas viram nas redes sociais. Estamos aprendendo a lição. Há sinais positivos, como a proibição do uso de redes sociais por crianças menores de 16 anos ou escolas sem smartphones. Existe uma regra que resolveria todos os problemas: se os CEOs do Vale do Silício vendessem apenas produtos que seus próprios filhos usariam. Não podemos confiar que a tecnologia funcionará bem sozinha.

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