21 Mai 2026
Pedro Almodóvar não passou despercebido por Cannes em 2026. Em sua volta à competição pela Palma de Ouro, com “Natal Amargo”, o cineasta espanhol levou para além da tela um discurso firme sobre o momento político global, classificando Donald Trump, Benjamin Netanyahu e Vladimir Putin como “monstros”.
A informação é publicada por RFI, 20-05-2026.
“Como europeus, também somos obrigados a nos tornar uma espécie de escudo contra esses monstros, como Trump, Netanyahu ou o russo [Vladimir Putin]. Somos obrigados porque aqui, sim, obedecemos às leis internacionais”, afirmou o diretor de 76 anos durante coletiva de imprensa no 79° Festival de Cannes.
Carregando no peito um broche com a inscrição "Free Palestine", Almodóvar insistiu na ideia de que a Europa representa um contraponto institucional. “Na Europa, sim, há leis. Trump precisa saber que há um limite para todos os seus delírios e suas loucuras e que a Europa nunca vai se submeter às políticas de Trump”, disse.
Mais do que um comentário político, sua fala também soou como uma convocação aos artistas. Para ele, o papel de quem cria não é neutro. “A partir de sua pequena tribuna [o artista] deve falar sem rodeios, deve falar de rosto descoberto sobre o pior que está acontecendo, e coisas terríveis demais estão acontecendo conosco a cada dia”, afirmou. E concluiu, sem ambiguidades: “Parece-me um dever moral”.
Apesar do tom combativo sobre temas políticos, Almodóvar é mais cauteloso ao falar sobre suas ambições no festival. Esta é sua sétima tentativa de conquistar a Palma de Ouro, um reconhecimento que ainda não veio, apesar de uma carreira consagrada com dois Oscars e o Leão de Ouro em Veneza. “Nunca viajo a Cannes com a sensação de vencedor”, disse, relativizando o peso da disputa. “Os prêmios são o resultado dessa mistura tão heterogênea, quase diria heterogênea demais, que é um júri, cada um vindo de uma formação diferente.”
Almodóvar em busca da Palma de Ouro pela sétima vez
O diretor apresenta este ano em Cannes “Autoficção”, obra que dialoga diretamente com o ato de criar. O filme acompanha Raul Durán, um cineasta consagrado que se vê paralisado pela falta de ideias. Para sair do bloqueio, ele inventa Elsa, uma diretora de publicidade cuja vida espelha a sua. Quando um acontecimento dramático atinge a sua assistente mais próxima, ele passa a usar esse material como combustível para a narrativa.
Ambientado em meio às paisagens quase irreais de Lanzarote, nas Ilhas Canárias, o longa marca mais uma incursão de Almodóvar em territórios íntimos, onde vida pessoal e criação artística se confundem. Já lançado na Espanha, o filme chegou aos cinemas franceses no mesmo dia de sua apresentação no festival.
Limites entre realidade e ficção
“Autoficção” aprofunda uma preocupação recorrente na obra do cineasta: até que ponto é possível transformar a vida em matéria artística sem consequências. Ao mostrar um criador que se alimenta diretamente da realidade, o filme sugere que esse processo nunca é totalmente inofensivo.
A narrativa levanta questões contemporâneas sobre exposição e apropriação da intimidade, indicando que a criação artística implica escolhas éticas. Ao utilizar a dor alheia como inspiração, o protagonista se vê diante de dilemas que atravessam toda a história.
Com sua estética característica e elenco afinado, Almodóvar constrói um drama introspectivo. Mais do que contar uma história, o diretor convida o espectador a questionar até que ponto a arte pode se apropriar da vida real.
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