Sexto mandamento, já não és o primeiro. Artigo de Piotr Zygulski

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06 Mai 2026

"A unidade católica, para não ser uniformidade, deve sempre se alimentar de certa diversidade interna: mas de quanta diversidade, sobre esse tema, somos capazes como Igreja?"

O artigo é de Piotr Zygulski, publicado por Settimana News, 03-05-2026. 

Piotr Zygulsk é formado em Economia e Comércio pela Universidade de Gênova, em Filosofia e Ética das Relações pela Universidade de Perugia e em Ontologia Trinitária pelo Instituto Universitário Sophia, em Loppiano (Figline e Incisa Valdarno), onde está cursando doutorado em questões escatológicas islêmico-cristãs. Entre suas publicações: O batismo de Jesus: uma imersão na historicidade dos evangelhos (EDB, 2019). Professor em Savona e jornalista publicista, é editor do Termômetro Político e desde 2016 é diretor do Nietos de Maritain.

Eis o artigo. 

A resposta do papa Leão XIV sobre as bênçãos de casais chamados “irregulares”, formalizadas na Alemanha, pode soar um pouco como uma tentativa de conciliação. Algo do tipo: de qualquer forma, todos e todas devemos nos converter e, de qualquer modo, a bênção ao final da missa é para todos e todas, então deixemos tudo como está sobre o tema, dentro dos limites das “bênçãos relâmpago” previstas por Fiducia Supplicans, que o papa Francisco concedeu também a quem não é casado sacramentalmente, desde que não sejam confundidas com o matrimônio entre homem e mulher.

Na resposta do papa Leão XIV, dois pontos me parecem apreciáveis.

A moral não diz respeito apenas à esfera sexual: Não reduzamos o comportamento de uma pessoa àquilo que ela faz debaixo dos lençóis, como se fosse o critério para medir a santidade ou a pecaminosidade da sua vida. A Igreja não é a fiscal do quarto, embora nos últimos séculos tenha se concentrado quase exclusivamente nesse campo, tendo perdido influência em outros aspectos, como observa Andrea Grillo.

Leão assinala que existem “questões muito maiores e mais importantes, como a justiça, a igualdade, a liberdade dos homens e das mulheres, a liberdade religiosa, que deveriam ter prioridade em relação a essa questão específica”. No entanto, não devemos reduzir isso a mero desvio de assunto.

Após a admissão do papa Francisco, em Amoris Laetitia, de que algumas questões antropológicas merecem aprofundamento adicional, já que a Igreja no passado deu respostas precipitadas, e de que nem sempre se deve esperar uma resposta do Magistério para cada aspecto — também porque é necessário discernir caso a caso —, o redimensionamento da moral sexual àquilo que era chamado de “moral especial” é saudável.

Afinal, trata-se apenas do “sexto mandamento” — nem sequer está entre os cinco primeiros — e, ainda assim, de uma interpretação parcial dele. Redimensionar o peso da moral sexual significa parar de olhar as pessoas pelo buraco da fechadura, permitindo à Igreja recuperar credibilidade em temas como a ecologia, as desigualdades socioeconômicas e a paz, nos quais hoje é muito mais ouvida do que em questões de bioética ou sexualidade.

De ameaça (im)oral a desafio para a unidade da Igreja Da obsessão pelo ato sexual individual, a questão é deslocada para o plano da comunhão eclesial. Leão XIV não nega que o tema seja importante — em 30 de julho de 2025 havia explicado que, em grande parte do mundo, a identidade sexual não é uma questão tão central quanto no Ocidente, “fixado na sexualidade” —, mas está consciente de que ainda é um tema excessivamente polarizador.

“Hoje” — “neste momento histórico”, especifica o papa Leão — é preciso “mudar as atitudes antes mesmo de mudar a doutrina”. “Ir além disso agora, creio, pode causar mais desunião do que unidade, e devemos procurar construir nossa unidade sobre Jesus Cristo e sobre aquilo que Jesus Cristo ensina”. Ele não nos deixou um manual de instruções eternas sobre a genitalidade, mas sim um exemplo de amor inclusivo até o fim, e a oração para que todos sejam um.

Hoje, sobre certos temas, um amplo consenso ainda precisa surgir em toda parte; reconhecer que, por enquanto, intervir em um sentido ou outro causaria desunião não significa afirmar que isso é — ou será — sempre errado, em todo lugar e em todo tempo. Leão diz “não agora”, não “nunca”. Ainda assim, essa sala de espera — tão reconfortante quanto diplomática — com o tempo se torna desgastante. A unidade católica, para não ser uniformidade, deve sempre se alimentar de certa diversidade interna: mas de quanta diversidade, sobre esse tema, somos capazes como Igreja?

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