24 Abril 2026
As operadoras de redes já reconhecem que a infraestrutura atual, concebida para outra realidade de consumo, não atende às exigências da era da IA.
O artigo é de Paulo de Godoy, country manager da Everpure, publicado por Ecodebate, 23-04-2026.
Eis o artigo.
Dados recentes da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) indicam que o consumo de eletricidade no país deve crescer cerca de 3,3% ao ano até 2035, impulsionado pela digitalização, pela expansão de data centers e por novas cargas intensivas em processamento. Nosso país reúne mais de 170 mil quilômetros de linhas de transmissão, formando uma malha extensa e complexa que foi estruturado para um perfil de consumo diferente. Na prática, isso significa operar com menos margem do que antes e com necessidade crescente de eficiência para sustentar essa nova dinâmica.
A IA já figura entre os principais vetores de crescimento da demanda por eletricidade. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), uma única GPU moderna pode consumir, em um dia, o equivalente ao de uma residência com quatro pessoas e, ao longo de um ano, esse consumo pode superar essa marca. Em larga escala, com milhares de unidades em operação, essa demanda deixa de ser uma discussão teórica de ESG e passa a representar um risco direto para os negócios.
A tensão da expansão da IA
A pressão econômica e ambiental desse avanço de infraestrutura começa a ganhar escala. Projetos e obras têm sido adiados à medida que os governos enfrentam dificuldade para equilibrar a expansão de data centers com a garantia de fornecimento contínuo para as residências e empresas. Quando há disputa entre o processamento corporativo e o consumo residencial, os impactos se espalham, pressionando os custos e a estabilidade do sistema. As operadoras de redes já reconhecem que a infraestrutura atual, concebida para outra realidade de consumo, não atende às exigências da era da IA.
Energia renovável é só um lado da moeda
Alguns países já exploram o uso de energia renovável em escala industrial. No Japão, por exemplo, a Toyota Tsusho e a Eurus Energy estão desenvolvendo, em Hokkaido, um data center alimentado exclusivamente por energia eólica, com conexão direta a um parque gerador para reduzir a dependência da rede de transmissão.
Mas, energia limpa não resolve ineficiência, e transferir tecnologias antigas e intensivas em consumo para essas fontes apenas desloca o problema, principalmente quando consideramos que os discos rígidos mecânicos podem consumir de cinco a dez vezes mais energia do que as alternativas modernas baseadas em estado sólido de alta densidade.
Os governos precisam rever como medem o consumo de energia e como responsabilizam as organizações. O indicador “terabytes por watt” (TB/W) surge como uma forma mais objetiva de avaliar a eficiência de armazenamento, ao substituir a capacidade bruta como referência. Em vez de priorizar picos momentâneos de desempenho, essa métrica mostra quanto dado efetivamente é mantido para cada unidade de energia consumida.
O antídoto para a volatilidade
Eficiência exige modernização da infraestrutura, mas também uma mudança na forma como as empresas compram e consomem tecnologia.
Em um cenário marcado por cadeias de suprimento instáveis, escassez de hardware e aumento no custo de componentes, a lógica de “comprar para o futuro” perde sentido. O excesso de provisionamento imobiliza capital e mantém em operação uma infraestrutura ociosa que consome energia e refrigeração enquanto perde valor. Essa capacidade não gera retorno, mas segue demandando recursos e ampliando o volume de lixo eletrônico, que cresce mais rápido que a capacidade de reciclagem e que a própria população global.
O consumo flexível de tecnologia moderna e eficiente reduz esse impacto ao substituir ciclos rígidos de renovação por uma abordagem mais alinhada à demanda. Em vez de antecipar investimentos em ativos que perdem valor rapidamente, as empresas passam a crescer conforme a necessidade.
Um novo plano de resiliência
A escassez de energia já ameaça a continuidade de serviços essenciais, o que reduz o espaço para uma postura reativa. Para os líderes empresariais, os investimentos em TI precisam ser avaliados pela capacidade tecnológica, eficiência energética, adaptabilidade e impacto econômico. O consumo flexível e a eficiência energética ganham cada vez mais relevância nas decisões e influenciam a forma como as empresas crescem em um cenário de recursos mais limitados.
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