Em Beirute o mais cruel dos dias. Vidas em pedaços entre poeira e miasmas. Artigo de Nello Scavo

Foto Houssam Shbara/Anadolu Ajansi

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10 Abril 2026

"Toda a cidade [de Beirute] está envolta pelos miasmas das explosões. De três lados, até o mar, densas cortinas de fumaça negra se dissipam em direção à costa", escreve Nello Scavo, jornalista italiano, em artigo publicado por Avvenire, 09-04-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Traído pelas notícias de uma trégua no Golfo, nem mesmo o massacre de Sidon deteve Hassan. Ao amanhecer, ele carregou seu velho Mercedes. Parentes, roupas, tâmaras, panelas. De Beirute, rumo ao sul, para recuperar as casas bombardeadas e a vida anterior. A polícia os mandou de volta. Morreram assim, às centenas nos apartamentos onde pensavam estar seguros. O dia do massacre em Beirute não começou cedo. A guerra tomou tempo para iludir com palavras de paz, com o petróleo valendo mais na bolsa de valores do que vidas perdidas. A partir das 14h, durante dez minutos, foi impossível contar as explosões. Drones, caças, mísseis. Um poder de fogo nunca antes visto na cidade, sem sirenes, sem proteção antiaérea, sem defesas contra os ataques que do alto atingiram principalmente bairros dos sunitas, e não dos xiitas, tradicionalmente considerados mais próximos do Hezbollah. Dez explosões por minuto em todo o país. Cerca de 100 ataques diretos com mais de 160 mísseis disparados por aeronaves militares e drones. Um total de 55 incursões e centenas de disparos de canhão no sul. Para se justificar, o exército israelense alega que os líderes do "Partido de Deus" agora se escondem até mesmo nos bairros onde não têm apoio. Admitem, assim, que as vidas dos civis não valem a contabilidade dos lutos, mesmo que seja para eliminar um único inimigo. Passamos por bairros bombardeados, entre pessoas desesperadas, socorristas correndo o risco de cair sob vigas que desabam, corpos retirados em pedaços, carros dos quais é retirado o que resta dos desafortunados passageiros.

Vidas despedaçadas, como os bairros cobertos por fumaça negra e rasteira. Um garoto fugindo de um prédio bombardeado vê os primeiros repórteres e, de alguma forma, tira um pacote de máscaras cirúrgicas do bolso. Elas mal serão suficientes para entrar nos becos onde os maqueiros retiram os corpos carbonizados e montam os cadáveres de crianças, juntados como bonecas quebradas. No Líbano, certos massacres são lembrados não por uma data, mas por um nome. Este também será. E há um que ninguém ousa mencionar, mas que todos pensam: Qana. Mesmo que Qana já não poderá ser suficiente para os cronistas para buscar uma comparação. Em 18 de abril de 1996, a artilharia israelense atingiu um complexo da UNIFIL onde centenas de civis que fugiam dos combates haviam se refugiado: 106 libaneses morreram. Dez anos depois, em 30 de julho de 2006, Qana mais uma vez deu nome a outro massacre. Um ataque aéreo israelense atingiu um prédio onde várias famílias civis haviam se refugiado: 28 mortos, entre os quais 16 crianças. A partir de hoje, Beirute tomou o nome de Qana, e Qana o de Beirute. Significa esperança, afogada no sangue dos inocentes.

Nos hospitais não há espaço para todos. E não há sangue suficiente para todos. Safa Bleik, vice coordenadora dos Médicos Sem Fronteiras no Hospital Hariri, o maior pronto-socorro público da capital, mal consegue acreditar no que está acontecendo. "Estamos recebendo ondas de feridos, entre os quais também crianças. As pessoas chegam com ferimentos de estilhaços e hemorragias graves." Até o final do dia, o Líbano teria mais de 250 mortos confirmados e quase 1.200 feridos, muitos com pouca esperança de sobreviver até amanhã. A Defesa Civil está atualizando as estimativas, mas alerta que não se sabe quantas pessoas ainda poderiam estar presas sob os escombros. E ninguém sabe quantas sairão vivas. Não há ambulâncias suficientes. Nem mesmo carros de bombeiros. Os tratores chegam, empurrando para o lado calçadas e removendo carros reduzidos a sucata incandescente. Arrancam restos de metal, concreto, botijões de gás e ruínas de apartamentos onde viviam os libaneses de Beirute e aqueles que ali haviam sido abrigados.

Toda a cidade está envolta pelos miasmas das explosões. De três lados, até o mar, densas cortinas de fumaça negra se dissipam em direção à costa. Os ataques também ocorreram simultaneamente no Sul, em cidades como Sidon e Tiro, no Vale do Bekaa e nas colinas acima de Beirute. Poucas horas antes, um soldado libanês que retornava do turno noturno parou para tomar um café na orla de Sidon. Ninguém viu o míssil chegar: 12 mortos, a maioria jovens deslocados do sul, suspeitos de pertencerem a um grupo não-confessional aliado ao Hezbollah contra Israel. Mas ninguém em Sidon poderia imaginar que o massacre dos doze seria ofuscado, poucas horas depois, pelo massacre de Beirute.

Até à noite, entre os escombros, as pessoas procuram por parentes, filhos e amigos. Alguns encontram um exemplar do Alcorão caído na calçada, outros se perguntam por que atingiram o armazém do famoso comerciante de pistache. Até os mapas da capital precisarão ser atualizados, apagando os quarteirões destruídos e as ruas que não existem mais. Nem mesmo os bairros da burguesia política foram poupados. Enquanto muitos se perguntam porque alguns edifícios sofreram ataques precisos, com o míssil destruindo um único apartamento através da janela, enquanto outros foram completamente derrubados. O Hezbollah classificou os ataques como uma "agressão bárbara", reivindicando seu "direito natural e legal de resistir e responder". Ao pôr do sol, quando até as sirenes das ambulâncias parecem não ter mais força, o silêncio retorna sobre Beirute. Ouve-se o rugido de um drone israelense, circulando como um abutre sobre a cidade ferida. Pouco depois, outra explosão anunciará a demolição de um prédio de doze andares. Nos hospitais os sobreviventes chegam carregados em motocicletas ou nos porta-malas do carro. No país prisioneiro do fantasma de Qana.

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