Sul do Líbano, refugiados, a morte e o mufti que alimenta todo mundo

Foto: Houssam Shbaro | Anadolu Agency

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18 Março 2026

"Eles fugiram. Mas as bombas os perseguiram. E os encontraram na sexta-feira, bem ali...” O olhar de Hassan Abdallah recai sobre o quarto andar. Alguns fragmentos de tijolos são tudo o que restou da fachada recentemente reparada após os danos dos bombardeios de 2024. No Líbano, a reconstrução mal consegue acompanhar as recorrentes explosões bélicas. Atingido pela bomba, metade do telhado desabou, arrastando consigo a parede. “Os fragmentos esmagaram o menino de três anos. A irmã de oito anos, por sua vez, foi catapultada para fora do prédio pelo impacto. Caiu na rua e morreu instantaneamente. A mãe, que havia descido por um instante, teve tempo de ouvir o estrondo antes que um pedaço de concreto a atingisse na cabeça, ferindo-a gravemente", conta o "xeique", título usado para se referir aos líderes religiosos islâmicos como sinal de respeito. Sua mesquita fica na esquina. Foi lá que a família buscou refúgio na noite de 3 de março, menos de 24 horas após o início do conflito. O enésimo. Hassan Abdallah os colocou em contato com uma pessoa disposta a oferecer abrigo ao casal e seus dois filhos. Eles haviam acabado de chegar de Chaqra: no caos, levaram quase um dia para sair das Colinas de Golã e chegar a Ghazyel, cinquenta quilômetros mais ao norte. Localizada às margens do rio Zahrani, a cidade às portas de Sidon, serve de ponte entre o sul, de onde "sobem" os expulsos pelas operações israelenses, e o centro-norte, onde se aglomeram em busca de refúgio.

A reportagem é de Lucia Capuzzi, publicada por Avvenire, 17-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini

Na "nova" guerra que dilacera o Líbano, porém, as fronteiras são móveis e a linha de fogo muda constantemente. Esmagando os civis. Os irmãos de Chaqra estão entre os mais de cem menores mortos em duas semanas de combates: uma média de sete por dia. Das 886 vítimas contabilizadas até o momento, seis morreram em Ghazyel, alvo de três ataques da aviação de Tel Aviv. A cidade já havia sido duramente atacada um ano e meio atrás: alguns dos rostos dos mortos estão imortalizados na grande colagem de fotos na praça principal, ao lado daquela de Hassan Nasrallah, o falecido líder do Hezbollah. Trinta mil dos seus cinquenta mil habitantes — 97% dos quais de fé xiita — juntaram-se, assim, ao êxodo em direção a Beirute, a menos de 40 quilômetros de distância, e ao norte do Líbano. Nesse meio tempo, 4 mil pessoas chegaram a Ghazyel vindas da fronteira sul, num vaivém surreal de pessoas desesperadas e confusas. "Infelizmente, tem sido assim desde 1948. Embora esteja pior agora", afirma o xeique Hassan.

Esta parece ser a maior ofensiva em vinte anos. Desde quinta-feira, Israel mais que dobrou a área sujeita a evacuação. A ordem de evacuação "para sua própria segurança" não para, como de costume, no rio Litani: agora inclui toda a faixa entre a fronteira e o rio Zahrani, a quarenta quilômetros de distância. E, segundo o que disse ontem o ministro da Defesa de Tel Aviv, Israel Katz, eles ficarão fora por um longo tempo.

"Chegaram a Ghazyel vindos de toda a região. E nós os acolhemos. Primeiro nas casas: as pessoas abriram as portas para desconhecidos, porque entenderam a situação. Depois, quando não havia mais lugar, os colocamos nas escolas. O importante é não deixar ninguém de fora”, enfatiza o xeique, que se desloca entre a cidade onde mora e Tiro, onde é mufti — ou seja, intérprete da lei corânica — para coordenar a assistência. A estrada é perigosa. “Tudo é perigoso: sair, ficar, se deslocar, ficar parado. A menos de trinta quilômetros daqui, um amigo, também xeique, foi morto em um ataque. Estou ciente dos riscos, mas preciso continuar ajudando.” O prédio da mesquita abriga cerca de trinta pessoas.

“Estou aqui com minha esposa, meus filhos, meus irmãos”, conta Ali, 44 anos, de Nabatieh: ficaram apenas algumas dezenas dos 4 mil moradores no vilarejo. “A comunidade foi bombardeada muitas vezes. Há três dias, mataram quatro pessoas que não haviam conseguido escapar. Não sei o que aconteceu com a minha casa, o que havia dentro dela. Provavelmente não deve ter sobrado nada…” Uma cozinha também foi montada no complexo. Em frente à parede onde está pendurada uma fotografia gigante do Grande Aiatolá Ali Sistani, o principal líder do Islã xiita, há mesas onde cerca de quarenta voluntários se revezam para preparar 1.300 refeições por dia para distribuir aos deslocados. À tarde, a atividade é frenética: tudo precisa estar pronto ao pôr do sol para o Iftar, a refeição que interrompe o jejum do Ramadã. Sacos de arroz, óleo e pão estão empilhados nas prateleiras. Alimentos doados pelas pessoas de Ghazyel. “Somos pobres. O Líbano está em crise há quase dez anos. Mas cada um de nós já passou por guerras, foram tantas… E esse sofrimento não se esquece. É por isso que nos esforçamos”, conta Mohammad, enquanto se atarefa entre os panelões.

Um desafio titânico, na realidade. Com mais de 80% dos seis milhões de habitantes já vivendo abaixo da linha da pobreza antes do conflito, o peso da nova onda de violência ameaça levar o país à ruína.

Ao sair de Ghazyel, à medida que se sobe pela costa entre Sidon e Beirute, despontam as lonas improvisadas daqueles que não conseguiram lugar nos mais de seiscentos abrigos em funcionamento. Muitas estão apoiadas na lama das chuvas recentes. Nas cidades, principalmente, a hospitalidade não é garantida. Ao norte do rio Zahrani, uma parte do Líbano se agarra à frágil ilusão de "manter a guerra afastada", estampada nos rostos abatidos dos deslocados.

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