10 Abril 2026
Cuba continua a enfrentar uma grave escassez de petróleo. O embargo dos Estados Unidos, em vigor há seis décadas, foi reforçado em janeiro com a imposição de um bloqueio petrolífero. Diante desse cenário, a ONU — que não dispõe de insumos energéticos suficientes para distribuir ajuda humanitária no país — prepara-se para importar combustível para Cuba pela primeira vez.
A reportagem é publicada por RFI, 09-04-2026.
Apesar da recente chegada de quantidades limitadas de combustível, incluindo um carregamento de petróleo enviado pela Rússia, autorizado pelos Estados Unidos na semana passada, não alterou a situação. Devido à falta de combustível, uma parte significativa da ajuda humanitária da ONU permanece retida, principalmente no sudeste do país.
"Neste momento, temos cerca de 200 contêineres aguardando para sair dos portos", observa Étienne Labande, representante do Programa Mundial de Alimentos (PMA) em Cuba. Ele explica que o material a ser distribuídos inclui "kits de cozinha, painéis solares, sistemas de purificação de água do UNICEF e ajuda alimentar do PMA".
Aproximadamente 20% dos cubanos dependem da ajuda humanitária da ONU, que está angariando fundos para importar combustível para a ilha, algo inédito em sua história em Cuba. "Temos um orçamento de US$ 7,5 milhões, que cobre as necessidades de toda a comunidade humanitária envolvida no plano [da ONU] para Cuba, até dezembro", continuou Étienne Labande.
Assim que os fundos forem arrecadados, levará pelo menos um mês e meio para o combustível chegar. Esta semana, a ONU também está começando a usar transportadoras privadas para transportar parte de sua ajuda humanitária.
Situação humanitária
O Coordenador Residente das Nações Unidas em Cuba, Francisco Pichon, alertou na segunda-feira para a deterioração da situação humanitária no país, agravada pela crise energética e pelos efeitos do furacão Melissa.
“A crise energética tem um impacto humanitário sistêmico e crescente, afetando todos os aspectos da vida diária em Cuba: saúde, água e saneamento, sistemas alimentares, educação, transporte e telecomunicações. Além disso, o país está sem combustível suficiente há mais de três meses”, disse Pichon a jornalistas por videoconferência em Nova York.
Ele acrescentou que “as consequências humanitárias, como esperado, continuam a piorar diariamente, apesar dos recentes esforços da Federação Russa para fornecer combustível”.
Entre os números mais preocupantes, segundo a ONU, estão mais de 96.000 procedimentos cirúrgicos adiados, incluindo 11.000 em crianças.
Cerca de 32.000 mulheres grávidas estão em risco devido ao acesso instável a serviços pré-natais, enquanto 3.000 crianças estão com a vacinação atrasada.
Além disso, a população está sofrendo com apagões prolongados e um milhão de pessoas agora dependem de entregas de água por caminhões-pipa.
Quase meio milhão de crianças e adolescentes estão frequentando aulas em dias reduzidos.
Os idosos também estão sofrendo os efeitos da crise, enfatizou Pichon, observando que Cuba tem a população mais idosa da América Latina. "São pessoas que dependem de serviços e precisam de médicos para conseguir chegar aos centros de saúde", explicou.
Leia mais
- Os Estados Unidos suspendem o bloqueio a Cuba e autorizam a chegada de um petroleiro russo
- Frei Betto: ‘Minha previsão é de que não haverá ataque bélico dos EUA a Cuba’
- Brasil reafirma solidariedade a Cuba e anuncia envio 20 mil toneladas de arroz e de outros alimentos
- Precisamos defender Cuba dos esforços dos EUA para destruí-la. Artigo de Helen Yaffe
- Cuba. Silvio Rodríguez pediu seu rifle
- Cuba, na encruzilhada do multilateralismo hipócrita. Artigo de Josué Veloz Serrade
- "Terei a honra de assumir o controle de Cuba": Trump intensifica a pressão sobre a ilha em meio à crise energética dos EUA
- Notícias falsas e sanções: Cuba sob “guerra cognitiva”. Artigo de Gustavo Veiga
- Trump sobre Cuba: “Pode ser uma tomada de controle amigável, ou pode não ser”
- Cuba, o próximo alvo de Donald Trump
- Trump: “Talvez possamos assumir o controle de Cuba de forma amigável”
- O silêncio discreto dos Estados Unidos em relação ao ataque a um barco em águas cubanas
- Cuba afirma que os membros da embarcação interceptada “tinham objetivos terroristas” e Rubio declara que “os EUA responderão de acordo”. Artigo de Andrés Gil
- Ofensiva dos EUA estrangula Cuba: neomonroísmo corre o risco de se voltar contra eles internamente. Artigo de Uriel Araujo
- “Cuba poderia negociar reformas econômicas, mas não mudanças políticas sob pressão”. Entrevista com Iramis R. Cárdenas
- Uma flotilha também para Cuba: em 21 de março, em Havana, com alimentos e medicamentos. Greta está entre os apoiadores
- Cuba, a Espanha do século XXI. Artigo de Gabriel Cohn
- "Podem derrubar os governos, mas não vencer um povo". Entrevista com Frei Betto
- Entenda a crise cubana. Artigo de Frei Betto
- Trump pressiona Cuba por causa do petróleo bruto venezuelano
- Cuba e o embargo econômico dos Estados Unidos: algumas precisões contra os enganos
- Trump preencheu o que faltava para ser considerado fascista
- Trump, do totalitarismo invertido ao neofascismo: crise do Ocidente e perspectivas globais. Artigo de Juan Laborda