07 Abril 2026
O escritor e filósofo analisa qual será o futuro da estratégia de asfixia energética do governo estadunidense contra Cuba.
A reportagem é de Maria Teresa Cruz e Rodrigo Durão, publicada por Brasil de Fato, 02-042-2026.
Cuba vive uma das piores crises após o endurecimento do bloqueio econômico dos Estados Unidos. Desde o dia 11 de janeiro, uma semana após o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e da esposa dele, a deputada Cilia Flores, pelo governo Donald Trump, os EUA proibiram o envio de petróleo para a ilha caribenha.
Como a energia elétrica do país depende de rede de termelétricas, a falta de combustível gerou uma asfixia energética. O cotidiano da população tem sido atravessado por apagões que duram horas e colapsam todo o funcionamento das cidades, com graves problemas de abastecimento de alimentos e impacto para o sistema de saúde, estabelecendo uma crise humanitária.
Ao BdF Entrevista, o escritor e filósofo Frei Betto avalia que, apesar das pressões, Cuba seguirá resiliente e a atual situação geopolítica dos EUA enfraquece qualquer possibilidade de um ataque militar. “Minha previsão é de que não haverá uma um ataque bélico dos EUA a Cuba. Primeiro porque esse atoleiro em que o Trump se meteu no Irã obriga os estrategistas estadunidenses a repensarem como lidar com os países que eles querem tentar submeter. E segundo porque devido à proximidade geográfica, eles [EUA] têm que pensar muitas vezes, porque, veja bem, vamos supor que Cuba ainda possua mísseis. Um míssil disparado de Cuba atinge facilmente a Flórida”, avalia.
Betto explica que essa estratégia, agora levada ao extremo por Trump, não é uma novidade para o povo cubano, forjado por luta e resistência em sua história. Ele menciona que as investidas dos EUA ganharam força desde a Revolução Cubana, em 1959, e lembra o episódio da Baía dos Porcos, quando mercenários a mando do governo estadunidense tentaram invadir Cuba e foram derrotados.
“De lá para cá, o presidente Kennedy, que infelizmente passa a história, por enquanto, como democrata e nada tinha de democrata, decide asfixiar Cuba pela fome. Isso que o Trump agora está levando ao extremo, na verdade, foi uma decisão do Kennedy em 1962: ‘Vamos matar os cubanos pela fome, vamos criar um bloqueio de maneira que eles não tenham condições de obter provisões essenciais’. E portanto esse bloqueio dura 67 anos”, afirma.
Com a dependência do petróleo, Trump decide justamente atacar essa frente. “A ilha consome 100 mil barris de petróleo por dia e só consegue produzir de 30 mil a 40 mil. Então há um déficit de 60 mil”, pontua Frei Betto.
Diante desse cenário, a solidariedade de países como México tem sido importantes, mas a ameaça de sanções pode brecar essas iniciativas. “A presidente do México [Cláudia Sheinbaum], que é um exemplo de solidariedade à Cuba e tem enviado vários navios com suprimentos, sejam insumos médicos, medicamentos e alimentos, declarou que não poderia prosseguir no envio de petróleo, porque o México não suportaria um aumento de tarifa por parte dos Estados Unidos”.
Frei Betto também comenta sobre as ações de ajuda do Brasil e os limites delas. “O Brasil tem sido extremamente solidário com fornecimento tanto de alimentos quanto de medicamentos. O governo Lula tem sido extremamente generoso no envio de suprimentos para Cuba. Mas [com relação ao petróleo] temos as mãos amarradas, porque o Fernando Henrique [Cardoso, ex-presidente] privatizou uma parte da Petrobras que hoje é administrada pela bolsa de Nova York”, critica.
O religioso acredita que o povo cubano seguirá resiliente, criando soluções criativas para debelar a crise, como a própria história já mostrou tantas outras vezes. Dois exemplos citados por ele, que esteve duas vezes no país este ano, são carros movidos a carvão e as cozinhas comunitárias.
“Faço um apelo a todos aqueles que nos acompanham nessa entrevista para aumentarem a solidariedade ao povo cubano. O povo cubano merece toda a nossa solidariedade, pelo seu heroísmo, pela sua solidariedade internacional, pela sua determinação de ser um país de promoção da paz e não da guerra, não de agressões terroristas”, conclui.
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