Jesus e a Salvação. Artigo de Faustino Teixeira

José de Madrazo y Agudo : Jesus na casa de Anás (Foto: Wikimedia Commons)

31 Março 2026

"Com Pedro e Paulo, firma-se o cristianismo, agora acentuando a presença redentora de Cristo. Nas epístolas de Pedro, como nas cartas de Paulo, não se fala mais em Jesus, mas no Cristo. E a visão que vem agora professada é a da salvação humana viabilizada pela redenção obtida por Cristo ao morrer na cruz (GC, 448)", escreve Faustino Teixeira, teólogo, professor emérito da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF e colaborador do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Eis o artigo.

Por uma feliz coincidência Luiz Felipe Pondé e eu estamos nos dedicando a trabalhar um tema comum nesses últimos meses. Trata-se do tema de Jesus e o Cristo. Escrevi sobre o tema aproveitando a ocasião de publicação recente de um livro do teólogo italiano, Vito Mancuso, sobre Jesus e o Cristo[1]. O artigo que escrevi foi publicado pelo Instituto Humanitas Unisinos - IHU, em 16 de janeiro de 2026[2]. Por sua vez, Pondé, acaba de ministrar um curso de cinco aulas sobre o tema – “As 4 lentes sobre Jesus” -, que também pude assistir com atenção e zelo. E agora, na semana de Páscoa, o autor publica um artigo na Folha de São Paulo retomando a questão: “Jesus histórico e o Cristo da fé não são a mesma pessoa”[3].

Resolvi então retomar um dos aspectos desenvolvidos no livro de Mancuso envolvendo o tema de Jesus e a salvação. Minha reflexão vem tecida com base na VI Parte do livro de Mancuso sobre Jesus e o Cristo, onde aborda a questão do Cristianismo[4]. É o momento do livro onde o teólogo italiano busca tratar das mudanças provocadas pelo cristianismo nascente na visão de Jesus, agora transformado no Cristo da fé, por obra de Pedro e Paulo.

Na visão professada por Vito Mancuso, com base em estudiosos da tradição hebraica, como Geza Vermes, John Meier e David Flusser, Jesus foi um profeta escatológico- apocalíptico em cujo núcleo de sua mensagem estava a vinda iminente do Reino de Deus. Estava longe de sua intenção a fundação de uma instituição destinada a perdurar nos séculos[5]. Como indicou Geza Vermes, o Jesus que emerge dos evangelhos sinóticos é o de um hebreu que segue com fidelidade a religião de sua tradição. O nazareno não era senão “um pregador galileu itinerante, curandeiro e exorcista, admirado e seguido por muitos”[6]. Não é uma figura sobrenatural ou etérea, mas “alguém firmemente plantado em nosso universo de homens”[7]. Sua deificação formal veio firmada no Concílio de Nicéia, em 325 DEC[8] .

"Gesú e Cristo", de Vito Mancuso (2025).

Todos estamos hoje familiarizados com a ideia de que o núcleo da mensagem de Jesus é o Reino de Deus, e que ele entendia o reino como uma ação historicamente concreta, em profunda sintonia com a tradição profética (GC, 166). Trata-se de uma visão consagrada na perspetiva teológica contemporânea, e também retomada na teologia da libertação.

Com Pedro e Paulo, firma-se o cristianismo, agora acentuando a presença redentora de Cristo. Nas epístolas de Pedro, como nas cartas de Paulo, não se fala mais em Jesus, mas no Cristo. E a visão que vem agora professada é a da salvação humana viabilizada pela redenção obtida por Cristo ao morrer na cruz (GC, 448). É o que podemos igualmente observar na Primeira Carta aos Coríntios: “Cristo morreu por nossos pecados” (1 Cor 15,3). A cruz firma-se agora como símbolo fundamental, como expressão da vitória definitiva sobre a morte. O traço da vitória definitiva sobre a morte não é dado pela ressurreição, mas pela cruz que vence o pecado (GC, 450).

Na ética do jesuanismo, o passo da salvação estava firmado no exercício do bem. A expressão mais viva dessa ideia podemos encontrar na clássica passagem do evangelho de Mateus, no capítulo 25, que trata do grande julgamento. O critério essencial para a dinâmica da salvação encontra-se no exercício agápico: “Tive fome e me destes de comer. Tive sede e me destes de beber. Era forasteiro e me recolhestes. Estive nu e me vestistes, doente e me visitastes, preso e viestes ver-me” (Mt 25, 35-36). Isso foi muito bem captado pelo papa Francisco, numa singular entrevista concedida por ele ao amigo Eugenio Scalfari, em julho de 2013. Ele sublinhou que o único caminho indicado para o acesso à salvação e as bem-aventuranças se dá mediante o ágape[9].

Como apontou Mancuso, o Jesus histórico vem marcado por um traço de pelagianismo, na medida em que pontua a riqueza e singularidade da consciência humana em promover e atuar o bem. Nesse sentido, a grandeza do ser humano está também no exercício do livre arbítrio que acompanha a busca pessoal em favor do bem (GC, 556-568; 457-458). Um dos grandes adversários de Pelágio, o clássico monge britânico, foi Agostinho, que em contraste com sua posição, defendeu ardentemente o passo absoluto da graça para a salvação. No XV Sínodo de Cartago, iniciado em maio de 418, a tese pelagiana vem condenada. No primeiro cânone do Decreto sobre a Justificação do Concílio de Trento (1547), se diz claramente: “Se alguém disser que o homem pode ser justificado diante de Deus por suas obras feitas mediante as forças da natureza humana (...), sem a graça divina que lhe é dada por Cristo Jesus: seja anátema”[10].

Retomando a lógica que marcou o cristianismo primitivo, entendemos que com os escritos de Pedro e Paulo o Reino de Deus perde a sua centralidade, e ocorre também uma progressiva desjejuanização (GC, 474). Para Paulo, por exemplo, o que deveras conta é o Cristo da fé: “Nós, porém, anunciamos Cristo crucificado” (1 Cor 1,23). E o Cristo de Paulo tem, na verdade, pouco a ver com o Jesus histórico, mas com um ser pré-existente, que também vem indicado por João no prólogo do seu evangelho (GC, 479)[11].

Com Paulo firma-se uma outra soteriologia, distinta daquela hebraica. O que prevalece agora não é mais a observância da Torah, mas a redenção obtida por meio da cruz de Cristo (GC, 490). No centro agora está a cruz. É com a morte de Cristo na cruz que se dá o cumprimento da história salvífica de Deus com a humanidade. É assim que vai se firmando no cristianismo uma perspectiva amartiocêntrica, bem distinta da perspectiva agaptocêntrica de Jesus (GC, 537-540). Enquanto para Jesus o que existem são os pecadores, para Paulo, o dado nevrálgico é o pecado. É nessa que vai o passo da Primeira Carta a Timóteo: “Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores” (1 Tm 1,15).

Firmou-se também no cristianismo a ideia de que a razão mesma da vinda de Cristo ao mundo foi no sentido da redenção do pecado. É o que vemos em Tomás de Aquino, ou no texto da liturgia pascal, sobre a “Felix Culpa”, ou seja, a feliz culpa que favoreceu o merecimento de um grande redentor (GC, 534). Nesse sentido, poderíamos dizer que sem a presença da culpa não haveria necessidade de um redentor. Em linha distinta de reflexão temos a presença singular da teologia de Duns Scoto, desbravando outro rumo, mais bonito, para o significado da presença de Jesus Cristo entre os humanos. Para ele, o dado da encarnação não poderia ser movido por um finalidade específica, mas foi algo gratuito e livre. A grande obra de Deus, diz o mestre franciscano, não pode ser reduzida a um determinado propósito (GC, 536-537).

Há uma bela passagem de Isaque de Nínive, monge do século VII, onde ele aborda a razão para a vinda de Cristo ao mundo. A seu ver, haveria uma única causa para a vinda de Cristo no tempo: o “anúncio do grande amor de Deus”. Em verdade, a morte de Jesus não ocorreu em função de uma razão específica, de remissão dos pecados, mas por algo diverso: um canal de abertura para a percepção do esplêndido amor de Deus por toda a sua criação (GC, 533).

Para concluir, gostaria aqui de retornar ao artigo de Luiz Felipe Pondé, na Folha de São Paulo (30/03/2026) sobre Jesus e Cristo. Ele conclui o seu artigo, sintonizando-se com a visão de Joseph Ratzinger presente em seu livro sobre Jesus de Nazaré. Para Pondé, com base em Ratzinger, o Jesus sem o Cristo não teria a importância que alcançou em nosso tempo. Sua mensagem não teria o alcance encontrada hoje, mas seria somente uma “mera heresia judaica, condenada a desaparecer por conta da morte de seu profeta”. Não há como prever o que poderia ocorrer, mas acho igualmente difícil concluir que a sua presença no tempo não traria um significado preciso e profundo para a dinâmica da humanidade. Eu penso que aquilo que mais encantou a humanidade, e continua reverberando no tempo, não é o Jesus metaficizado, “consubstancial ao Pai”, mas o Jesus que viveu entre nós, que habitou nossa aldeia, que atuou amorosamente e profeticamente, testemunhado com radicalidade o amor do Pai. Foi esse Jesus histórico que deixou para nós uma memória que nos encanta e provoca. Como diz belamente José Antonio Pagola, que escreveu um dos mais belos livros sobre o Jesus histórico, “é difícil aproximar-se dele e não se sentir atraído por sua pessoa. Jesus traz um horizonte diferente para a vida, uma dimensão mais profunda, uma verdade mais essencial. Sua vida converte-se num chamado a viver a existência a partir de sua raiz última, que é um Deus que só quer para seus filhos e filhas uma vida mais digna e feliz”[12].

Notas

[1] Vito Mancuso. Gesù e Cristo. Milano: Garzanti, 2025.

[2] Uma espiritualidade jesuânica em sintonia com os desafios do tempo. Artigo de Faustino Teixeira (acesso em 30/03/2026).

[3] Luiz Felipe Pondé Folha de S. Paulo (acesso em 30/03/2026).

[4] Vito Mancuso. Gesù e Cristo: a partir da página 429.

[5] Vito Mancuso. Gesù e Cristo, p. 432. Essa obra será sempre siglado no texto como GC.

[6] Geza Vermes. As várias faces de Jesus. Rio de Janeiro/São Paulo: Record, 2006, p. 246; James Dunn. Gli albori del cristianesimo. La memoria di Gesù 3. L´acme della missione di Gesù. Brescia: Paideia, 2007, p. 938.

[7] Ibidem, p. 246.

[8] Depois da Era Comum.

[9] Papa Francesco & Eugenio Scalfari. Dialogo tra credenti e non credenti. Torino: Einaldi/La Repubblica, 2013, p. 56.

[10] Denzinger-Hunermannn. Compêndio de símbolos, definições e declarações de fé e moral. São Paulo: Paulinas/Loyola, 2007, p. 411 (DH 1551).

[11] Veja também a respeito, o precioso livro de Karl-Josef Kuschel. Gerado antes de todos os séculos ? As controvérsias sobre a origem do Cristo (só editado na Itália, pela editora Queriniana).

[12] José Antonio Pagola. Jesus, aproximação histórica. Petrópolis: Vozes, 2010, p. 22.

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