24 Março 2026
É preciso paciência, mas não se pode ficar eternamente à espera. É assim que se sentem muitos membros da Igreja Católica relativamente ao papel das mulheres na Igreja, inclusivamente membros da hierarquia.
A reportagem é publicada por 7Margens, 22-03-2026.
O arcebispo de Luxemburgo, o cardeal Jean-Claude Hollerich, que foi relator-geral do Sínodo sobre a Sinodalidade, voltou ao assunto numa intervenção que fez na última quinta-feira, 19, numa universidade de Bonn, na Alemanha, afirmando: “Não consigo imaginar como é que uma Igreja pode continuar a existir a longo prazo se metade do povo de Deus sofre por não ter acesso ao ministério ordenado.”
A percepção de que as mulheres são discriminadas não só fora, mas também no interior da Igreja, e que algumas estão mesmo a deixar a instituição por causa dessa discriminação, foi reconhecida no recente relatório publicado sobre a matéria pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, ainda na sequência do último Sínodo.
O cardeal sublinhou um aspecto que já anteriormente reconhecera: que ele próprio já teve uma posição mais conservadora sobre essa questão, mas que mudou de ideia. “Como bispo, também aprendi que essa não é apenas uma exigência das associações feministas de esquerda”, observou.
“Quando converso com as mulheres nas paróquias, 90% delas compartilham a mesma opinião”, pelo que os bispos também devem levar isso em consideração, afirma o responsável da Igreja Católica no Luxemburgo, país em que os portugueses são a maior comunidade estrangeira – 13,5 por cento dos quase 700 mil habitantes.
O arcebispo Hollerich disse, no entanto, que a questão da ordenação de mulheres é vista, noutras culturas, como um problema inexistente, o que “também não pode deixar de ser tido em conta”. Por isso, o hierarca pediu paciência, já que vai ser necessário tempo e o debate não está concluído.
Preocupado também com os ministérios das mulheres está o bispo de Antuérpia (Bélgica), Johan Bonny, conforme se pode ler na carta pastoral que divulgou no mesmo dia de quinta-feira, 19, dedicada ao processo sinodal na sua diocese.
Reconhecendo que “o acesso das mulheres ao sacramento da ordenação é uma questão difícil que não cabe ao bispo decidir”, ele anuncia que quer dar “novos passos no desenvolvimento de um ministério eclesial que seja igualmente acessível a homens e mulheres, e que lhes dê uma participação igual” no serviço pastoral e administrativo da Igreja, na função de pastores, um termo de uso comum na Flandres.
Contudo, a decisão mais polêmica anunciada pelo bispo Bonny, na carta referida, foi de que “quer ordenar como presbíteros homens casados até 2028”, na sequência do desenvolvimento da sinodalidade e do inerente discernimento no interior da Igreja.
Essa possibilidade foi debatida no sínodo sobre sinodalidade, mas não adotada nas suas conclusões e, salienta a página dos católicos belgas, é suscetível de levantar problemas em Roma.
O bispo explica a sua posição: “Quando visito paróquias ou unidades pastorais, encontro regularmente pessoas que a comunidade aceitaria como bons padres. Eu mesmo conheço muitos colaboradores que seriam bastante adequados para se tornarem padres. Por essas razões, farei tudo o que for possível para ordenar até 2028 alguns homens casados como padres para a nossa diocese.”
Para que não fiquem dúvidas de que não se trata de mero desejo, ele acrescenta que vai contatá-los pessoalmente e “garantirá que, até lá, eles tenham a formação teológica e a experiência pastoral necessárias, comparáveis às de outros candidatos ao sacerdócio. Essa preparação será feita de forma transparente, porém discreta, fora dos olhos dos focos mediáticos.”
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