Conferência de Mulheres e Dissidências da Abya Yala ao Kurdistão reuniu em Bogotá uma massa crítica de pensadoras e militantes por um outro mundo possível. A mensagem é clara: só a integração das lutas feministas frear e reverter a nova crise mundial.
O artigo é de Chryslen Mayra e Beatriz de Tullio P. Ramos, publicado por Jacobin, 18-03-2026.
Chryslen Mayra é mestra e doutoranda em Antropologia pela UNICAMP e integra o Colectivo de Estudios Latinoamericanos de Barcelona (CELAB).
Beatriz de Tullio P. Ramos é doutoranda (Sociologia – UNICAMP) e pesquisa sobre o Movimento de Mulheres Kurdas, com foco na imaginação política e sociologia das ideias. Membra do Núcleo de Pesquisas Interdisciplinares de Estudos Curdos (NUPIEC).
"Floresceremos porque a guerra não pode destruir nossas raízes” foi o título da Conferência de Mulheres e Dissidências da Abya Yala ao Kurdistão, construída pela Rede Mulheres Tecendo o Futuro (Network Women Weaving the Future). A Rede é uma iniciativa do Movimento de Mulheres Kurdas, que pela primeira vez realizou uma conferência na Abya Yala, dando continuidade a um processo histórico iniciado em 2018, na conferência de Frankfurt, e aprofundado em 2022, na de Berlim. O encontro ocorreu em Bogotá, Colômbia, entre os dias 11 e 15 de fevereiro e contou com a presença de mais de 400 delegadas de diversos territórios da nossa região, além de companheiras kurdas. Durante cinco dias, realizamos debates, plenárias, mesas de diálogo e atividades culturais que articularam experiências de luta, memória e construção política.
Os diálogos, conduzidos a partir de uma metodologia democrática e plural, foram acompanhados por uma equipe de intérpretes, garantindo que pudéssemos dialogar entre as línguas comuns ali presentes: kurdo, espanhol, português e inglês; além disso, muitas companheiras indígenas expressavam-se em suas línguas maternas, apoiando-nos com a tradução. Mais do que uma tradução técnica, tratou-se de um exercício político de reconhecimento: afirmar que nossas palavras, vindas de diferentes territórios e cosmovisões, têm lugar e legitimidade na construção coletiva de futuros possíveis.
Escutamos companheiras de origem Nasa, Aymara, Garífuna, Quechua, Quilombola, Kurda, além de mulheres e dissidências provenientes de múltiplos territórios, camponeses e urbanos, marcados pela presença de empresas extrativistas, pela memória de pessoas desaparecidas, lideranças assassinadas e feminicídios. Ao compartilharem suas trajetórias e histórias, elas evidenciaram que, apesar das distâncias geográficas, enfrentamos estruturas comuns de violência e dominação – além de partilharmos estratégias coletivas de cuidado, resistência e construção de autonomias. As violências compartilhadas nessa conferência são marcas de um mesmo sistema patriarcal-capitalista-colonial, de uma guerra que ataca nossos corpos e nossos territórios como se fossem zonas de saqueio.
O evento foi organizado ao longo de cinco dias, articulando diferentes formatos de encontro e construção coletiva. Nos primeiros dois dias, realizamos atividades de abertura, apresentações artísticas e rituais, além de escutar as falas de companheiras de distintos territórios, que compartilharam as lutas que atravessam seus povos e suas comunidades. No terceiro dia, nos dividimos em oito oficinas temáticas: “economia”, “saúde”, “cultura”, “educação”, “comunicação e meios livres”, “autodefesa do corpo-território”, “organização do Confederalismo Democrático de Mulheres” e “jineolojî e métodos de sabedoria para a liberdade”. Esses espaços foram conduzidos por meio de metodologias participativas, garantindo que todas as companheiras tivessem voz para expor críticas, experiências e propostas. O objetivo não era necessariamente alcançar consensos, mas identificar convergências, tensionamentos e possibilidades de articulação que ultrapassassem os limites da Conferência e se desdobrassem em nossos próprios territórios.
Nos últimos dias, as devolutivas das oficinas e a plenária final deram visibilidade às múltiplas posições presentes. Emergiram críticas, diferenças estratégicas e debates profundos, evidenciando que nosso caminho não será homogêneo. A democracia que defendemos não se constrói pela uniformidade, mas pela capacidade de sustentar discordâncias, escutar divergências e, ainda assim, permanecer em aliança na construção de horizontes comuns antipatriarcais e anticapitalistas.
No palco principal, éramos acompanhadas pelas imagens de Rosa Luxemburgo, Sakine Cansiz, Berta Cáceres e Alina Sánchez, conhecida como Legerin Ciya. Os sorrisos dessas mulheres, vindas de distintos territórios – da Abya Yala, da Europa e do Kurdistão –, flamejavam sobre nós como presenças vivas junto com os de outras mártires que ocupavam o salão. Não eram apenas retratos: eram memórias insurgentes que atravessavam o encontro e se entrelaçavam no tecido coletivo que ali construíamos; entre essas memórias estavam as de Marielle Franco e Mãe Bernadete. No chão do palco, elementos de diferentes territórios compunham um altar plural: nossas bandeiras, oferendas às nossas protetoras – que também se reuniam ali como nós –, velas acesas, imagens das mártires, flores e espigas e grãos de milho de cores diversas. Cada objeto carregava uma história, uma geografia, uma luta. Aquele espaço não era apenas cenário, mas expressão material de um tecido: diferenças em diálogo, territórios em aliança, espiritualidades e projetos políticos entrelaçados na construção de uma sociedade mais livre e mais justa.
Nesse contexto, evocamos a metáfora do movimento kurdo que apresenta a história como um rio de dois leitos: em um corre a história oficial, escrita pelos Estados, pelo capital e pela dominação patriarcal; no outro, fluem as resistências dos povos, das mulheres e das comunidades que insistem em existir. Se somos atingidas pela corrente da violência, também somos parte desse outro curso comunitário, libertário e que evoca as nossas memórias coletivas de organização e sustentação da vida.
A Conferência contou, também, com uma comissão de infâncias, responsável por organizar espaços dedicados às diversas crianças que compunham aquele local junto às suas mães. Mais do que um espaço de cuidado, essa comissão afirmava uma dimensão política: as infâncias não estavam à margem do encontro, mas integravam o tecido coletivo que ali se constituía. A organização dessa comissão possibilitou que as mães participassem ativamente dos debates, oficinas e plenárias, ao mesmo tempo em que as crianças tinham ambientes seguros, lúdicos e acolhedores. Em alguns momentos, as infâncias também circularam pelos espaços de discussão, lembrando-nos concretamente que elas também são sujeitos das transformações que estamos construindo.
Sabemos que muitas mulheres lutam e maternam simultaneamente, e que essa dupla jornada é atravessada por desigualdades estruturais. Por isso, é responsabilidade dos espaços de luta criar condições materiais e políticas para que as mães possam participar plenamente, garantindo lugares seguros e dignos para as infâncias. Cuidar das crianças, nesse contexto, não é um gesto secundário: é parte constitutiva do projeto de transformação que defendemos em todas as nossas organizações, como enfatizou uma companheira militante e mãe na última plenária.
Estiveram presentes mulheres de diversos territórios rurais e urbanos do Brasil e da região, amparadas por companheiras que, embora não tenham conseguido chegar à Conferência, sustentam e constroem cotidianamente essas lutas coletivas. Vindas de movimentos de ocupação, sindicatos, organizações populares, comunidades indígenas e quilombos, levamos as especificidades dos nossos territórios aos debates, articulando denúncias, experiências de organização e estratégias de resistência.
Edna Paixão, da organização de mulheres da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq), destacou a importância política do encontro: “a Conferência de Mulheres da Abya Yala ao Kurdistão teve um significado muito importante para nós mulheres quilombolas, que estivemos compartilhando com diversos territórios, saberes e experiências. A mensagem que eu levo para o meu território é que precisamos estar atentas às lutas feministas ao redor do mundo, porque acredito que a integração das lutas é o que vai fazer com que nós, enquanto mulheres, possamos lutar pelo mesmo objetivo”. Sua fala sintetiza um dos principais sentidos do encontro: fortalecer alianças entre territórios, reconhecendo que, embora nossas realidades, nossas cores e experiências sejam múltiplas, os sistemas que nos oprimem se articulam globalmente e, portanto, também exige de nós respostas articuladas e coletivas.
A participação de companheiras de diversos territórios indígenas da Abya Yala é uma das grandes potências desta Conferência. Elas colocam no centro do debate a relação entre corpo e território vivida em suas comunidades. Uma representante do Conselho Regional Indígena do Cauca (Cric) enfatizou a necessidade de superar a visão da terra como “recurso”. Segundo ela, a lógica de “a terra é para quem a trabalhe” reforça perspectivas materialistas e estritamente classistas que não correspondem às realidades dos povos indígenas. Para esses povos, montanhas, rios, florestas e todos os seres que compõem o mundo formam um entramado complexo de relações sociais e espirituais, relações que precisam ser consideradas nos espaços de luta e transformação. Esta companheira sustentou, ainda, que “não basta recuperar um pedaço de terra, é necessário curá-la” por meio de uma relação diferencial com o território, não extrativista e mais plural.
Compreendido como um processo de descolonização da natureza, esse posicionamento coloca nossas agendas políticas em outro registro: não se trata de lutar por recursos ou matérias-primas, mas de afirmar uma relação viva com o mundo. Nesse contexto, muitos dos conhecimentos e das práticas de manutenção e cura da vida estão nas mãos das mulheres indígenas. A partir destas intervenções, uma das pautas centrais do movimento kurdo, a “ecologia”, é colocada em outro patamar: a “natureza” é um sujeito – e não objeto – da nossa transformação.
A Conferência aprofundou, também, o intercâmbio de informações e análises sobre processos em territórios que hoje enfrentam, de maneira mais intensa, situações de genocídio. Este é o caso do Kurdistão, mas também da Palestina. Companheiras da Aliança Nada – articulação que reúne mulheres da esquerda palestina da Cisjordânia e da Faixa de Gaza – encaminharam uma carta à Conferência, enfatizando a gravidade do momento histórico vivido pelo povo palestino nos últimos anos. No documento, afirmam: “não há libertação feminista sem derrubar o sistema imperialista global; não há feminismo sem Palestina; e não há justiça social nem valores humanos na presença do sistema de apartheid que representa a ocupação sionista”.
A companheira Mariana Conti, vereadora da cidade de Campinas, integrante da Global Sumud Flotilla e militante do Movimento de Esquerda Socialista (PSOL), também fez parte da Conferência em Bogotá. Ela ressaltou a importância de dar visibilidade às lutas e às violências que atravessam esses territórios: “aprofundar a solidariedade internacional dos povos é uma necessidade frente à intensificação que nós estamos vivendo do capitalismo imperialista, colonial, militarizado que tem imposto genocídios, violência, exploração e espoliação sobre os povos do mundo. (…) este também é o espírito do internacionalismo que tem guiado o movimento de mulheres e a Conferência Internacional de Mulheres da Abya Yala ao Kurdistão, porque este imperialismo é patriarcal, ele ataca as mulheres, ataca os seus filhos, ataca as suas raízes”.
A articulação entre as lutas e a ampliação da visibilidade sobre guerras e genocídios em distintos territórios evidenciam um princípio que atravessou toda a Conferência: nenhuma libertação é isolada. A liberdade de uma depende da liberdade de todas.
A terceira Conferência da Rede Mulheres Tecendo o Futuro ocorreu em um momento crítico e urgente do território de Rojava – região autônoma no Norte da Síria. Desde a queda do governo de Bashar Al Assad, a mídia ocidental cumpre um papel decisivo na limpeza de imagem do novo presidente sírio, Ahmed al-Sharaa, cuja ex-organização, Al-Nusra, era afiliada à Al Qaeda até 2016. O início de seu governo na Síria foi marcado pela perseguição e assassinato de minorias étnicas como drusos e alauítas.
No dia 6 de janeiro de 2026, o novo governo sírio lançou uma ofensiva sobre bairros kurdos em Aleppo, marcando a história recente de Rojava. Imagens de combatentes kurdas sendo arremessadas mortas de prédios e tendo suas tranças cortadas circularam nas redes sociais e evidenciaram o caráter ideológico dos ataques. Não demorou para que grandes jornais e alguns pesquisadores anunciassem “o fim de Rojava”, devido à perda significativa de territórios e ao novo acordo firmado entre o governo sírio e as forças kurdas.
A presença de mulheres do movimento de libertação kurdo na Conferência em Bogotá, no entanto, nos apresenta um outro cenário. É claro que a diminuição do território e alguns pontos do novo acordo, como a integração das Forças de Defesa ao exército sírio, compõem um cenário de perdas. Mas anunciar o fim do projeto autônomo é precipitado e, além do mais, opera como um mecanismo de deslegitimação política. A Conferência deixou evidente a continuada articulação e organização do movimento kurdo, sobretudo do movimento de mulheres kurdas, que ainda mantém força política e esperança: “Rojava continua lá e, veja, nós continuamos aqui”, afirmou uma mulher do movimento kurdo, presente na Conferência.
Reconhecer os esforços e a continuidade organizativa do movimento de libertação kurdo não significa, por outro lado, salvar a luta por meio da palavra; mas é necessário não cair na tentação de análises não ruminadas, e compreender que disputar a narrativa é parte da luta travada contra o poder.
Estamos diante de um momento crucial – não apenas conjuntural, mas revelador de uma dinâmica mais ampla – que se repete em diferentes territórios: o enfrentamento a uma História que tende a registrar apenas as derrotas e a fragmentar as trajetórias dos povos e movimentos em luta. Nas palavras de uma mulher zapatista presente na Conferência: “a história é agora, e nós devemos contá-la”.
Como uma Conferência radicalmente democrática, as discordâncias e contradições também estiveram presentes. Entre essas discordâncias, destacam-se as dissonantes perspectivas no ato de nomear. Durante a oficina temática de jineolojî, por exemplo, houve relutância em chamar a produção de conhecimento ancestral na Abya Yala por esse mesmo nome, originário no movimento kurdo.
As conversas convergiam durante toda a descrição e explicação do significado de jineolojî – ciência das mulheres e da vida, em kurdo. Mas, no momento de nomear o que estava sendo feito, mulheres pertencentes a povos, territórios e movimentos sociais diversos resistiram à adoção do termo kurdo, reivindicando o direito de formular uma nomeação própria – ainda que não soubessem qual seria. Essa ocorrência evidencia dois aspectos relevantes: primeiro, a centralidade e importância do ato de nomear; segundo, que não se tratava de uma divergência política propriamente dita, mas da expressão de uma pluralidade de ideias, cosmologias, rituais e histórias.
Outro exemplo disso foi a oficina de Confederalismo Democrático. As participantes podiam concordar na necessidade de um sistema comunalista, horizontal, ecológico e que tivesse como princípio incontornável a libertação das mulheres e dos povos. Mas nomeá-lo “democrático” gerava discordância e disputa. Muitas mulheres da Abya Yala apontaram que a noção de “democracia” compõe a gramática do poder, sendo utilizada em políticas que geram desigualdade, perda de direitos e violência. Já para as mulheres kurdas, a palavra “democracia” atingiu um contexto próprio e histórico interno ao movimento. Nessa perspectiva, o termo se desloca para o campo da crítica ao Estado – argumentando-se que um Estado não pode ser democrático – e passa a ser capaz de dar sentido às experiências políticas e sociais de Rojava por meio de sua reformulação histórica interna.
De todo modo, a carta final da Conferência, redigida em conjunto por mulheres diversas e ampliada por meio de uma reunião coletiva realizada no último dia, demonstra que as divergências e disputas do nomear compõem uma política internacionalista radical; o local e o global se entrelaçam, encontrando possibilidades múltiplas de ação, mas ainda capazes de encontrar uma agenda política comum. Nesse sentido, em vez de dividir, a multiplicidade de ideias e diferenças de pensamentos deram força à Conferência. Como disse uma das participantes: “são os Estados que homogeneizam a opinião”.
Depois de diferentes gritos de guerra, discordâncias, debates, oferendas para as entes protetoras, performances e esperança, a Conferência foi finalizada, no dia 15 de fevereiro. Como fruto de uma preocupação sempre presente de transformar a palavra em ação, foi escrito um manifesto que acompanha uma agenda comum de tarefas e atividades futuras. Muitas sugestões e ideias foram ouvidas, como a criação de um arquivo de sementes, fotos e outros registros possíveis que ajudem os povos a conhecer suas próprias histórias, e também ações conjuntas nas ruas e a criação de uma escola de saberes ancestrais.
O espaço rico em trocas de experiências, saberes, conhecimentos, tradições e rituais manteve vivo o espírito da Conferência: o internacionalismo. Apesar das divergências, discordâncias e da pluralidade de trajetórias e histórias, as participantes encontraram com relativa facilidade um ponto de convergência para construção de uma agenda política comum. Também houve consenso quanto ao problema fundamental que produz violência contra as mulheres nos mais diversos territórios. Elas o nomeiam de forma direta: sistema patriarcal-capitalista-colonial.
Enquanto o Estado busca homogeneizar a nação por meio da violência física e simbólica – como enfatizado pela história do povo kurdo e de diversos povos indígenas, camponeses e afrodescendentes da Abya Yala ali presentes –, as mulheres da Conferência veem em sua diversidade justamente a capacidade de prosperar: “nossa força é a diferença”, afirmou uma participante.
Nesse encontro, as alianças políticas internacionalistas Sul-Sul constroem-se não apesar das diferenças, mas por meio delas. O que conforma um terreno comum não é a homogeneidade, e sim a experiência compartilhada da violência que tenta acinzentar as cores das mulheres e dos povos – para retomar uma metáfora recorrente na Conferência. É essa tentativa de apagamento que atravessa contextos distintos e estabelece um horizonte comum de luta. Ao mesmo tempo, a convicção de que outro mundo é possível também sustenta e projeta essas alianças para além da denúncia, como prática concreta de construção do comum.
Ao finalizar o encontro, no dia 15 de fevereiro, diversas mulheres evocaram seus mártires, dando concretude e continuidade às suas histórias de luta. Foram rememorados irmãos, irmãs, filhos, filhas, companheiros e companheiras. As mártires nas paredes foram nomeadas, e pessoas desaparecidas e presos políticos foram parte da demanda por justiça. Entre eles, recordou-se o marco de 27 anos do complô internacional que levou à prisão de Abdullah Öcalan, importante figura política do movimento de libertação kurdo, bem como os 8 anos do assassinato de Marielle Franco e os 12 anos do assassinato de Sakine Cansız. Suas memórias, assim como as de tantas outras mulheres e homens nomeados naquele encerramento, não foram mobilizadas como um gesto simbólico isolado, mas como afirmação de continuidade histórica. Ao inscrever as lutas em uma genealogia comum de resistências, a Conferência reafirmou que o internacionalismo ali construído não é abstração nem retórica: ele se enraíza em histórias concretas de violência e insurgência, e se projeta como compromisso compartilhado de transformação. Se o patriarcado-capitalista-colonial opera por fragmentação e apagamento, as mulheres reunidas responderam com memória, afetos, organização e ação coletiva – fazendo da diferença não obstáculo, mas fundamento de um comum insurgente.