Como o ataque de Trump, Putin e Netanyahu mergulha o mundo na lei da selva

Foto: Daniel Torok/ White House | Fotos Públicas

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09 Março 2026

A ordem multilateral baseada em regras, que apresentou pequenos avanços após o fim da Guerra Fria, está ruindo sob uma ofensiva feroz de várias partes.

A reportagem é de Andrea Rizzi, publicada por El País, 08-03-2026.

O mundo está afundando rapidamente no abismo da lei da selva, um estado selvagem onde regras compartilhadas se evaporam, instituições comuns se tornam totalmente irrelevantes e apenas a força importa, sendo usada com crescente descaramento. O planeta nunca foi um mar de rosas, mas nas décadas que se seguiram ao fim da Guerra Fria, alguns elementos de contenção estão sendo destruídos pelas ações desenfreadas de figuras como Donald Trump, Vladimir Putin e Benjamin Netanyahu — entre outros —, produzindo um retorno à brutalidade que remete a épocas passadas.

A guerra lançada pelos Estados Unidos e Israel contra o regime iraniano é o mais recente choque nesse processo de deterioração. Uma comparação com outras guerras americanas na região é esclarecedora. A Guerra do Golfo de 1990 foi uma operação legal, sancionada pelo Conselho de Segurança da ONU. A invasão do Iraque em 2003 foi uma operação ilegal, mas vale a pena lembrar, como destaca Manuel Muñiz, reitor da IE University, em uma conversa telefônica, o esforço que — ainda que por meio de mentiras vergonhosas — os atacantes fizeram para obter respaldo legal. Hoje, Trump e Netanyahu demonstram total desprezo pelo direito e pelas instituições internacionais; eles sequer se dão ao trabalho de tentar convencer alguém com provas fabricadas.

Entretanto, Putin não só está invadindo ilegalmente um país — como aconteceu com os EUA no Iraque — mas também está cruzando a linha vermelha ao buscar a anexação da Ucrânia, uma terrível caixa de Pandora. O horror da ação israelense contra Gaza, uma punição coletiva indescritível sem possibilidade de fuga para os civis, agrava o quadro de decadência liderado por aqueles que detêm o poder militar. Outra comparação histórica, destacada por Jeremy Cliffe, diretor editorial do think tank ECFR, também ilustra a deterioração: a diferença abissal na atenção internacional dada à crise em Darfur (Sudão) no início do século — com envolvimento significativo da ONU e das forças de paz — e a indiferença e impotência em torno da situação atual.

Esses são lampejos de luz que iluminam uma era em transformação. A anterior foi marcada por abusos e crimes hediondos, do genocídio em Ruanda às guerras no Congo e nos Balcãs. Mas também foi um período em que instituições, normas e processos multilaterais foram estabelecidos ou fortalecidos, como a OMC (Organização Mundial do Comércio), o Tribunal Penal Internacional e o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas.

A potência hegemônica, os EUA, cometeu graves abusos durante esse período, mas adotou uma postura mais contida em vários aspectos em comparação com épocas anteriores — e com o presente. Ao mesmo tempo, assumiu certas responsabilidades, fornecendo alguns bens globais estabilizadores e construindo estruturas multilaterais. Isso não se deu por generosidade, mas porque considerou ser do seu próprio interesse, e assim o fez. Não mais.

Muñiz, que também é professor de Relações Internacionais e ex-secretário de Estado espanhol para Assuntos Exteriores, destaca que o mundo está retornando a uma triste normalidade. “O que tem sido anômalo, atípico, são os últimos 30 anos de hiperglobalização, forte integração em muitos setores no âmbito internacional, mobilidade extremamente alta de pessoas entre países, um compromisso muito forte com a ordem multilateral e a expansão de seus poderes e funções. Isso é atípico na história das relações internacionais; a norma é um mundo mais fragmentado, mais atomizado, mais multipolar, mais desordenado”, afirma Muñiz.

O reitor da IE University acredita que, entre todas as forças que moldam o novo cenário, duas se destacam.

O primeiro fator é a dinâmica da fragmentação. “Trata-se de uma fragmentação política, refletida no enfraquecimento das alianças, no declínio da confiabilidade das relações bilaterais que existiam até então e no uso mais frequente da força. Mas também é econômica, por meio de tarifas e outros meios. E na esfera multilateral, porque todas as instituições do arcabouço internacional estão sendo enfraquecidas”, afirma Muñiz. O segundo fator predominante apontado por Muñiz é a mudança na posição e na atitude dos Estados Unidos.

Os Estados Unidos ultrapassam fronteiras

A mudança em Washington é fundamental. Há uma dinâmica de longo prazo em jogo, que envolve uma reavaliação dos interesses nacionais americanos à luz da mudança no equilíbrio de poder global, especialmente considerando a ascensão da China. Mas o trumpismo representa não apenas um tremendo acelerador de algumas tendências, como também uma força disruptiva em outras.

O fenômeno é evidente, para além da guerra contra o Irã, e se detecta no sequestro de Nicolás Maduro na Venezuela, no bombardeio de embarcações no Caribe e no Pacífico; na tentativa de demolir instituições internacionais; no fato de contornar o Congresso, seja para lançar guerras militares ou guerras tarifárias; ou no flagrante intervencionismo na política nacional de outros países, seja para apoiar Milei com um resgate na Argentina, seja para “cultivar a resistência interna” à UE, como explicita a recente Estratégia de Segurança Nacional.

A Casa Branca está agindo sem controle, ultrapassando todos os limites na busca de seus interesses, ao mesmo tempo que enfraquece a estrutura democrática interna e o sistema jurídico internacional. "Não se trata apenas de os Estados Unidos estarem abandonando [a ordem anterior], mas de, em alguns casos, estarem ativamente desmantelando-a", afirma Muñiz.

O reitor enfatiza as razões para essa mudança. “O processo de polarização política no mundo ocidental leva à ascensão de forças nos extremos do espectro político, especialmente à direita, que se baseiam basicamente no nacionalismo e na oposição à integração internacional no comércio, nas regras e nas instituições. Há um forte componente antielitista — anti-elitistas políticos, diplomáticos e intelectuais — que foram fundamentais na construção da ordem internacional anterior. Assim, quando essas forças políticas influenciam ou mesmo ditam a política externa, acabam produzindo uma revisão significativa da ordem internacional”, afirma o ex-secretário de Estado.

O projeto de Putin para a Rússia

O desmantelamento promovido por Trump complementa — e por vezes parece coordenar-se com — o empreendido por Putin, tendo a invasão em larga escala da Ucrânia, prevista para começar em 2022, como um importante evento simbólico. O Kremlin atacou o cerne de uma ordem que consagra os princípios da soberania e da integridade territorial, que concebe o uso da força apenas em legítima defesa ou com autorização do Conselho de Segurança, e que coloca os direitos humanos universais no seu cerne. Tudo isto constitui um obstáculo ao projeto de Putin.

“O projeto deles é uma obsessão por restaurar, manter e consolidar o status de grande potência da Rússia, seu lugar de destaque entre as grandes potências”, afirma Carmen Claudín, pesquisadora sênior não residente do think tank CIDOB, especializada no espaço pós-soviético. “Para alcançar esse objetivo, eles estão preparados para usar todos os mecanismos. Na política interna, isso significa a repressão total de qualquer posição dissidente, quanto mais divergente”, observa a especialista. Na política externa, os esforços são direcionados para subjugar os países que Moscou considera parte de sua esfera de influência.

“Essa lógica de restabelecer uma esfera de influência está no cerne do projeto para recuperar o status de grande potência”, continua o especialista. “Quando Putin, Lavrov e outros reclamam que a Rússia não tem sido bem tratada, que não tem recebido o respeito que merece, o que eles querem dizer é que não estão sendo reconhecidos como tendo o direito à sua própria esfera de influência. Na lógica russa, a União Europeia é em si uma esfera de influência, e eles querem a sua própria.

Eles não se importam que os países da UE escolham livremente aderir, enquanto em sua esfera, eles deveriam ser forçados a aderir”, afirma Claudín.

Todas as ações do Kremlin são, portanto, um ataque descarado aos valores fundamentais de uma ordem multilateral baseada em regras. O que Moscou deseja é uma ordem multilateral baseada na força, para que possa usá-la a fim de alcançar o realinhamento internacional que almeja, um realinhamento que não encontra respaldo no direito, visto que a soberania implica a liberdade de escolher a própria política externa, e cada país é livre para escolher se adere a uma organização internacional ou a outra.

Israel, outro ator crucial

O governo israelense é outro ator crucial na crescente onda de brutalidade no mundo. É claro que ele está cercado por atores violentos em um ambiente de alta tensão, repleto de ressentimentos históricos complexos. Não há dúvida de que o ataque do Hamas em outubro de 2023 foi um ato terrorista horrível que justificou uma resposta em legítima defesa. Mas a resposta teve características de excesso para as quais é difícil encontrar paralelos na história moderna.

A questão está nas mãos da justiça internacional. Netanyahu, assim como Putin, é alvo de um mandado de prisão, mas, em mais um sinal da crescente violência e da anarquia que assola o mundo, até mesmo países signatários do Estatuto de Roma, que dá suporte ao Tribunal Penal Internacional, expressaram sua recusa em executar o mandado — como se fosse uma obrigação —, enquanto os EUA perseguem membros do órgão sediado em Haia com sanções.

O governo de Netanyahu bombardeia onde julga apropriado, coloniza onde julga apropriado, oprime e impõe punições coletivas. Seus inimigos regionais são forças caracterizadas por um longo histórico de ações repreensíveis, mas o poder de Israel lhe confere um alcance muito maior em sua capacidade de destruição — de vidas ou da ordem.

O revisionismo da China

Diante dessa situação, os líderes chineses se esforçam para se apresentar como um ator responsável, que não recorre à violência e age como uma força oposta à lei da selva, defendendo, em vez disso, um mundo baseado em regras. Essa autoapresentação é apenas parcialmente verdadeira.

“A China é um país revisionista porque quer mudar a ordem internacional. No entanto, seu revisionismo é cauteloso, não explosivo”, afirma Rafael Dezcallar, embaixador da Espanha na China de 2018 a 2024. “Não é um país muito inclinado a realizar o tipo de operações militares que, por exemplo, Putin ou Trump utilizaram. Portanto, é claro que, diante de exemplos tão extremos, a impressão que a China passa é, de fato, a de um país mais estável e responsável. Mas a China quer mudar a ordem internacional”, conclui Dezcallar.

E a forma como a China quer mudar isso representa uma ruptura com o ideal de um mundo baseado em regras, porque Pequim só quer certos tipos de regras, rejeitando aquelas que têm valor universal e estão ligadas a direitos fundamentais.
“A China quer mudar a ordem, entre outras coisas, porque acredita que ela foi criada quando o Ocidente era muito forte, que o equilíbrio de poder mudou e que agora a China tem mais poder e quer que seus valores e princípios políticos estejam mais presentes na ordem internacional, por exemplo, na questão dos direitos humanos. Ela nega que existam valores universais; pensa que cada país tem o direito de seguir seu próprio caminho”, observa Dezcallar, autor do livro A Ascensão da China (Deusto).

A China também demonstra pouca inclinação para respeitar regras quando estas dificultam a concretização de objetivos estratégicos — sejam normas internacionais relativas ao controle de águas disputadas ou acordos bilaterais sobre o estatuto de Hong Kong. Além disso, embora não ofereça apoio militar declarado, alimenta o ataque brutal de Putin à ordem internacional baseada em regras com ajuda comercial e tecnológica.

“A razão [para esse apoio] é que a Rússia é aliada da China em sua tentativa de mudar a ordem internacional”, continua Dezcallar. “Quando Putin visitou Pequim em fevereiro de 2022, três semanas antes da invasão da Ucrânia, eles assinaram uma declaração bilateral pedindo uma nova ordem internacional diferente, na qual cada país tenha o direito de seguir seu próprio caminho. Rússia e China estão alinhadas em seu desejo de acabar com a ordem internacional baseada em regras, criada em 1945 e 1989, que consideram dominada pelo Ocidente. Novamente, o apoio da China é cauteloso, porque ela não ultrapassou certas linhas vermelhas, não enviou armas e não apoiou abertamente a indústria militar russa, embora muitos acreditem que esteja enviando bens de dupla utilização. Mas, sem dúvida, a China está se beneficiando enormemente da guerra na Ucrânia, e não apenas porque está apoiando alguém que considera um aliado. A guerra na Ucrânia está enfraquecendo os Estados Unidos, especialmente na Europa”, conclui Dezcallar.

A difícil adaptação da Europa

O bloco europeu apresenta-se retoricamente como um grande defensor de uma ordem multilateral baseada em regras. Não há dúvida de que, estrategicamente, isso lhe convém, visto que lhe falta o poderio militar e tecnológico independente para operar com segurança num mundo regido pela lei da selva. Contudo, diversos fatores fizeram com que, em inúmeras ocasiões, o bloco não agisse de acordo com os valores que nominalmente defende. A inação da UE durante o massacre em Gaza valeu-lhe duras críticas em grande parte do mundo.

Jeremy Cliffe, diretor editorial do think tank ECFR, aponta alguns elementos importantes para a compreensão da situação, que pode ser resumida como um difícil caminho de adaptação a uma nova era.

“A UE é fundamentalmente uma construção econômica. Disso decorre um forte respeito pelo multilateralismo econômico, pelos acordos comerciais e assim por diante. Com o tempo, ela vem desenvolvendo um perfil geopolítico, numa tentativa de projetar esse respeito pelas regras na frente da segurança. Ela está evoluindo, mas não foi criada como uma organização para defender a ordem internacional”, afirma Cliffe. Essa realidade complica suas ações nessa área.

Um complexo processo de adaptação a uma nova era também é fundamental para compreender o posicionamento de um país crucial, a Alemanha, que, apesar de professar durante décadas uma verdadeira devoção à ordem internacional baseada em regras, emitiu sinais preocupantes tanto sobre a questão de Gaza quanto sobre a do Irã, com o chanceler Friedrich Merz declarando, nas primeiras horas da ofensiva, que categorizar a ofensiva em termos de direito internacional pouco contribui.

“Em primeiro plano está a questão da identidade da Alemanha, construída sobre as lições do passado e que engloba seu compromisso com o multilateralismo e o direito internacional, bem como seu apoio a Israel. O problema é que Israel mudou muito. E, portanto, esses dois elementos da identidade alemã estão agora em tensão”, afirma Cliffe.

Em segundo plano, o especialista afirma: “Temos que levar em conta que a Alemanha foi, de certa forma, infantilizada geopoliticamente durante suas primeiras décadas e, depois da queda do Muro, houve essa sensação de fim da história. Desde 2022, Berlim vem tentando se adaptar a uma época em que o poder prevalece, a uma era de impunidade, como diz David Miliband. Acho que os comentários de Merz demonstravam uma disposição para se adaptar ao realismo. Mas suas declarações mais recentes mostram que ele está percebendo que apoiar essa guerra como forma de se adaptar ao realismo é um erro.”

Existem outros problemas: a sensação de perigo decorrente da agressividade de Putin impede alguns europeus de se oporem abertamente às ações de Trump nos Estados Unidos, que minam a ordem baseada em regras, porque temem uma perda completa da proteção americana.

Nesse cenário complexo de adaptação, a Europa ainda não é um baluarte eficaz para a defesa de uma ordem multilateral baseada em regras.

Os cinco atores destacados neste relatório se sobressaem por sua importância. É claro que existem outros atores significativos — por exemplo, Índia, Japão e Brasil — que têm o potencial de contribuir substancialmente para a construção de um mundo baseado em regras. No entanto, a grande maioria tem influência limitada e muito a perder em um mundo governado pela força. Reconfigurar os mecanismos de cooperação para que essas capacidades individuais limitadas convirjam em uma frente coletiva é fundamental para moldar o futuro do mundo.

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