Netanyahu eleva a aposta: da energia nuclear à mudança de regime

Foto: Chatham House/Flickr

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02 Março 2026

Ao anunciar a operação “Rugido do Leão”, o ataque conjunto EUA-Israel contra o Irã, descrito por Tel Aviv como “preventivo”, foram as sirenes de alarme que entraram em ação na manhã de ontem, pouco depois das 8h, em todo o Israel e Jerusalém. Ainda não havia ocorrido nenhum lançamento de mísseis ou drones por parte do Irã. Tratava-se apenas de uma comunicação direta à população, que foi então alertada por mensagens de texto enviadas aos celulares para estar preparada e abrir os abrigos. Os alarmes se tornaram reais uma hora e meia depois, quando Teerã respondeu ao ataque lançando duas ondas de mísseis balísticos. Sirenes e estrondos próximos e distantes, quase sempre causados por mísseis interceptores, continuaram até à noite, inclusive em Jerusalém, anunciando uma noite em claro para muitos. As ruas permaneceram quase desertas durante todo o dia, e o Ministro da Defesa declarou estado de emergência. As escolas permanecerão fechadas hoje e amanhã, e muitos órgãos públicos não abrirão. Os hospitais elevaram o nível de alerta, que já estava alto há dias.

A informação é de Michele Giorgio, publicada por il manifesto, 01-03-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Não está claro quantos dos aproximadamente 150 mísseis balísticos e dezenas de drones lançados pelo Irã conseguiram ultrapassar as defesas aéreas de Israel. Os serviços de saúde relataram 94 feridos, entre os quais um menino, quase todos com ferimentos leves. Em junho passado, durante a chamada Guerra dos Doze Dias — também iniciada "preventivamente" por Israel — o Irã conseguiu atingir Tel Aviv e outras cidades e lugarejos, causando 30 mortes e danos materiais. Desta vez, empenhado em atacar as bases militares estadunidenses em todo o Golfo, pode não conseguir infligir danos significativos ao seu principal inimigo. Mas é cedo demais para fazer previsões.

Em Tel Aviv, muitas pessoas foram à praia ontem, apesar das sirenes de alerta. Elas, como o resto da população judaica, aprovavam a guerra contra o Irã, almejada por vinte anos e finalmente concretizada por Benjamin Netanyahu. Uma pesquisa do jornal Maariv, realizada três dias antes, mostrou que 59% dos israelenses são a favor do ataque a Teerã e decepcionados com as hesitações de Trump. "Essa é a mais justa das guerras que Israel já travou. E os estadunidenses estão conosco", declarou uma mulher. Outros falaram de uma "guerra a favor dos iranianos, por sua libertação", como se Israel tivesse entrado na guerra por camaradagem e não por seus próprios interesses.

Quase todos aplaudiram o plano de ataque surpresa — "ficamos aguardando até que os líderes e autoridades iranianos estivessem reunidos em poucos lugares" — desenvolvido ao longo de vários meses com o governo Trump. Outros ainda elogiaram a maior ofensiva aérea de Israel — 200 caças-bombardeiros e 500 alvos atingidos no Irã — e as notícias de uma liderança iraniana "decapitada", com a eliminação do aiatolá Khamenei, o Líder Supremo da República Islâmica. Os civis iranianos assassinados não foram manchete em Israel: o Crescente Vermelho iraniano relatou um balanço provisório de 201 mortos e 747 feridos. Até mesmo a oposição aplaudiu o ataque.

Fortalecido pelo apoio da opinião pública, Netanyahu discursou aos israelenses logo após o discurso de Donald Trump aos estadunidenses. Em seu discurso, a frase "vamos eliminar o programa nuclear e de mísseis do Irã", repetida por mais de vinte anos, foi ofuscada por "mudança de regime em Teerã". Falando com o tom de um pai de família enquanto as bombas israelenses choviam sobre a capital iraniana, matando e ferindo, o primeiro-ministro instou os iranianos a se rebelarem contra Khamenei e derrubarem a República Islâmica para se libertarem e eliminarem uma "ameaça existencial para Israel". A ação conjunta com os EUA, disse ele, "criará as condições para que o corajoso povo iraniano tome as rédeas do seu destino. Chegou a hora de todos os segmentos do povo iraniano — persas, curdos, azeris, balúchis e ahwazis — se libertarem do jugo da tirania e construírem um Irã livre e em busca da paz."

Em um segundo discurso gravado, afirmou que há "sinais crescentes" de que Khamenei havia sido assassinado. Ao cair da noite, a euforia deu lugar ao realismo dos analistas mais objetivos. Israel e os Estados Unidos, escreveram alguns, haviam estabelecido objetivos demasiado ambiciosos, e os resultados da guerra querida por Netanyahu, que começou ontem, poderiam ser muito diferentes dos planejados. Danny Citrinowicz, do Atlantic Council, escreveu que qualquer avaliação da escalada em curso deve começar pelo realismo estratégico. O enfraquecimento do Irã não é sinônimo de colapso da República Islâmica, explicou ele. Segundo Citrinowicz, "Teerã passou décadas preparando planos para lidar com tais contingências... mantém coesão funcional e continuidade de comando". Portanto, continuou ele, "análises prematuras sobre a fragilidade do regime iraniano correm o risco de causar erros de cálculo estratégico". Também na hipótese que o Líder Supremo Ali Khamenei estiver morto, a queda do regime não seria automática. "O regime", prosseguiu ele, "está estruturado para sobreviver à perda de liderança. A decapitação política pode gerar turbulência, mas não um colapso sistêmico". Além disso, concluiu, "derrubar a República Islâmica exige uma oposição interna crível, que, no entanto, não existe... além disso, as guerras tendem a fortalecer a coesão das elites em vez de fragmentá-las".

Nos territórios palestinos ocupados, Israel continua a usar a mão de ferro. Desde o início do ataque ao Irã, novas restrições atingiram os civis palestinos, proibindo-os de atravessar o Portão de Damasco em Jerusalém Oriental. Outras restrições impediram o acesso à cidade a partir da Cisjordânia. Todos os grupos políticos palestinos condenaram a ofensiva "Rugido do Leão".

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