Água que se guarda ou água que se oferece. Comentário de Ana Casarotti

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06 Março 2026

A leitura que a Igreja propõe neste domingo é o Evangelho de Jesus Cristo segundo João 4,5-15.19b-26.39-42, que corresponde ao 3° Domingo de Quaresma, ciclo A do Ano Litúrgico.

O comentário é elaborado por Ana Maria Casarotti, Missionária de Cristo Ressuscitado.

Naquele tempo, Jesus chegou a uma cidade da Samaria, chamada Sicar, perto do terreno que Jacó tinha dado ao seu filho José. Era aí que ficava o poço de Jacó. Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço. Era por volta do meio-dia. Chegou uma mulher da Samaria para tirar água. Jesus lhe disse: "Dá-me de beber".

Os discípulos tinham ido à cidade para comprar alimentos. A mulher samaritana disse então a Jesus: "Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?" De fato, os judeus não se dão com os samaritanos. Respondeu-lhe Jesus: "Se tu conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede: 'Dá-me de beber', tu mesma lhe pedirias a ele, e ele te daria água viva."

A mulher disse a Jesus: "Senhor, nem sequer tens balde e o poço é fundo. De onde vais tirar a água viva? Por acaso, és maior que nosso pai Jacó, que nos deu o poço e que dele bebeu, como também seus filhos e seus animais?"

Respondeu Jesus: "Todo aquele que bebe desta água terá sede de novo. Mas quem beber da água que eu lhe darei, esse nunca mais terá sede. E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna". A mulher disse a Jesus: "Senhor, dá-me dessa água, para que eu não tenha mais sede e nem tenha de vir aqui para tirá-la".

"Senhor, vejo que és um profeta! Os nossos pais adoraram neste monte mas vós dizeis que em Jerusalém é que se deve adorar".

Disse-lhe Jesus: "Acredita-me, mulher: está chegando a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém adorareis o Pai. Vós adorais o que não conheceis. Nós adoramos o que conhecemos, pois a salvação vem dos judeus. Mas está chegando a hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade. De fato, estes são os adoradores que o Pai procura. Deus é espírito e aqueles que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade".

A mulher disse a Jesus: "Sei que o Messias (que se chama Cristo) vai chegar. Quando ele vier, vai nos fazer conhecer todas as coisas". Disse-lhe Jesus: "Sou eu, que estou falando contigo".

Muitos samaritanos daquela cidade abraçaram a fé em Jesus, por causa da palavra da mulher que testemunhava: "Ele me disse tudo o que eu fiz". Por isso, os samaritanos vieram ao encontro de Jesus e pediram que permanecesse com eles. Jesus permaneceu aí dois dias. E muitos outros creram por causa da sua palavra. E disseram à mulher: "Já não cremos por causa das tuas palavras, pois nós mesmos ouvimos e sabemos, que este é verdadeiramente o salvador do mundo".

Estamos na Quaresma, tempo em que a Igreja nos convida a viver intensamente para nos aprofundarmos no mistério da Páscoa, da morte e ressurreição de Jesus. Como nos disse o Papa Leão na quarta-feira de cinzas: "A Quaresma, de fato nos impele a essas mudanças de rumo — conversões — que tornam nossa mensagem mais crível." E "reconhecer nossos pecados para nos convertermos já é um prenúncio e um testemunho da ressurreição: significa não parar entre as cinzas, mas levantar e reconstruir." Leão XIV na Quarta-feira de Cinzas: "O mundo está em chamas; o direito internacional está em cinzas hoje".

Este tempo nos convida a contemplar novamente para Jesus com um olhar novo. A Quaresma é um tempo para aprofundar nossa caminhada pessoal e comunitária, para nos encorajar a deixar ressoar a pergunta: para onde vamos, o que desejamos, redescobrindo assim nossa caminhada com Jesus. É um tempo para afastar aquilo que impede que a luz ilumine nossa vida, um período especial para entrar no santuário da misericórdia do Pai. Tempo de purificação, de transformação e de renovação interior, para afinar o ouvido e ouvir a sua voz, como nos foi lembrado no domingo passado na leitura da Transfiguração. Jesus, com sua morte e ressurreição, vem dar um novo sentido à dor, à injustiça, a tanto sofrimento, pessoal ou social. Não precisamos inventar práticas dolorosas para nos aproximarmos de Jesus crucificado, porque ele está lá, em tantas comunidades flageladas pela desigualdade e pela opressão, pela tirania social que oprime e escraviza pessoas e grupos inteiros. Limpar o olhar para vê-lo, em meio a tantos povos que peregrinam atravessando a exclusão e o descarte... sua morte e ressurreição trazem uma nova perspectiva de esperança, pois a morte não tem a última palavra.

A liturgia deste domingo nos convida a meditar sobre Jesus dialogando com uma mulher de Samaria. Um longo diálogo em que Ele se aproxima dela pedindo-lhe de beber e lhe oferece Sua Vida, que se tornará nela uma fonte que jorra para a vida eterna. Este terceiro domingo da Quaresma coincide com o Dia Internacional da Mulher, sob o lema: “Direitos, justiça e ação por e para todas as mulheres e meninas”. A partir dessa perspectiva, meditamos sobre este texto, no qual uma mulher volta a ser protagonista, apesar de fazer parte de um povo excluído e de se encontrar em situações que a marginalizam. Jesus devolve-lhe a sua dignidade e os seus direitos!
Jesus está decidido a ir para a Judeia e tem que atravessar a Samaria, terra não apreciada pelos judeus e com quem havia uma disputa nascida séculos atrás pelo lugar sagrado onde se devia adorar a Deus.

Cansado da viagem, Jesus sentou-se junto ao poço

Jesus está cansado após uma longa caminhada pela manhã sob o sol e senta-se junto ao poço. Quando chega a mulher da Samaria, ele diz-lhe: “Dá-me de beber”. Esta mulher era alguém que conhecia a sua condição social – casada com cinco maridos – e certamente sofria com isso. Ela dirige-se ao poço ao meio-dia porque, apesar do calor, provavelmente havia menos gente. No entanto, ela encontra esse homem, Jesus, que conversa com ela e lhe pede água. É algo impensável que um homem judeu converse com uma mulher samaritana e, por isso, ela não “obedece imediatamente”, mas o confronta: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou uma mulher samaritana?"

Jesus se apresenta necessitado, tem sede e assim o manifesta a essa mulher. Deixemos ressoar esse pedido de Jesus que, como à mulher samaritana, também nos diz “dá-me de beber”. O que é aquilo que carregamos nas nossas costas que Jesus nos convida a dar-lhe, que nos convida a entregar-lhe? Perguntamo-nos: qual é esse balde que, como a samaritana, transportamos todos os dias para buscar uma água que não sacia, mas à qual nos habituámos? Um balde como o dela, que ela levava ao meio-dia sob o sol para saciar, ainda que provisoriamente, a sua sede e a dos seus animais. Seu balde carga uma história difícil, era quase seu parceiro de viagem, abrigava sua vida e sua dor, suas perguntas, mas a água que ela recolhia não saciava sua sede. Qual é o nosso balde que é tão cativado por respostas aparentes, mas que não saciam a sede profunda?

Jesus, sentado à margem do poço, dialoga com a mulher samaritana, que progressivamente vai “esvaziando seu balde” pesado por uma religião que a mantinha fechada em seu próprio círculo, por uma vida pessoal que a marginalizava e a tornava conhecida como a mulher que teve cinco maridos e agora estava com alguém que não era seu marido! Ela já estava estereotipada em um lugar que não lhe permitia se abrir para algo novo, nem mesmo dialogar com um homem, muito menos com um judeu. Este tempo da Quaresma nos convida a olhar para esse balde que nós levamos ao poço e o reabastecemos com as mesmas águas... mas elas não saciam a sede profunda que habita no mais íntimo de nós.

Inicia-se um diálogo entre a mulher samaritana e Jesus, onde trocam necessidades, “conhecimentos”, histórias e, fundamentalmente, onde ela entrega as suas águas profundas, mas que não a satisfazem, para receber a água que sacia a sede mais íntima... aquela que Jesus lhe oferece: E a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna".

“A mulher deixou o seu cântaro e foi à cidade, dizendo ao povo: "Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz”

Nomear o nosso cântaro, reconhecer o que há nele, mesmo que pareça vazio, entregar a Jesus essas águas que tentavam saciar a nossa sede são fundamentais para abrir o nosso cântaro interior à Promessa de Jesus e deixar que o seu Espírito habite em nós. Como a samaritana, temos que entregar nosso balde, nossa história junto a Jesus, à beira do poço... não podemos saciar nossa sede com sua água viva se continuarmos tentando encher nosso baldinho com águas provisórias. Um recipiente se esgota e a fonte se desborda, o balde acumula e a fonte deixa fluir... eles sinalam dois horizontes: o limite ou a abundância!

Neste terceiro domingo da Quaresma, somos chamados a entregar nossas “águas” a Jesus, a depositar também junto a ele o balde que as transportava, costumes, histórias, atitudes, tudo aquilo que aparentemente nos enche, mas que não deixa espaço para que brote a água que mana para a vida eterna. Desta forma, poderemos reconhecer em Jesus o Messias que liberta e dizer, como a samaritana: "Vinde ver um homem que me disse tudo o que eu fiz”

A samaritana transmite ao seu povo o que está vivendo, não guarda para si, mas compartilha com os outros. Como nos disse o Papa Leão: “A Quaresma, é um tempo poderoso de comunidade", "sabemos como é cada vez mais difícil reunir as pessoas e sentir-se como um povo, não de uma forma nacionalista e agressiva, mas em comunhão onde cada um encontra o seu lugar. De fato, aqui está se formando um povo que reconhece os seus próprios pecados com uma atitude contrária, que, quando é tão natural declararmo-nos impotentes diante de um mundo em chamas, constitui uma alternativa real, honesta e atraente". Leão XIV na Quarta-feira de Cinzas: "O mundo está em chamas; o direito internacional está em cinzas hoje".

Junto com a mulher samaritana que como tantas mulheres continua construindo comunidade e levando Águas de vida para tantas irmãs e irmãos, fazemos nosso o lema deste ano para o dia internacional da mulher: “Direitos, justiça e ação por e para todas as mulheres e crianças”.

Oração

Unidos ao Papa Francisco rezamos:

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