A prevalência da selvageria. Artigo de Massimo Adinolfi

Foto: Mostafa Bassim/Anadolu Ajansi

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12 Janeiro 2026

"O fato é que a América que se torna grande é uma América que se torna feroz, que não se detém diante de garantias constitucionais, Estado de Direito e rule of law. Pelo contrário, as amassa sem muita cerimônia", escreve Massimo Adinolfi, filósofo italiano, em artigo publicado por La Repubblica, 09-01-2026. A tradução é de Luisa Rabolini.

Eis o artigo.

Uma tragédia. Mas aquela mulher estava pedindo por isso, afirma sem o mínimo de vergonha o vice-presidente de Trump, o católico J.D. Vance, a respeito dos eventos de Minneapolis. E os estadunidenses? Eu pergunto: será que os cidadãos estadunidenses também pediram por isso, ou talvez estejam pedindo a tragédia de um poder executivo que, em nome da legalidade e da luta contra a imigração, não receia despejar, nas ruas das principais cidades do país (melhor se governadas por prefeitos e governadores democratas), uma força policial cada vez mais inescrupulosa, à qual tudo é permitido? É cedo demais para dizer quais serão as consequências do embrutecimento da vida pública estadunidense, mas uma coisa já é certa, a propósito de segurança: as liberdades civis nos Estados Unidos já não são tão seguras assim.

No último 8 de outubro, no inferno de Chicago (que Chicago, a terceira maior cidade do país, seja um inferno é opinião de Trump), um agente do ICE — a agência de Imigração e Alfândega a cujos quadros pertence o homem que assassinou a sangue frio Renee Nicole Good na quarta-feira passada — usou spray de pimenta para se livrar não de um ladrão ou assassino, mas de um pastor da Igreja presbiteriana que tentava, desarmado e à vista de todos, defender um grupo de imigrantes. Já naquele caso, os estadunidenses puderam ver um vídeo, mas mesmo assim, teve gente que descreveu a situação da maneira como Trump a descreveu ontem, com o desprezo da zombaria: digam o que quiserem, é isso que eu vejo. Na quarta-feira passada, o mundo inteiro assistiu a uma mulher tentando se afastar com seu carro e um policial disparando três tiros à queima-roupa, matando-a. Kristi Noem, Secretária de Segurança Interna, Trump (e poucos outros), em vez disso, viram uma provocadora profissional atentando contra a vida do policial. O mundo inteiro assistiu o policial que disparou se aproximando calmamente do carro; Trump, ao contrário, mão se sabe como, viu-o hospitalizado em decorrência da agressão sofrida.

Em 27 de outubro passado, sempre em Chicago, à margem não de uma manifestação política violenta, mas de um desfile infantil, agentes do ICE tiraram à força de seu carro um estadunidense de 67 anos, indefeso, causando-lhe seis costelas fraturadas e hemorragia interna. Ontem, por fim, a tragédia. Não tem nada de acidental, como demonstram os incidentes mencionados e muitos outros que ocorreram nos últimos meses: os agentes federais, que no governo Trump podem atuar com os rostos cobertos, têm evidentemente o mandato para efetuar detenções e prisões da forma mais rápida possível.

Ainda mais porque, enquanto o orçamento geral do DHS, o Departamento de Segurança Interna ao qual a agência é subordinada, cresce desproporcionalmente, com verbas cada vez maiores (e em cujos quadros agora existe o receio bem fundamentado de que se infiltrem membros dos Proud Boys, grupo nacionalista de extrema-direita), estão sendo reduzidas, a ponto de desaparecerem, medidas de supervisão e controle, graças ao fechamento dos escritórios com essa função. Esses são, explicou Kristi Noem, apenas obstáculos à aplicação inflexível da lei.

E assim, good morning, Minneapolis! Palavra do DHS, que depois relatou a operação policial na cidade da seguinte forma: "Já prendemos milhares de assassinos, estupradores, pedófilos e gângsteres", qualificando qualquer pessoa sem documentação em ordem como um criminoso da pior espécie, em uma operação que se assemelha mais a uma grande caça policial ao imigrante. Deportações em massa, revisão dos direitos de cidadania (Trump quer abolir o princípio da cidadania por nascimento): o retrocesso dos Estados Unidos corre o risco de ser sancionado de forma realmente trágica com a decisão da Suprema Corte, de maioria conservadora, que em breve se pronunciará sobre a Lei dos Direitos Civis. Se a Corte a declarar — como infelizmente é provável — parcialmente inconstitucional, a igualdade e a universalidade do direito ao voto ficariam seriamente comprometidas. E sabe-se lá quando a lei que finalmente viria a resolver esse problema por fim chegará, em um país que foi, sim, de Thomas Jefferson e Abraham Lincoln, mas também da segregação racial. E que, em todo caso, agora é de Donald Trump.

O fato é que a América que se torna grande é uma América que se torna feroz, que não se detém diante de garantias constitucionais, Estado de Direito e rule of law. Pelo contrário, as amassa sem muita cerimônia.

Como demonstra sua atitude agressiva em relação à imprensa — cuja liberdade Trump claramente quer ver dependente de sua aprovação pessoal —, suas avaliações desdenhosas dos poderes independentes dos tribunais ou do Banco Central, suas ameaças a escritórios de advocacia e as chantagens, mais ou menos explícitas, às universidades privadas: todos sinais que apontam para a mesma direção.

Basta ler os expoentes mais extremistas da direita radical, como Curtis Yarvin, para finalmente esboçar o quadro ideológico que os engloba. Yarvin é alguém que, quando questionado sobre o papel do intelectual, responde: "Explicar a todos que a única tarefa da direita estadunidense, ou da direita em qualquer país ocidental no início do século XXI, é a conquista unilateral, incondicional e permanente do Estado por um regime completamente novo."

Good morning, Minneapolis; good morning, America. And good luck.

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