A guerra de Putin é tão longa quanto a de Stalin. Artigo de Gianluca Di Feo

Vladimir Putin | Foto: Kremlin / FotosPúblicas

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12 Janeiro 2026

Na segunda-feira, a guerra na Ucrânia terá durado mais tempo do que o conflito entre a URSS e o Reich. Uma comparação que demonstra que os russos não são invencíveis hoje em dia.

O artigo é de Gianluca Di Feo, jornalista italiano, publicado por La Repubblica, 09-01-2026.

Eis o artigo.

Segunda-feira será uma data especial, que poderá nos ajudar a compreender alguns aspectos do conflito na Ucrânia. E, sobretudo, poderá contribuir para desmantelar a narrativa da invencibilidade da Rússia, também alimentada por Donald Trump.

De fato, terão decorrido mais de 1.418 dias desde o início da invasão ordenada por Vladimir Putin: o mesmo período da Segunda Guerra Mundial para a URSS. O ataque alemão começou em 22 de junho de 1941 e terminou com a rendição incondicional do Terceiro Reich em 9 de maio de 1945.

Durante esse mesmo período, o Exército Vermelho defendeu-se, lutando até às portas de Moscou, e depois de Stalingrado começou a avançar, conquistando Berlim e ocupando toda a Europa Oriental, da Bulgária às Repúblicas Bálticas.

Qual é o estado atual da guerra na Ucrânia?

Hoje, o Kremlin tenta evocar esses sucessos com o apelo a uma nova Guerra Patriótica, que substituiu a definição mais clínica de "Operação Militar Especial". No entanto, a comparação entre os resultados obtidos no terreno é implacável. Em quase quatro anos de batalha, os russos conquistaram Mariupol e a costa do Mar de Azov, e as planícies em partes das regiões de Zaporíjia e Kherson, enquanto nem mesmo o objetivo inicial de "libertar" Donbass foi alcançado.

Os ucranianos, de fato, continuam a resistir obstinadamente nos últimos redutos de Donetsk, e nem mesmo a queda de Pokrovsk, anunciada pelo presidente russo em 1º de dezembro, se concretizou.

Uma comparação impiedosa

Os números detalhados são explícitos. O ataque inicial na primavera de 2022 viu as brigadas do Kremlin varrerem 119.000 quilômetros quadrados da Ucrânia, mas o contra-ataque de Kiev retomou mais de 74.000 quilômetros quadrados até dezembro. Depois de passar 2023 na defensiva, os russos retomaram seu avanço em 2024, ocupando 4.168 quilômetros quadrados, adicionando outros 4.700 no ano passado.

A perda total é de 53.868 quilômetros quadrados: o tamanho da Lombardia, Piemonte e Ligúria. Ao mesmo tempo, as tropas de Stalin perderam e reconquistaram 1,6 milhão de quilômetros quadrados da URSS, e depois expulsaram as forças alemãs de outros 1,1 milhão de quilômetros quadrados da Europa Oriental.

Quantas pessoas morreram naquela época e quantas morrem hoje

Sem dúvida, essa vitória — fundamental para a derrota do nazismo — cobrou um preço altíssimo do povo soviético: estima-se que houve 27 milhões de mortes, com 18 milhões de vítimas civis. Isso equivale a 10 mortes, ou — se considerarmos apenas os militares — cerca de três vítimas por quilômetro quadrado. Um número bem menor se incluirmos a retirada para o rio Don.

As estimativas de baixas russas variam atualmente entre 250.000 e 350.000 homens: entre cinco e sete soldados perderam a vida para cada quilômetro reconquistado da Ucrânia. Essa estatística demonstra claramente a brutalidade dos combates em curso, com uma letalidade que, segundo observadores, aumentou nos últimos meses.

Dificuldades de Putin

Esses dados não podem ser estatisticamente significativos, pois a natureza dos conflitos é muito diferente: a hecatombe da guerra total que devastou o continente entre 1939 e 1945, felizmente, não está se repetindo, mesmo que o número de cidades e vilarejos arrasados ​​em Donbas continue aumentando.

Os paralelos entre os 1.415 dias de horror, no entanto, destacam as dificuldades que o Kremlin enfrenta no terreno, apesar de invadir uma nação muito menor, menos populosa e menos rica. E não foi a ajuda militar ocidental que interrompeu o avanço triunfante de Moscou — a ajuda americana foi suspensa em junho passado —, mas sim a determinação e a organização demonstradas pelos ucranianos.

Ao comparar as duas guerras, porém, um fator crucial deve ser levado em consideração: a Rússia não mobilizou todos os seus recursos humanos e econômicos. Putin não implementou o recrutamento forçado: apenas voluntários vão para a frente de batalha, e quase 30.000 pessoas se alistam mensalmente, atraídas por salários e benefícios extremamente altos.

As exportações de matéria-prima alimentaram uma crescente indústria de defesa, sem cortes nos gastos públicos em outros setores ou aumento de impostos. Isso permitiu ao Kremlin manter o consenso interno praticamente intacto. Até agora. Porque o novo ano promete ser problemático. A queda nos preços do petróleo e as iniciativas dos EUA para conter o contrabando de petróleo bruto, a crescente dívida pública e os custos militares estão pesando sobre o país, a ponto de terem que impor novos impostos pela primeira vez.

O sofrimento e as dificuldades da Ucrânia são evidentes para todos: o bombardeio da rede elétrica transformou o inverno em um pesadelo, e as perdas — a BBC estima 140 mil militares mortos — estão dizimando uma geração. Após 1.415 dias, essa carnificina precisa ser interrompida, mas ninguém consegue encontrar a fórmula para uma "paz justa".

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